Por Caroline Purificação
Mais de um terço dos moradores do Distrito Federal realizou algum tipo de aposta nos últimos 12 meses, segundo a pesquisa “Apostadores no Distrito Federal: diagnóstico comportamental e sociodemográfico”, produzida pelo Instituto de Pesquisa e Estatística do Distrito Federal (IPEDF) em parceria com a Secretaria de Estado da Família do Distrito Federal (SEF-DF). O número representa 35% dos entrevistados do estudo inédito. A mostra também revela que o hábito de apostar está mais presente entre as pessoas de renda média-baixa (32,5%) e baixa(28,4%).
Entre as principais modalidades de aposta neste período estão: loteria (26,6%), bets (8,4%), bingo (8%), jogo do tigrinhos e outros tipos de cassinos (6,5%) e jogo do bicho (4,8%). Já em relação ao perfil dos apostadores, a pesquisa mostra que 61,9% são do sexo masculino e 38,1% feminino. Entre o público, cerca de 5,8% recebem algum tipo de benefício social, dado que levanta um alerta por parte das autoridades envolvidas no projeto.
Ainda sobre o perfil dos apostadores, o levantamento indica que cada modalidade concentra faixas etárias distintas. O jogo do bicho tem maior adesão entre idosos com 60 anos ou mais (30,7%), enquanto o bingo é mais frequente entre adultos de 30 a 49 anos (42,2%). Já os cassinos online concentram principalmente apostadores de 30 a 49 anos (51,7%), seguidos pela faixa de 18 a 29 anos (38,1%). As apostas esportivas seguem padrão semelhante, com 48,4% dos usuários entre 30 e 49 anos e 42,5% entre 18 e 29 anos.
Ao Jornal de Brasília, o diretor-presidente do IPEDF, Manoel Clementino, informou que a pesquisa “é fundamental para compreender um fenômeno que vem se intensificando e que possui impactos diretos na vida das famílias. Destaco que o IPEDF tem a missão de produzir dados para orientar decisões em políticas públicas, atuando de forma preventiva e baseada em evidências”.
Lazer se torna risco social
De acordo com a diretora de Estudos e Políticas Sociais do IPEDF, Marcela Machado, a pesquisa alerta para os casos onde a aposta deixa de ser eventual e passa a ocupar um espaço fixo no orçamento das pessoas. Esse comportamento ultrapassa o âmbito individual e se torna um risco social ao comprometer as finanças domésticas, gerar endividamento, tensionar relações familiares e provocar impactos na saúde emocional, como ansiedade e depressão.
A diretora destacou ainda que o estudo revelou que 85,5% dos apostadores jogam motivada pela expectativa de retorno financeiro. Enquanto apenas 12% afirmaram apostar por lazer, o que evidencia uma discrepância significativa entre a intenção de entretenimento e a busca por ganhos econômicos. Para ela, o ambiente online facilita o comportamento das pessoas.
“Diferentemente da loteria tradicional, que costuma exigir deslocamento e tem caráter mais ocasional, as apostas digitais estão disponíveis o tempo todo no celular. As apostas on-line, como bets, jogo do tigrinho e cassinos, ficam na palma da mão, o que aumenta a frequência, facilita apostas por impulso e torna esse comportamento ainda mais presente, especialmente entre pessoas mais jovens”, expos.
Segundo Marcela, o principal sinal de alerta ocorre quando a pessoa passa a utilizar recursos destinados a despesas básicas ou tenta recuperar perdas financeiras apostando ainda mais. A mostra revela que 45% dos apostadores nunca ganharam dinheiro com apostas, mas mantêm o hábito. “Diferentemente de outros vícios, como o álcool e as drogas, a ludopatia não apresenta sinais físicos evidentes, e muitas vezes a família só percebe o problema quando a situação financeira já está grave”, finalizou.
