Depois de ajudar, no ano passado, a amortecer o choque do tarifaço americano na balança comercial brasileira, a Argentina agora corta drasticamente as compras do Brasil e volta a ter a China como principal fornecedora. Neste ano, as importações da China no mercado vizinho superam as do Brasil em US$ 333 milhões, conforme dados de janeiro a maio do Indec, o instituto oficial de estatísticas da Argentina.
A “motosserra” do presidente Javier Milei, ao retirar subsídios que aliviavam despesas como luz, gás e transporte público, apertou o orçamento das famílias e levou muitos argentinos a adiar compras de bens de consumo supérfluos exportados pelo Brasil. No setor automotivo — principal item do comércio bilateral —, o quadro piora com a substituição de veículos brasileiros por modelos elétricos chineses.
Ainda que a liderança continue com as montadoras brasileiras, um em cada cinco carros importados pela Argentina já vem da China. Um ano após a entrada em massa de híbridos e elétricos, marcas chinesas somam mais de 9% dos veículos comprados no país, segundo dados do primeiro semestre da associação de concessionárias Acara.
A alta de preços acima da recuperação da renda, os juros elevados e o orçamento comprometido com gastos essenciais — incluindo planos de saúde, cujas mensalidades dispararam com o fim do controle de preços — fizeram a classe média postergar a troca do carro. De janeiro a junho, as vendas de automóveis e comerciais leves na Argentina caíram 10,5% ante o mesmo período de 2025.
Mesmo com o mercado menor, as cotas liberadas pelo governo Milei para importar até 50 mil veículos eletrificados com imposto de importação zero abriram espaço para a ofensiva chinesa.
O impacto é sentido pela indústria do outro lado da fronteira. Na semana passada, a Anfavea, entidade que representa as montadoras instaladas no Brasil, informou que a parcela da produção destinada ao exterior está entre as mais baixas dos últimos nove anos: 15,8% em 2026, acima apenas de 2024 (15,7%) e 2019 (14,7%).
De janeiro a junho, os embarques de veículos para a Argentina, principal destino das exportações das montadoras, recuaram 35,4%, para 106 mil unidades. Dados citados na última apresentação da Anfavea mostram que, em um ano, a participação dos carros brasileiros no total importado pela Argentina caiu de 82% para 56%.
O consultor Rogélio Golfarb, ex-presidente da Anfavea (2004-2007), afirma que a alta de preços de veículos e combustíveis favoreceu as montadoras chinesas, e que levar produção ao Brasil e a países vizinhos virou alternativa às barreiras tarifárias nos EUA e na Europa. “A internacionalização se tornou uma necessidade pelo excesso de capacidade de produção na China. Então, em três anos, saímos de um mercado praticamente dominado por marcas tradicionais para um ‘tsunami chinês’”, diz.
A substituição por produtos chineses também avança nas autopeças. Em dois anos, a participação do Brasil caiu de 33,9% para 28,2% nas importações argentinas do setor, enquanto a da China subiu de 8,8% para 15,3%, segundo a Afac, associação das fábricas argentinas de autopeças. Mais da metade do que a China vende ao país são itens também exportados por fabricantes brasileiros, como transmissões, componentes de motor, rodas, pneus e câmaras de ar.
O presidente-executivo da Afac, Juan Cantarella, diz que as peças chinesas ganham espaço tanto no mercado de reposição quanto dentro das montadoras, já que parte delas vem se associando a grupos chineses e aproveitando cotas de importação sem imposto para veículos desmontados.
Com o fim da exigência de certificado nacional de segurança, o governo argentino retirou uma barreira técnica para autopeças chinesas de reposição. “A importação de peças de reposição da China a preços que não refletem o princípio da lei de oferta e demanda, com apoio estatal, gera um dano irreparável à indústria local e regional”, afirma Cantarella.
Reação dos EUA a avanço chinês pode endurecer competição na Argentina
O avanço da China no mercado automotivo argentino, tradicionalmente dominado pelo Brasil, pode ser só o primeiro teste de uma competição que tende a se intensificar com a abertura comercial do governo Javier Milei. A aliança com Donald Trump resultou, em fevereiro, em um amplo acordo comercial que ainda depende do Congresso, mas já provoca protestos e preocupação entre os demais sócios do Mercosul.
Embora as regras do bloco regional impeçam seus membros de negociar acordos tarifários individuais com outras nações, a Argentina se comprometeu a zerar para os EUA as tarifas de importação de 221 posições tarifárias, incluindo máquinas, equipamentos de transporte, dispositivos médicos e produtos químicos. Para outras 20 posições, entre elas autopeças, as alíquotas cairiam para uma taxa fixa de 2%.
Milei aceitou ainda eliminar barreiras técnicas e burocráticas aos produtos americanos que entram em seu país, como as exigências de licenças de importação e de testes adicionais em território argentino, passando a aceitar as certificações regulatórias americanas. Também está prevista a liberação de cotas para a compra de até 10 mil carros dos Estados Unidos por ano, com alíquota zero do imposto de importação.
