MAELI PRADO
FOLHAPRESS
A corrida global rumo à economia de baixo carbono enfrenta um obstáculo que vai além do financiamento ou da tecnologia: a falta de braços e cérebros.
Durante a Global Labor Market Conference, evento sobre mercado de trabalho que terminou nesta terça-feira (27) em Riade, na Arábia Saudita, especialistas e CEOs alertaram para o fato de que já existe escassez de mão de obra para a transição energética.
O alerta mais pragmático veio do setor produtivo. Frank Bozich, CEO da multinacional química Trinseo, destacou que setores essenciais para a sustentabilidade, como a reciclagem de plásticos de engenharia, são bastante intensivos em mão de obra.
“O grande problema que temos nesse processo de reciclagem é a escassez de mão de obra, porque nossa força de trabalho está encolhendo e precisamos repor aqueles que se aposentam”, afirmou Bozich.
Para o professor Reza Daniels, da Universidade de Stellenbosch, que é estudioso do tema, um trabalhador do setor de carvão não se torna um técnico em energia solar da noite para o dia, já que isso exige o desenvolvimento de novas capacidades industriais de forma acelerada.
“Se você está mudando para uma energia mais limpa, quais são as cadeias de valor que provavelmente se desenvolverão ali? É preciso que isso seja pensado. Pode haver escassez de habilidades nelas agora, mas, com um horizonte de tempo maior, é possível planejar o processo de requalificação”, afirmou.
Essa discrepância entre a ambição das políticas climáticas e a realidade do mercado de trabalho foi traduzida em números por Herwig Immervoll, da OCDE (Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Econômico).
Citando o caso da Arábia Saudita, ele mencionou que apenas 30% dos engenheiros necessários para as tecnologias verdes previstas no programa governamental “Visão 2030” estão atualmente no processo de serem formados.
“A questão é: quem vai preencher essas vagas?”, questionou Immervoll. Ele destacou que o mundo vive uma “realocação em massa”, e que pela primeira vez na história o setor elétrico já emprega mais pessoas do que o de combustíveis fósseis. O emprego global em energia, disse, cresce no dobro da velocidade do emprego geral.
Para o especialista da OCDE, a solução exige que governos parem de “correr atrás do prejuízo” e criem instituições de requalificação. “Inovação é a chave. Precisamos de intervenções proativas para que os trabalhadores não fiquem esperando em meio ao caos quando as mudanças acontecerem.”