Tensões entre União Europeia e EUA derrubam mercados globais em meio a procura por segurança

As novas ameaças tarifárias dos Estados Unidos sobre oito países da Europa causaram forte instabilidade nos mercados globais nesta terça-feira (20).

Juros dos Estados Unidos subiram, enquanto os índices acionários de Wall Street registraram fortes quedas. A escalada de tensões ainda provocou fuga do dólar, com o índice DXY, que o compara a seis divisas fortes, recuando 0,46%, a 98,59 pontos.

A procura por segurança também levou o ouro a romper as máximas históricas, cotado a US$ 4.758 por onça troy.

“O principal vetor do dia foi o comportamento dos juros futuros dos Estados Unidos. Os rendimentos das treasuries, especialmente nos vencimentos mais longos, avançaram e sustentaram um viés mais defensivo global”, diz Bruno Botelho, especialista em câmbio da ONE Investimentos.

A treasury de 10 anos, referência global de investimentos, subiu 1,46%, marcando rendimento de 4,295%.

Essa alta pressionou os juros futuros do Brasil, especialmente os de prazos mais longos.

A taxa de DI (depósito interfinanceiro) para janeiro de 2028 subiu 0,57%, para 13,215%. A de janeiro de 2031 avançou 0,89%, a 13,6%, e a de janeiro de 2036 teve ganhos de 0,95%, a 13,82%.

O movimento ainda teve de pano de fundo “uma liquidação intensa de títulos do governo japonês, vendidos nas máximas históricas”, diz Daniel Teles, sócio da Valor Investimentos. “Isso levantou uma preocupação a respeito de onde essa realocação de capital pode acontecer, inflando o risco dos negócios.”

O movimento no Brasil, porém, contrariou a tendência global. O dólar avançou 0,29%, cotado a R$ 5,379, com investidores evitando aportes em moedas de mercados emergentes. “A divisa dos EUA chegou a oscilar ao longo do dia, refletindo a combinação entre aversão ao risco global e fatores domésticos que ajudaram a limitar uma valorização mais intensa”, diz Botelho.

Já a Bolsa registrou alta de 0,86%, a 166.276 pontos -novo recorde histórico. O avanço aqui, segundo Paula Zogbi, estrategista-chefe da Nomad, derivou do “fluxo estrangeiro em meio à saída de capitais dos EUA e Europa e com altas de commodities”.

Wall Street teve a pior baixa em três semanas. O S&P 500 recuou 2,06%; Nasdaq e Dow Jones, 2,39% e 1,76%, respectivamente. Já os europeus STOXX 600, DAX e CAC caíram 0,7%, 1,03% e 1,19%, nesta ordem.

As ameaças de novas tarifas de Donald Trump sobre parceiros comerciais europeus começaram no final de semana. No sábado (17), o presidente norte-americano prometeu implementar tarifas adicionais de importação de 10% sobre produtos da Dinamarca, Noruega, Suécia, França, Alemanha, Holanda, Finlândia e Reino Unido -todos já sujeitos às tarifas impostas no ano passado.

Segundo o republicano, as taxas entrarão em vigor em 1º de fevereiro e serão mantidas até que os EUA tenham permissão para comprar a Groenlândia, ilha ártica da Dinamarca. Essas tarifas aumentarão para 25% em 1º de junho e continuarão até que se chegue a um acordo envolvendo o território, escreveu Trump.

Ele, por outro lado, afirmou que já não pensa mais “puramente na paz”, evitando dizer se usaria a força para tomar a ilha, mas reiterando a ameaça tarifária. Nesta terça, ainda ameaçou impor tarifas de 200% aos vinhos e champanhes franceses na tentativa de convencer o presidente da França, Emmanuel Macron, a aderir à sua iniciativa do “Conselho de Paz”, que visa resolver conflitos globais.

Do outro lado, o Parlamento Europeu decidiu suspender o processo de ratificação do acordo comercial entre a UE e os Estados Unidos devido às ameaças de Trump.

A União Europeia ainda estuda mais retaliações. A presidente da Comissão Europeia, Ursula v
on der Leyen, prometeu nesta terça que a resposta do bloco será “inabalável” e “proporcional”.

No momento, os europeus avaliam um pacote de tarifas sobre 93 bilhões de euros (R$ 581 bilhões) de importações dos EUA, que poderia entrar em vigor automaticamente em 6 de fevereiro, após uma suspensão de seis meses.

Outra opção estudada é acionar o “Instrumento Anti-Coerção” (ACI), nunca utilizado até o momento, que poderia limitar o acesso a licitações públicas, investimentos ou atividades bancárias, ou restringir o comércio de serviços, no qual os EUA têm um superávit com o bloco, incluindo serviços digitais
.
Os europeus terão uma reunião na quinta-feira (22) para deliberar sobre a resposta às ameaças de Trump.

O dia também esteve embalado pela expectativa em torno do novo nome para o comando do Fed (Federal Reserve, o banco central dos EUA). O mandato do atual presidente, Jerome Powell, encerra em maio, em meio às tensões crescentes entre ele e Trump em torno do atual patamar de juros.

Powell não tem atendido às demandas de Trump por taxas mais baixas e diz que as decisões de política monetária do comitê do banco central são tomadas a partir da análise de dados econômicos, não por pressão política.

Trump disse estar inclinado a nomear o ex-diretor do Fed, Kevin Warsh, ou o diretor do Conselho Econômico Nacional, Kevin Hassett, para o cargo. “Os dois Kevins são muito bons”, disse Trump. “Tem outras pessoas boas. Anunciarei algo nas próximas semanas.”

Segundo o secretário do Tesouro dos EUA, Scott Bessent, Trump pode chegar a uma decisão na próxima semana. “Estamos agora com quatro candidatos”, afirmou em uma entrevista à CNBC.

Os outros dois nomes cotados são o diretor do Fed, Christopher Waller, e o gerente-chefe de investimentos em títulos da BlackRock, Rick Rieder.

T CSM

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