BC faz leilão de dólares em meio à saída de recursos estrangeiros do país

O BC (Banco Central) realizou na manhã desta quinta-feira (27) duas operações simultâneas de compra e venda de dólares para injetar liquidez no mercado cambial.

De um lado, a autarquia vendeu US$ 1 bilhão em moeda à vista. De outro, fez um leilão de 20 mil contratos no valor de US$ 1 bilhão de swap cambial reverso, uma operação cujo efeito equivale à compra de dólares no mercado futuro.

O efeito do chamado “casadão” sobre a cotação da divisa é nulo, já que, em tese, o BC vendeu e comprou o mesmo montante nas duas pontas.

O movimento é mais uma intervenção do BC no mercado –a última operação deste tipo foi em 22 de junho, também no valor de US$ 1 bilhão. Operadores de câmbio ouvidos pela Folha afirmam que os leilões desta quinta podem ter sido impulsionados pelo fluxo cambial de agosto.
Segundo dados do BC, divulgados na quarta-feira (26), o saldo está negativo em US$ 2,55 bilhões do começo do mês até a última sexta-feira (21). Só na semana passada, a saída líquida foi de US$ 4,055 bilhões.

Eles lembram que a autoridade monetária só interfere nas operações quando há disfuncionalidades de oferta e demanda, e não para empurrar a cotação do dólar para cima ou para baixo.

No caso, a leitura é de que a demanda por dólares está assimétrica, diz Leonel de Oliveira Mattos, analista de inteligência de mercados da StoneX.

“A premissa é que enfrentamos saídas financeiras pesadas na sessão desta quinta e por isso houve necessidade de realizar a operação”, afirma.

O BC tem mecanismos de monitoramento que conseguem antever alguma demanda atípica por dólares, para agir preventivamente e evitar grandes disfuncionalidades.

Além disso, afirma Mattos, o BC tem atuado para reduzir sua posição no mercado liquidando parte do estoque de “swaps”.

Esse tipo de contrato deixa a autarquia “vendida” em dólar e equivale, na prática, a uma venda futura de dólares.

Quando o BC executa o swap cambial reverso no “casadão”, é como se a autarquia estivesse anulando um contrato com outro.

“A interpretação é que o BC poderia estar preocupado com uma perda de eficiência de futuras intervenções cambiais por conta do elevado estoque de swaps”, diz Mattos.

Se, por um lado, o BC atua corrigindo distorções de oferta e demanda por meio dos leilões, por outro a saída de recursos do país pode se dar por uma correção técnica.

Até agora, agosto está caminhando para ser o pior mês de 2026 para a Bolsa em termos de fluxo. Segundo dados da B3 até terça-feira (25), o saldo de investidores estrangeiros está negativo em R$ 20 bilhões. No acumulado do ano, a cifra ainda é positiva, em R$ 21 bilhões.

A debandada vai na contramão do movimento observado no início do ano. Em janeiro, o volume de recursos estrangeiros que entrou na Bolsa foi de R$ 26,5 bilhões –valor semelhante ao registrado em todo 2025.

O forte apetite por ações brasileiras fez o índice Ibovespa rondar os 200 mil pontos e ajudou o dólar a chegar aos menores patamares desde 2024.

Parte do ânimo era alimentada pela expectativa de que a Selic recuaria para a faixa de 12%. A queda da taxa básica de juros aumentava o apetite por ativos do mercado acionário local em relação à renda fixa.

Agora, a projeção é de apenas mais uma redução de 0,25 ponto percentual na taxa, levando-a para 13,75%.

A Bolsa também era beneficiada pela narrativa predominante de diversificação das carteiras globais.

Em meio às instabilidades provocadas pelas políticas externa, comercial e econômica de Donald Trump nos Estados Unidos, investidores globais apostavam em mercados menos expostos às incertezas e com alto potencial de retorno.

A guerra no Irã reverteu esse movimento. Investidores globais passaram a reduzir as alocações em mercados emergentes e a buscar ativos de maior liquidez.

O índice DXY, que mede o desempenho do dólar frente a uma cesta de seis moedas fortes, recuava 0,72% até o início do conflito. Desde então, inverteu o movimento e acumula alta de 1,55% desde o fim de fevereiro, quando ocorreram os primeiros ataques dos EUA e de Israel contra o Irã.

Além disso, a volatilidade atribuída ao cenário eleitoral brasileiro e a trajetória da dívida pública do país pesam sobre os ativos. O JPMorgan mencionou os fatores para reduzir a recomendação para as ações brasileiras de “overweight” (acima da média) para “neutra”. O banco também destaca o déficit fiscal como um fator de peso sobre o mercado acionário.

“As perspectivas para a política econômica continuam incertas, já que quem vencer as eleições de outubro terá de lidar com taxas de juros reais elevadas e com déficit fiscal. Do ponto de vista mais técnico, o Brasil costuma apresentar desempenho inferior nos seis meses que antecedem as eleições”, afirma o banco, em relatório.

O Morgan Stanley também reforça o cenário fiscal. Para o banco, caso haja percepção de continuidade fiscal sem credibilidade após as eleições, o real pode se desvalorizar e o dólar chegar a R$ 6,00, em decorrência de um choque adverso de confiança.

A instituição financeira também vê o dólar cotado a R$ 5,25 caso seja apresentado um plano amplo de consolidação fiscal, com reformas das despesas obrigatórias. No cenário otimista, com um plano crível e robusto de consolidação fiscal gradual após as eleições, o banco vê o dólar chegando a R$ 4,50.

T CSM
Fábio Andrade Contabilidade - Contador em Santa Maria DF
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