A Bolsa de Valores brasileira fechou em forte alta de 2,19% nesta quinta-feira (22), a 175.589 pontos.
O movimento estende a disparada da véspera, renovando o recorde histórico de fechamento do índice pelo quarto dia seguido. Entre quarta-feira e esta quinta, o Ibovespa superou pela primeira vez as marcas superiores a 167 mil pontos. Na máxima do dia, chegou a 177.741 pontos, novo recorde durante o período de negociações. Já o dólar caiu 0,69%, a R$ 5,282.
Os mercados seguiram embalados pelas discussões envolvendo a aquisição da Groenlândia pelos Estados Unidos.
O presidente Donald Trump afirmou, na rede social Truth Social, ter formado “uma estrutura de acordo futuro em relação à Groenlândia e, na verdade, a toda a região do Ártico”.
“Com base nesse entendimento, não vou impor as tarifas que estavam programadas para entrar em vigor em 1º de fevereiro.”
O movimento foi lido como um recuo por parte do presidente republicano após reunião com o secretário-geral da Otan, Mark Rutte. Mais cedo na quarta-feira, ele já havia descartado o uso de força para tomar a ilha de posse dinamarquesa em discurso no Fórum Econômico Mundial, em Davos, na Suíça.
O morde-e-assopra de Trump, já conhecido dos mercados desde a época do tarifaço, no ano passado, tem fomentado diversificação de carteiras para fora dos Estados Unidos. Investidores têm buscado menos exposição à volatilidade dos mercados norte-americanos -e os emergentes têm se beneficiado dessa tendência.
“Os investidores passam a revisar risco, reduzir a exposição a mercados supervalorizados e buscar alternativas onde o preço compensa o risco”, diz Adriana Ricci, fundadora da SHS Investimentos. “O dinheiro global não sai do sistema. Ele muda de endereço.”
O Brasil, na análise de especialistas, se destaca por características próprias. Alguns deles são o elevado diferencial de juros -a Selic está em 15% ao ano desde junho passado- e a exposição da Bolsa a commodities, como petróleo e minério de ferro. As companhias listadas também seguem a preços atrativos: mesmo com os sucessivos recordes do Ibovespa, o índice ainda roda em múltiplos abaixo da médica histórica.
“O alívio nas tensões geopolíticas incentiva a entrada do estrangeiro na Bolsa. Já imaginávamos que isso iria ocorrer em algum momento, já que a capitalização do Ibovespa é pequena. Qualquer fluxo de capital novo faz efeito, especialmente em um momento de poucas vendas”, diz Rodrigo Marcatti, economista e CEO da Veedha Investimentos.
“Vemos esse movimento se estendendo até abril, e aí, quando as eleições começarem a entrar no preço dos ativos, esperamos mais volatilidade.”
A entrada de estrangeiros por aqui ainda impulsiona o câmbio, já que eles precisam converter dólares em reais para investir.
“O modelo sugere que o dólar deverá cair em direção a R$ 5,25, atual linha objetivo de queda. Assim, somente compras de curto prazo são recomendadas”, escreveu o diretor da consultoria Wagner Investimentos, José Faria Júnior, em relatório enviado a clientes.
O recuo de Trump sobre a Groenlândia também estimula investimentos mais arriscados -o que, somado à estratégica de rotação para fora dos Estados Unidos, também favorece a Bolsa brasileira, mercado emergente.
Índices acionários na Europa também se fortalecem nesta quinta. O alemão DAX e o francês CAC 40 registraram ganhos de mais de 1%, e o Euro Stoxx 50, referência do continente, avançou 1,25%. O dólar ainda apresenta queda ante divisas emergentes, como o rand sul-africano, o peso chileno e o peso mexicano.
Os agentes ainda repercutem dados do PIB (Produto Interno Bruto) dos Estados Unidos no terceiro trimestre de 2025. A economia norte-americana cresceu a uma taxa anualizada revisada de 4,4%, o ritmo mais rápido desde 2023.
Já os gastos dos consumidores, representados pelo índice PCE e responsáveis por dois terços da atividade econômica dos EUA, cresceram a uma taxa de 3,5% no terceiro trimestre. O PCE é a métrica favorita do Fed (Federal Reserve, o banco central norte-americano) para balizar as decisões de política monetária.
O Fed e o BC (Banco Central) brasileiro decidem sobre juros na próxima semana, entre terça e quarta-feira.
A expectativa é que ambos os bancos centrais mantenham suas taxas de referência inalteradas -os Fed Funds na banda de 3,5% e 3,75%, a Selic em 15%.