Audiência de instrução do caso Anchieta termina com a oitiva dos três acusados

Por volta das 17h desta segunda-feira (8), a audiência de instrução dos técnicos de enfermagem que são acusados pelas mortes de três pacientes que estavam na UTI do Hospital Anchieta foi finalizada. No Fórum de Taguatinga, aconteceu a oitiva das últimas testemunhas e também dos três acusados: Amanda Rodrigues de Sousa, 29; Marcela Camilly Alves da Silva, 23; e Marcos Vinicius Silva Barbosa de Araújo, 24. O juiz João Marcos Guimarães, a pedido das defesas, determinou que novos documentos fossem juntados aos autos para o seguimento do processo. Até o momento ainda não há confirmação de um júri popular. 

Os três são acusados de matar Miranilde Pereira da Silva; João Clemente Pereira; e Marcos Raymundo Fernandes Moreira. As mortes aconteceram entre 17 de novembro e 1° de dezembro de 2025 na UTI do Hospital Anchieta, em Taguatinga. Na parte da manhã, foram ouvidas três testemunhas. As defesas dispensaram as outras seis que estavam previstas. No período da tarde, teve início o interrogatório dos três acusados.

Marcos Vinícius foi o primeiro a dar depoimento. O acusado só aceitou responder às perguntas da própria defesa. No interrogatório, que durou cerca de 25 minutos, Marcos detalhou como se aproximou de Marcela Camilly e de Amanda. Sobre Marcela, ele afirmou que a treinou logo que ela chegou ao hospital porque ela não possuía experiência. Sobre Amanda, o acusado disse que os dois se tornaram amigos “muito rápido”. Marcos Vinicius também declarou que apenas seguiu orientações médicas ao falar sobre os procedimentos que resultaram na morte de uma das vítimas, o Marcos Raymundo.

O advogado de Marcos Vinícius, Reinaldo França Lopes, afirmou que o réu admitiu ter participado das ações que resultaram na morte de Miranilde, mas que nos dois outros casos não possui culpa. “Ele reconheceu a conduta praticada em relação à paciente Miranilde. Sobre a motivação dos crimes, o advogado declarou que ainda não se sabe ao certo o que levou o acusado às ações. “É um ponto muito sensível. A defesa não sabe ao certo, até por ausência de investigação específica, o que levou ele a praticar esse determinado ato isolado no caso da senhora Miranilde. Então motivação específica não houve”, completou.

O depoimento seguinte foi de Marcela Camilly. Ela também respondeu perguntas somente dos advogados de defesa. Marcela afirmou que não possuía login e que não tinha autorização para entrar sozinha em um leito em caso de intercorrências, ou seja, emergências. Perguntada sobre o vídeo de segurança em que mostra Marcos Vinícius, no qual ela também aparece, preparando a suposta medicação que teria sido usada para matar uma das vítimas, Marcela afirmou que não conseguia ver o que o acusado estava fazendo. “Principalmente porque no vídeo mostra eu preparando a medicação de outro paciente”. Ainda segundo Marcela, “nunca passou pela minha cabeça que eles estariam injetando outras substâncias nos pacientes”. Por fim, Marcela se declarou inocente das acusações e também disse não saber a motivação das mortes. A defesa da ré preferiu não se pronunciar no momento.

O terceiro depoimento foi de Amanda Rodrigues, acusada pelos homicídios de Miranilde e João Clemente. Ela não foi denunciada pela morte de Marcos Raymundo. O depoimento dela foi o maior, pois a ré aceitou questionamentos também da acusação e do juiz titular. Ela afirmou que a proximidade dela e de Marcela com Marcos Vinícius influenciou nas prisões das duas. Também disse que acreditava que o técnico de enfermagem assumiria a culpa pelas mortes. “Queria que ele tivesse a hombridade de falar por que ele fez e como ele fez”. Ela ainda declarou que tanto ela quanto Marcela não auxiliaram nas mortes. “Em minha defesa, eu afirmo que não tive participação nas mortes dessas pessoas”.

O advogado de Amanda, Liomar Torres, sustentou a tese de que Amanda foi, na verdade, vítima de Marcos Vinícius. “Desde o início do processo, eu tenho dito com muita tranquilidade e serenidade: a Amanda é vítima de um processo manipulador do Marcos Vinicius”, afirmou. Ele disse que com as imagens do Hospital no dia 1º de dezembro sendo juntadas ao processo, a expectativa é que a defesa consiga apontar que Amanda era uma das possíveis vítimas do outro réu.

Com o fim da audiência, o juiz João Marcos Guimarães acatou pedidos da defesa de Amanda para que novas gravações do circuito interno do leito onde ela ficou internada no dia 1° de dezembro fossem juntadas ao processo. O juiz fixou um prazo de cinco dias para que os documentos pedidos sejam juntados e, na sequência, para as alegações finais do Ministério Público das defesas. “Determino que venham aos autos todos os documentos. Após juntados aos autos de todos os documentos, iniciará os prazos sucessivos para as alegações finais”.

Ministério Público quer o júri popular

O promotor de Justiça do Tribunal do Júri de Taguatinga, Bernardo de Urbano Resende comentou que o posicionamento do Ministério Público do Distrito Federal e Territórios (MPDFT) continua inalterado. “No primeiro interrogatório, o Marcos não disse muito porque não quis responder às perguntas. Depois, no mesmo sentido, a Marcela não quis responder também. Já quem se dispôs a falar foi a Amanda. No interrogatório dela, a gente percebe a estratégia de que as duas [Marcela e Amanda] sejam absolvidas e que responda por isso só o Marcos. Mas, na realidade, todo o processo me permite cada vez mais concluir que os três agiram de forma unânime. Todos os três visaram matar aquelas pessoas”, declarou o promotor.

De acordo com ele, depois de toda a documentação que a defesa entender necessária for juntada ao processo, esse processo vai ao Ministério Público para serem apresentadas as alegações finais. “Já adianto que vou pedir que eles [acusados] vão a júri. Eu entendo que tem provas mais do que suficientes não só para ir a júri, mas também para serem condenados”, completou Bernardo de Urbano.

A Polícia Civil do Distrito Federal (PCDF) enquadrou as três mortes como homicídio triplamente qualificado (por emprego de veneno, traição e mediante recurso que dificulte ou torne impossível a defesa da vítima). Marcos Vinicius e Marcela Camilly respondem pelos três homicídios, enquanto Amanda foi indiciada por dois. Segundo o inquérito da Coordenação de Repressão a Homicídios e Proteção à Pessoa (CHPP) da PCDF, a pena de Marcos e Marcela, caso sejam condenados integralmente, pode ser de até 90 anos de reclusão. A pena de Amanda pode chegar a 60 anos de reclusão.

T CSM
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