Isabela Palhares
A gestão do prefeito Ricardo Nunes (MDB) começou a espalhar totens pela cidade de São Paulo para divulgar o “maior Carnaval do Brasil” sem ter definido a programação dos blocos. A propaganda traz um QR Code, onde em tese é possível acessar a agenda de desfiles —no entanto, ela está indisponível.
Isso acontece porque, a menos de três semanas para a festa, muitos blocos ainda não sabem qual trajeto vão fazer, nem dia e horário que poderão desfilar. Os organizadores dizem que a demora da prefeitura nessa definição dificulta a busca por patrocinadores.
A gestão Nunes confirmou ainda não ter disponibilizado a programação do Carnaval de rua e diz não haver nenhum atraso. Questionada, não informou se há previsão de quando ela será divulgada.
Nos últimos anos, o prefeito vem defendendo que São Paulo tem o maior carnaval do Brasil, sob o argumento de que a cidade reúne mais público do que outras. A afirmação gerou uma onda de memes ironizando a exaltação de Nunes e cobranças dos blocos paulistanos por mais apoio e organização.
Outras capitais com forte tradição de Carnaval, como Rio e Salvador, já tiveram a programação oficial anunciada pelas prefeituras. Na capital fluminense, inclusive, os desfiles oficiais já começaram a tomar as ruas desde o último dia 17 de janeiro. Em Olinda (PE), o pré-Carnaval começou ainda antes, em setembro do ano passado.
Enquanto isso, em São Paulo, a prefeitura não tem autorizado blocos a fazerem cortejos ou desfilarem nas ruas. Assim, muitos grupos têm sido obrigados a recorrer a praças e locais fechados para começar o Carnaval na capital paulista.
“A programação não é informada, porque ela ainda não existe. Os blocos começaram a ser informados nesta semana sobre o trajeto e o dia que estão autorizados a sair. Isso dificulta muito a organização, especialmente, dos blocos menores e médios que são quem fazem o Carnaval viver na cidade durante todo o ano”, diz José Cury, co-fundador do Fórum de Blocos.
Para ele, a demora e incerteza provocadas pela prefeitura podem levar muitos blocos a cancelarem seus desfiles. “A gestão municipal não só não dá apoio financeiro, como ainda atrapalha os blocos a buscarem financiamento. Quem vai dar patrocínio, investir dinheiro sem saber se o bloco vai sair mesmo ou onde vai sair?”, diz ele.
A prefeitura também não divulgou ainda o resultado do edital de Fomento Cultural a Blocos de Carnaval de Rua, que vai destinar R$ 2,5 milhões para apoiar 100 blocos. “Nada é informado, nada é planejdo com antecedência. Ninguém sabe quem vai ter apoio nem quando vai receber o dinheiro”, afirma Cury.
Questionada pela Folha, a Prefeitura de São Paulo também não respondeu quando irá divulgar os blocos contemplados pelo edital.
Organizadores dos blocos reclamam ainda de falta de diálogo com a prefeitura. Até o governo Bruno Covas (PSDB), a gestão municipal mantinha uma comissão, com representantes de diversos setores, para discutir o Carnaval. Esse grupo foi encerrado pela gestão Nunes.
Outra reclamação é a proibição do Carnaval noturno em São Paulo. Desde o ano passado, a gestão Nunes determinou que todos os desfiles de blocos devem acabar até as 18h, com dispersão total do público até as 19h.
“O Carnaval de São Paulo é o único entre as capitais que tem toque de recolher. Proibir que os blocos saiam depois das 18h é um absurdo, um desrespeito com a tradição do Carnaval que sempre aconteceu à noite”, diz Lira Alli, do grupo Arrastão dos Blocos.
Em nota, a prefeitura disse que os totens fazem parte das ações do Carnaval e que estão em processo de instalação. “Tão logo a programação do Carnaval de rua seja finalizada, as informações poderão ser consultadas pelo do QRCode”, diz a nota.
Segundo a gestão municipal, os blocos com mais de 15 mil participantes tiveram até 15 de janeiro para enviarem seus planos de operação e segurança, que ainda estão em fase de validação pelos órgãos competentes, conforme previamente anunciado.
“A gestão destaca que R$ 2,5 milhões são destinados a um dos segmentos do Carnaval, uma festa de grande porte que envolve diversas frentes culturais e de organização. O montante permite que até 100 blocos recebam R$ 25 mil cada para a produção, o desenvolvimento e a difusão das atividades do Carnaval de Rua em 2026, sem prejuízo da necessidade de investimentos em outras áreas da programação”, diz a nota.