“Resumindo, os Estados Unidos passaram a concorrer com o Brasil na Argentina. E esta é uma concorrência que, assim como a China, o Brasil não tem como enfrentar. Não temos preço para competir com a China, e muito menos com os Estados Unidos”, comenta José Augusto de Castro, presidente da Associação de Comércio Exterior do Brasil (AEB). “Então, não vejo como reverter a situação. A tendência é, realmente, de queda nas exportações do Brasil para a Argentina”, acrescenta.
Para Federico Servideo, presidente da Câmara de Comércio Argentino-Brasileira de São Paulo (Camarbra), o acordo com os Estados Unidos pode afetar as vendas do Brasil em nichos específicos da Argentina. Ele cita a indústria de máquinas entre os setores potencialmente mais afetados.
“Não se prevê um deslocamento total, mas a tecnologia americana pode vir a ganhar algum terreno”, comenta Servideo. Ele pondera que os carros e as autopeças do Brasil, “núcleo duro” do comércio bilateral, dificilmente serão substituídos por concorrentes americanos no curto prazo, dada a integração produtiva entre os países vizinhos e os acordos específicos do Mercosul.
Investimento em infra e comércio sem dólar sustentam liderança chinesa na Argentina
Os acordos de cooperação firmados com os governos peronistas que antecederam o atual presidente do país, Javier Milei, dão hoje à China condições de destronar o Brasil no fornecimento à Argentina. Embora tanto o Brasil quanto a China estejam vendendo menos ao mercado argentino em 2026, o impacto sobre os produtos brasileiros é maior.
De janeiro a junho, os argentinos compraram US$ 7,98 bilhões da China (22,5% das importações totais) e US$ 7,65 bilhões do Brasil (21,5%). A diferença é de US$ 333 milhões a favor dos produtos chineses, segundo os dados da balança comercial argentina.
Não é a primeira liderança chinesa: de 2020 a 2022, Pequim já ocupou o primeiro lugar. Nos três anos seguintes, o Brasil reagiu com a recuperação do mercado automotivo e a recomposição das reservas internacionais argentinas, que desatou o principal nó no comércio bilateral: a falta de dólares para pagar importações.
A proximidade geográfica, a integração produtiva regional e as trocas comerciais livres de imposto, contudo, não bastam para manter o Brasil na liderança. A invasão dos carros elétricos chineses está só começando e tende a fortalecer um fluxo comercial já bastante apoiado por iniciativas da época em que Pequim e a Casa Rosada trabalhavam mais em conjunto.
Após a adesão da Argentina à Nova Rota da Seda, há quatro anos, o capital chinês passou a financiar grandes projetos de energia renovável, mineração, logística e petróleo e gás — incluindo Vaca Muerta, segunda maior reserva de gás de xisto do mundo. Com isso, cresceu a importação de máquinas e equipamentos chineses usados nesses empreendimentos, que puxam a atividade econômica na “era Milei”.
Além disso, a Argentina pode pagar exportadores chineses com yuans depositados no banco central, sem usar dólares — em grande parte “carimbados” para a dívida externa. O arranjo, iniciado no governo Cristina Kirchner (2007-2015), só é possível porque a China, com trilhões de dólares em reservas, aceita prescindir dos dólares argentinos. Além disso, uma fatia relevante das exportações argentinas de grãos e carne vai para a China, o que serve como uma espécie de garantia na operação.
O Brasil, por sua vez, tem agora dois dos seus três maiores mercados comprando menos os seus produtos. No ano passado, os argentinos ajudaram a compensar o tombo das vendas aos Estados Unidos após o tarifaço do presidente Donald Trump. Agora, porém, as exportações para a Argentina caem 19,4%, reduzindo o superávit comercial do Brasil com o principal sócio no Mercosul a menos de US$ 1 bilhão no primeiro semestre, um terço do saldo registrado no mesmo período de 2025.
Ao mesmo tempo em que a participação dos Estados Unidos, inferior a 10%, é a menor da série estatística, iniciada em 1997, a parcela dos produtos brasileiros absorvidos pelo mercado argentino voltou a ficar abaixo de 4%. É algo que só tinha ocorrido antes, nos seis primeiros meses do ano, em 2024 (3,5%), 2020 (3,7%) e 2002 (3,9%).
Para Roberto Luis Troster, economista argentino que vive há 50 anos no Brasil, o principal desafio dos dois maiores sócios do Mercosul será aumentar a competitividade da indústria automotiva para enfrentar a enxurrada de carros chineses.
“O carro chinês é mais barato, o futuro é elétrico e tanto o Brasil quanto a Argentina estão demorando para reagir. O primeiro objetivo tem de ser melhorar a competitividade nesse setor, abrindo com isso espaço para um maior comércio entre os países”, comenta Troster.