Entidades da sociedade civil que pesquisam e advogam por mudanças no serviço público tentam aproveitar o período eleitoral para criar oportunidades de interlocução com candidatos ao Executivo e Legislativo e criar circunstâncias favoráveis às pautas sobre o tema na próxima legislatura.
Elas adotam diferentes estratégias como conversas com representantes das campanhas, comunicação direta com o eleitor e monitoramento do discurso dos políticos.
A República.org, por exemplo, publicou um documento com 20 diagnósticos e propostas sobre a gestão de pessoas na administração pública brasileira. Entre as ideias estão a criação de mecanismos de avaliação de desempenho dos servidores, simplificação de carreiras no funcionalismo, combate aos supersalários e aumento da transparência sobre dados de gênero e raça entre os servidores.
Segundo a diretora-executiva Isadora Modesto, a entidade procurou representantes das principais campanhas presidenciais e, até o momento, não recebeu nenhuma recusa. Ela afirma que as conversas com algumas candidaturas avançaram mais e que houve reuniões com coordenadores de planos de governo.
Modesto afirma que a gestão de servidores é um tema invisível para a população e, por isso, pouco aparece nas campanhas. No entanto, ela diz que a próxima gestão precisará enfrentar o assunto.
“Algumas campanhas focam inovação e diversidade no concurso público; outras priorizam o combate a privilégios, como os supersalários. No geral, há um movimento para profissionalizar o serviço público, o que exige rever a seleção, o recrutamento e o desempenho dos servidores. A avaliação de desempenho ainda é um tema evitado pelos governos devido à resistência da própria categoria.”
Já o combate a privilégios é apontado por ela como mais urgente, por distorcer a legitimidade das instituições públicas. A diretora-executiva do República.org cita a resistência de setores como a magistratura e o Ministério Público como o principal obstáculo aos avanços nessa frente.
O Movimento Pessoas à Frente também deverá lançar um guia com propostas aos candidatos, com foco na liderança no setor público. Jessika Moreira, diretora-executiva da entidade, afirma que uma das vantagens do projeto é que a maioria das propostas não depende de alteração constitucional e pode ser implementada já no início do ciclo de gestão que começa em 2027.
Em julho, o grupo lançou o site Observatório da Reforma Administrativa, um desdobramento das articulações em torno do projeto de lei discutido no ano anterior.
A Transparência Brasil coordena o movimento Ninguém Acima da Lei, uma coalizão pela integridade do Judiciário que reúne a própria República.org, o movimento Orçamento Bem Gasto, o Pessoas à Frente, o Pacto pela Democracia e o G26 (grupo informal de empresários).
Segundo Juliana Sakai, diretora-executiva da Transparência Brasil, a ideia é concentrar a atenção nas eleições para o Senado, Casa responsável por processar eventuais pedidos de impeachment de ministros do STF (Supremo Tribunal Federal).
“Nós nos colocamos como uma coalizão da sociedade civil pela integridade do Judiciário”, diz Sakai. O objetivo declarado não é fazer campanha diretamente com o eleitor, mas ajudá-lo a entender o papel de um senador e alertar para os riscos da banalização do impeachment.
Felipe Angeli, da Plataforma Justa, parte de um diagnóstico mais cético sobre a eficácia de entregar documentos com propostas às campanhas. Para ele, o impacto real de “agendas” sobre os eleitores no processo eleitoral tem sido baixo.
A Justa, contudo, pretende municiar com argumentos os candidatos alinhados às ideias do instituto por exemplo, aqueles que se contrapõem a discursos de segurança pública inspirados no modelo do salvadorenho Nayib Bukele.