Secretária aposta em educação financeira
Para o secretário de Estado da Família do Distrito Federal, Rodrigo Delmasso, o estudo evidencia três pontos principais: o alto índice de pessoas que utilizam recursos de benefícios sociais para apostar; a participação expressiva em modalidades ilegais e o número elevado de pessoas que se endividam para manter as apostas, inclusive aquelas que ganham e acabam reinvestindo todo o dinheiro nos jogos. Ele afirma que o cenário evidencia uma carência de educação financeira entre a população.
Rodrigo informou ao Jornal de Brasília que a pesquisa também foi enviada à Polícia Civil do DF para investigações em relação às apostas ilegais. O dinheiro de apostas é usado em muitos casos para lavagem de dinheiro e financiamento do crime organizado, algo que precisa ser combatido segundo o secretário. Outra instituição que recebeu as informações foi o Banco BRB. A ideia é criar uma forma de proibir o uso dos cartões dos benefícios sociais nos sites de apostas.
“Uma das outras propostas é a criação de um curso de educação financeira junto ao BRB, tanto presencial quanto on-line, voltado aos apostadores do Distrito Federal, mas aberto à população em geral. A ideia é orientar para que as apostas sejam encaradas, no máximo, como uma forma de entretenimento, e não como fonte de renda. A pesquisa mostra que hoje muitos apostadores não veem as apostas como diversão, mas como expectativa de rentabilidade”, explicou.
Uma das medidas, já em prática, usadas para coibir este problema é o Programa Família Resiliente, voltado à educação financeira das famílias na capital. Segundo informações da pasta, a campanha já está sendo realizada na Rodoviária do Plano Piloto e a proposta é ampliar para as estações do metrô. Após o período de carnaval, as ações também deverão acontecer nas escolas públicas do DF.
“Muitas pessoas acreditam que as apostas são uma maneira fácil de ganhar dinheiro, quando, na realidade, são uma forma rápida de perder. O objetivo do curso de educação financeira é justamente trazer essa consciência. As apostas, sejam legais ou, principalmente, ilegais, envolvem uma alta probabilidade de perda do dinheiro investido. Existem outras modalidades que podem não prometer ganhos elevados, como as apostas costumam fazer, mas que oferecem rendimentos reais e mais seguros, mesmo com investimentos baixos”, concluiu.
A experiência de quem aposta
Josy dos Santos, de 60 anos, se diz abertamente viciada em jogos. Em relato ao Jornal de Brasília a idosa contou que aposta todos os dias no jogo do bicho e separa uma quantia mensal para o “passatempo”. A mulher relata que aposta há mais de 30 anos e não tem intenção nenhuma de parar. “Eu nunca parei de jogar e nem pretendo parar. Só vou parar de jogar quando eu morrer”, comentou.
A idosa criticou o fato de apostas em loterias serem liberadas e o jogo do bicho ainda ser algo legalizado. “Para mim esse é o jogo mais certo que tem. Hoje mesmo um homem ganhou R$ 28.000, pegou o dinheiro dele e foi embora. Não tem burocracia. Eu tenho 60 anos e nunca vi alguém conhecido ganhar da mega-sena, mas no jogo do bicho eu vejo o tempo todo”, mencionou.
Apesar de apostar diariamente, a mulher afirma que não possui o hábito de tirar o dinheiro das contas de casa para usar nas apostas. No entanto, também mencionou que já chegou a mexer no dinheiro reservado às contas. Segundo Josy, os filhos não gostam que ela faça jogos, então ela prefere não comentar com eles a respeito. Apenas o marido está ciente da situação.
Do outro lado, temos o caso do Carlos Ribeiro, de 49 anos. O homem costuma fazer apostas somente nas loterias. “Eu não jogo nesses cassinos online e ilegais, o meu vício mesmo são só as loterias. Eu costumo jogar em bolões com um grupo de amigos e geralmente quando o prêmio está acumulado, como é o caso da mega-sena hoje. Mas no geral eu sou bem controlado nesse sentido”, comentou. Questionado a respeito dos jogos ilegais, Carlos disse que não é a favor da liberação e já viu de perto casos de amigos que causaram muitos transtornos à família.