A onda de calor que decretou estado de emergência no sul da Austrália e trouxe de volta o fantasma dos grandes incêndios florestais no país no começo deste mês teve um empurrão da mudança climática.
Evento dessa proporção, o maior desde 2020, ficou cinco mais provável de ocorrer graças ao aquecimento provocado pela atividade humana.
As conclusões são de um novo estudo rápido do World Weather Attribution (WWA), consórcio de cientistas liderado pelo Imperial College, de Londres, que busca mensurar o impacto da mudança climática em eventos extremos.
Em Melbourne, sede do Aberto da Austrália de tênis, a temperatura chegou a 44,4°C em 9 de janeiro, provocando um aumento de 25% nas internações hospitalares. A canícula foi seguida por incêndios florestais nos estados de Vitória e Nova Gales do Sul, no sudeste australiano, causando a destruição de vegetação em largas áreas, assim como a morte de animais silvestres e rebanhos. O tamanho do estrago ainda está sendo contabilizado.
“As ondas de calor extremas estão a caminho de se tornarem norma, em vez de exceção, durante o verão australiano”, afirma Ben Clarke, pesquisador do Centro de Política Ambiental do Imperial College.
“As mudanças climáticas estão tornando as ondas de calor em todo o mundo mais frequentes e mais severas. Uma constatação impressionante do estudo é como esse impacto está superando a variabilidade natural do clima”, diz o cientista.
O La Niña fraco, que normalmente sinaliza temperaturas mais frias, foi atropelado pelas condições atuais.
O aquecimento global, provocado sobretudo pelas emissões de combustíveis fósseis, adicionou 1,6°C nas temperaturas registradas neste ano; estima-se que o fenômeno tenha tirado de 0,3°C a 0,5°C dessa marca.
Ou seja, em outro ano, sob outro regime climático, o impacto teria sido ainda maior.
O incremento na frequência também é notável. Modelos climáticos baseados em dados observacionais mostram que uma onda de calor como a registrada no começo do mês já é um evento de ocorrência provável a cada 5 anos, contra 26 anos da era pré-industrial.
Se o planeta chegar a um aquecimento de 2,6°C no fim do século, trajetória atual indicada pelas metas climáticas dos países, o calorão aparecerá a cada 2 anos. O estudo nota que esses são cálculos estatísticos que provavelmente subestimam o problema.
O Acordo de Paris, assinado em 2015, estabelece como meta saudável para o planeta um aquecimento de 1,5°C. O serviço Copernicus, da União Europeia, estima que a marca seja superada já no segundo semestre de 2029.
“Não se trata apenas de uma pequena alteração nas estatísticas; é uma transformação total do verão australiano”, afirma Sarah Perkins-Kirkpatrick, professora da Escola de Ambiente e Sociedade da Universidade Nacional Australiana, que participou do estudo. “O que antes considerávamos um evento climático extraordinário é agora algo que um aluno do ensino fundamental provavelmente vivenciará várias vezes antes de terminar o ensino médio.”
O peso da mudança climática na sociedade australiana é evidente. As ondas de calor já causam mais mortes no país do que todos os outros riscos naturais combinados. Idosos, moradores de edifícios sem ar condicionado, pessoas que trabalham ao ar livre e indivíduos com doenças pré-existentes lotam pronto-socorros de Melbourne e Sydney, as cidades mais populosas.
Também no sul da Austrália médicos relatam aumento de casos de saúde mental relacionados ao calor extremo. O trauma do verão de 2020 ainda é recente. O “Black Summer”, como ficou conhecido, deixou um saldo de mais de 400 mortes direta ou indiretamente relacionadas à maior onda de incêndios florestais da história recente da Oceania.
Mais de 24 milhões de hectares foram consumidos pelas chamas, assim como 3.000 edificações.
Estimados 3 bilhões de animais foram dizimados. Algumas espécies podem ter sido extintas.
“Nosso estudo não apenas ressalta a necessidade urgente de reduzir emissões, como também sublinha as implicações políticas para os líderes da Austrália: como lidar com as pressões de um clima que já é perigoso hoje e será ainda pior amanhã.”