ISABELLA MENON
FOLHAPRESS
Republicanos e democratas levaram suas desavenças políticas ao centro do Fórum Econômico Mundial de Davos, na Suíça. Enquanto o governador da Califórnia, Gavin Newsom, projeta-se como uma das vozes democratas que tentam frear o que chama de abusos do governo de Donald Trump, os adversários não deixam os ataques passarem sem resposta.
À frente do governo do estado mais populoso e rico dos Estados Unidos, Newsom afirmou que a diplomacia não funciona com Trump e comparou o presidente a um dinossauro T-Rex. “Ou você se une a ele ou ele te devora”, disse.
O governador também criticou a postura de líderes mundiais que, segundo ele, curvam-se às vontades do republicano. “Entregando coroas [Trump recebeu uma de presente do presidente sul-coreano], prêmio Nobel [menção ao apoio da líder da oposição venezuelana, Maria Corina Machado]. É sério isso? Eu deveria ter trazido um protetor de joelhos”, afirmou.
Durante sua fala na manhã desta quinta-feira (horário local), em Davos, Newsom levou protetores de joelho personalizados, exibidos à plateia, que reagiu com risadas. “A gente ri, mas trata-se de um momento muito sério.”
O governador é apontado como um dos nomes fortes do Partido Democrata para disputar a Presidência dos EUA em 2028 e tem adotado uma postura cada vez mais combativa e vocal contra o atual governo.
Em entrevistas recentes, o governador admite considerar concorrer ao cargo executivo, mas ressalta que o primordial é que os democratas vençam as eleições de meio de mandato, no fim de 2026, e reconquistem a maioria no Legislativo.
Newsom tem aumentando o tom das críticas contra Trump, como no ano passado durante a COP30, em Belém, em que chamou de burras as propostas do republicano em meio às mudanças climáticas e disse que o presidente mostrou o dedo do meio ao Brasil ao impôr tarifas. Nas redes sociais, costuma zombar do adversário.
No discurso de Trump, o presidente voltou a citar Newsom, que já havia sido alvo de críticas nesta semana durante entrevista a jornalistas na Casa Branca. “Se [Newsom] governasse esse país, seríamos como a Venezuela”, disse o republicano na ocasião. Agora, em Davos, disse que Newsom é um “bom sujeito”.
“Vamos ajudar o povo da Califórnia”, afirmou Trump. “Queremos não ter criminalidade. Eu sei que o Gavin esteve aqui. Eu me dava muito bem com o Gavin […]. Ele é um bom sujeito.”
Durante a fala, uma câmera mostrou Newsom acompanhando o discurso na sala, sorrindo e aparentando dar uma risada contida. Trump então acrescentou: “Eu diria o seguinte: se eu fosse um governador democrata, ou algo assim, eu ligaria para o Trump e diria: ‘Venha para cá. Faça a gente parecer bem.'”
Na quarta-feira, Newsom era esperado em um evento da USA House, o pavilhão dos EUA em Davos, mas acabou retirado da programação. O governador atribuiu a mudança a uma suposta pressão da Casa Branca para derrubar sua participação.
“Eu ia falar ontem à noite. Era uma conversa simples, mas fizeram questão de que eu não falasse”, disse.
Não está claro, porém, se a Casa Branca de fato tentou interferir, já que a USA House é organizada por empresas privadas e não representa oficialmente o governo americano. O espaço foi patrocinado por companhias como Microsoft e Pfizer.
Mais tarde, o secretário do Tesouro, Scott Bessent, intensificou as críticas e disse que Newsom se parece com uma mistura de Patrick Bateman, personagem do filme “Psicopata Americano”, com o boneco Ken em versão praiana.
Bessent afirmou que o governador é “economicamente analfabeto” e o acusou de priorizar encontros globais da elite em detrimento das crescentes crises fiscal, habitacional e de falta de moradia enfrentadas pela Califórnia.
“Disseram-me que ele foi convidado a fazer um discurso sobre suas políticas emblemáticas, mas não vai falar. O que as políticas econômicas dele trouxeram? Migração para fora da Califórnia, um déficit orçamentário gigantesco, a maior população em situação de rua dos Estados Unidos e os pobres moradores de Palisades que tiveram suas casas incendiadas”, afirmou o secretário do Tesouro.
Bessent concluiu dizendo que Newsom sabe menos de economia do que Kamala Harris, vice-presidente de Joe Biden, que enfrentou Trump nas eleições de 2024.