EDUARDO MOURA
FOLHAPRESS
“Quem mais fala sobre pronome neutro é a extrema direita, nossas pautas não são essas”, diz a deputada estadual eleita Sofia Favero (PSOL), que teve como principal madrinha política Erika Hilton (PSOL -SP).
“Nossas pautas são moradia, trabalho digno, saúde, construção de bibliotecas, hospitais. A gente está aqui para lutar pelas Fatecs [Faculdades de Tecnologia do Estado de São Paulo], pelas Etecs [Escolas Técnicas Estaduais]. A extrema direita não quer discutir nada disso, quer discutir pautas morais”, afirma.
Doutora em psicologia pela Universidade Federal do Rio Grande do Sul, Favero foi a terceira deputada eleita mais votada para a Assembleia Legislativa de São Paulo (Alesp), com 407.773 votos. Ela só ficou atrás de Eduarda Campopiano (PL) e Eduardo Suplicy (PT).
“Foi um resultado surpreendente e ao mesmo tempo muito feliz. Acho que é um sinal de que existe uma parcela da população paulista que quer travestis representando-as e desmascarando a hipocrisia da extrema direita”, diz.
Apesar de ter conseguido votações expressivas para alguns candidatos, o PSOL não atingiu a cláusula de barreira ou de desempenho e ficará sem tempo de TV e rádio para propaganda eleitoral gratuita e sem dinheiro do fundo partidário.
Hilton criticou a concentração de recursos em candidaturas com pouco potencial de serem eleitas em entrevista à Globonews. À CNN Brasil, a parlamentar chegou a dizer que seu futuro no partido era incerto.
Favero, por sua vez, prefere não entrar nessa seara. Questionada sobre o seu futuro no partido, ela diz que é “muito cedo para pensar nisso”.
“O PSOL é um partido que eu admiro muito. Eu me sinto super honrada de estar no partido agora, independentemente do que aconteça. Acho triste que não tenha conseguido atingir a cláusula de barreira”, afirma. “Que a gente consiga reverter isso. Acredito que vai ser possível.”
Natural de Aracaju, Favero ganhou projeção nacional no início da década passada com a página Travesti Reflexiva, que segundo ela chegou a ter 200 mil seguidores no Facebook.
“Criei essa página para poder falar das experiências de travestis”, diz. “Se você pesquisasse travestis nessa época no Google, você só encontrava ou notícias de morte ou conteúdo erótico.”
Com isso em mente, Favero criou a página para falar das experiências de travestis. Era um blog também de política, mas sobretudo de humor, numa pegada de “fazer graça com a desgraça”, ela diz. “Uma pessoa de dentro da comunidade trazendo vocabulários e gramáticas de dentro da comunidade”, diz. “E aí começou a viralizar.”
A atuação política começou ainda na graduação, quando foi líder estudantil. Nesse período, Favero ajudou a fundar o EducaTrans, cursinho pré-vestibular para pessoas trans. Após um período funcionando numa escola que pedia, como contrapartida, que os participantes do projeto faxinassem o prédio todo, o PSOL de Sergipe ofereceu a elas um espaço na sede do partido.
Nos últimos anos, candidaturas de pessoas trans têm se tornado mais comuns. Na próxima legislatura, a Câmara dos Deputados terá três parlamentares trans: Duda Salabert (PSOL-MG), Erika Hilton (PSOL-SP) e Thabatta Pimenta (PV-RN). Na Câmara Municipal de São Paulo, Amanda Paschoal (PSOL) foi a quinta mais votada em 2024.
“A gente vem vindo desde 2010 a 2020 com decisões importantes no STF. Uma delas é o casamento igualitário e outra é a possibilidade de as pessoas trans mudarem o nome no cartório”, afirma a deputada eleita. “Isso gera a cidadania.”
“Então, o fato de que, na última década, as pessoas trans conseguiram ter mais cidadania, também vai repercutir na entrada delas em outras esferas, nos cursos universitários, seja no trabalho, seja na política.”