A França chegou à Copa do Mundo badalada e favorita ao título. Pouco mais de um mês depois, os franceses deixam o Mundial frustrados com o quarto lugar e cercados por uma crise que terá de ser controlada pelo seu novo treinador: o ídolo Zinédine Zidane.
DA EUFORIA À CRISE
Tudo parecia nos conformes até a semifinal. A França havia vencido todos os seus adversários com placares confortáveis com exceção do 1 a 0 sobre o retrancado Paraguai e com futebol envolvente, muito pelo poderio do quarteto ofensivo formado por Mbappé, Olise, Dembélé e Doué/Barcola.
A empolgação ruiu diante da filosofia espanhola. A França foi anulada na semifinal, sucumbiu ao domínio tático dos comandados de Luis de la Fuente e, ali, já garantiu sua pior campanha nas últimas três Copas foi campeã em 2018 e vice em 2022.
Ficou ainda pior na disputa pelo terceiro lugar. Na despedida do técnico Didier Deschamps, que ficou 14 anos no cargo, a seleção parecia caminhar para um desastre ao sofrer 4 a 0 para a Inglaterra no primeiro tempo. O treinador não poupou palavras na ida para o vestiário.
Realmente não poderia ser pior. Uma catástrofe. A cada ataque, nós levamos um gol. Eu posso até entender a decepção dos jogadores, mas eles não têm direito de fazer isso. Não assim, contra um adversário que joga uma partida de verdade, que está dedicado Didier Deschamps
A seleção melhorou na volta, mas não conseguiu evitar a derrota por 6 a 4. Bastou o apito final para que vestígios de atritos começassem a aparecer.
O primeiro foi o meio-campista Rabiot. O jogador do Milan não citou nomes, mas disparou críticas a companheiros pelo comportamento em campo.
Entramos no primeiro tempo de uma forma bastante vergonhosa. Vi o comportamento de alguns jogadores que eu nunca tinha visto antes. É um pouco decepcionante. Há muita decepção após a derrota para a Espanha, mas havia um trabalho a ser feito até o fim e não podemos simplesmente estragar as coisas assim. No primeiro tempo, certos comportamentos eram inaceitáveis Adrien Rabiot, na zona mista
A imprensa francesa especula que um dos “alvos” foi o meio-campista Rayan Cherki, do Manchester City. Reserva durante a Copa, ele teria confrontado Deschamps na pausa para hidratação do jogo contra a Inglaterra o jogador saiu no intervalo e foi flagrado deitado à beira do banco de reservas na etapa final. Além disso, a displicência em alguns jogos ajudou a endossar as críticas da mídia local.
Deschamps deixou o comando levantando ainda mais poeira. Em entrevista após o adeus, o treinador citou um “ambiente irrespirável”, mas não nomeou dirigentes ou jogadores.
Decidi que tinha que acabar. E se tomei essa decisão, não foi por mim, sinceramente, foi pelo bem da seleção francesa. Talvez eu não tenha dito isso antes, mas não foi por mim que tomei essa decisão.
Porque o ambiente era irrespirável, a seleção francesa não merece isso. A seleção francesa está acima de tudo. Ela não me pertence. Eu a servi em missão por quatorze anos. Não há nada acima desta camisa Didier Deschamps, ao canal M6
E AGORA, ZIDANE?
Zidane ainda não foi anunciado, mas será o novo técnico da seleção francesa. Segundo o jornal L’Équipe, os trabalhos começam no dia 1° de setembro, com os primeiros jogos sendo realizados no final daquele mês.
A experiência como técnico é curta, mas vencedora. Zidane treinou apenas o Real Madrid na carreira em duas oportunidades e conquistou três Champions, dois Campeonatos Espanhóis, duas Supercopas da Espanha, duas Supercopas da Uefa e dois Mundiais de Clubes.
Mas só os títulos bastam? Zidane assume uma França que tem uma geração badalada e pode ser mantida pelos próximos anos, mas que vive ebulição nos bastidores. Além disso, o treinador tem algumas questões táticas a resolver.
Uma delas é: como montar o ataque? Deschamps priorizou formar um ataque com quatro jogadores, confiando em Tchouaméni e Rabiot na fase defensiva. No Real, Zidane sempre optou por usar três atacantes.
A lateral-esquerda também é uma questão. Titular na Copa de 2026, Lucas Digne tem 32 anos e está de partida para o PSG, onde deve ser reserva de Nuno Mendes. Théo Hernández, seu substituto no Mundial, está no Al-Hilal, da Arábia Saudita, que vê a liga, antes de repleta de estrelas, ficar mais esvaziada.
E Mbappé? Apelidado de “ditador” por causa de supostas atitudes, o atacante sempre foi defendido por Deschamps, que exaltou a sua postura como capitão. Zidane sempre quis trabalhar com o jogador, tanto que o tentou levar ao Real Madrid muitos antes da transferência oficial acontecer.
Quando você é treinador e tem um jogador como ele, é claro que você quer treiná-lo. Muitas coisas podem acontecer. Pode acontecer algum dia. É um jogador que veste bem a camisa da seleção francesa. De qualquer forma, admiro o que ele faz. É bonito como joga futebol e é forte Zidane, ao L’Équipe, em 2023
As respostas serão dadas com o passar dos próximos meses. Por ora, a seleção vive clima tenso e o futuro é cercado de desconfiança.