Acordo UE-Mercosul pode beneficiar algodão do Brasil, mas moda esbarra no design

Acordo UE-Mercosul pode beneficiar algodão do Brasil, mas moda esbarra no design
Acordo UE-Mercosul pode beneficiar algodão do Brasil, mas moda esbarra – Reprodução

Muita coisa ainda está no campo das ideias, mas a indústria têxtil brasileira está atenta ao recém-aprovado acordo comercial entre a União Europeia e o Mercosul. Isto porque, quando o pacto começar a valer, o algodão nacional -e peças de roupa feitas com a matéria-prima, que tem o Brasil como terceiro maior produtor mundial– podem passar a fluir mais livremente para o velho continente.

É esta a expectativa de Marcio Portocarrero, diretor-executivo da Abrapa, a Associação Brasileira dos Produtores de Algodão, entidade que regula as relações entre plantadores de dez estados brasileiros e a indústria que transforma a fibra no tecido que depois vai para as máquinas de costura dos designers de moda.

Segundo Portocarrero, com a isenção de tarifas sobre o algodão prevista pelo acordo, os países do bloco europeu poderiam passar a comprar mais tecido feito no Brasil, dado que a importação ficaria mais barata em relação a hoje. Tecidos de algodão brasileiro pagam 8% de imposto ao entrarem na União Europeia, mas o tratado deve eliminar gradualmente esta taxa.

Ainda de acordo com Portocarrero, os europeus poderiam se interessar em comprar roupas prontas do Brasil, “mas a moda em si teria que se adequar”, afirma. “O design, as tendências precisariam falar a mesma língua dos europeus para poder colocar o nosso produto lá. Que não seja uma coisa meio tropicalista, mas que seja adequada ao que eles consomem no dia a dia.”

Um grande entrave para isso acontecer é que o Brasil não tem marcas de moda reconhecidas no mercado europeu -à exceção das Havaianas, que produz majoritariamente calçados e não roupas. Contatada, a marca não quis falar com a reportagem.

Lojas de departamento importantes da Europa como a Rinasciente, na Itália, e as Galeries Lafayette, na França, não vendem criadores de moda brasileiros, embora ao menos um deles esteja no radar dos formadores de opinão -Airon Martin, da Misci, reconhecido como uma das 500 pessoas mais importantes da moda global no ano passado pelo site de referência Business of Fashion.

Afora isso, turista algum vai para a Europa fazer compras atrás de moda com design brasileiro. Marcas francesas e italianas dominam o mercado, seguidas pelas britânicas, belgas e japonesas. Outro atrativo é a isenção de taxas no vestuário que o continente dá a quem não mora lá, o que torna mais barato comprar aquela blusa Louis Vuitton em Paris em relação a praticamente qualquer outro lugar do mundo.

“Os europeus têm uma coisa que nós não temos -eles têm design, têm marca muito forte, que influencia a tomada de decisão de consumo no mundo todo. Isso é intangível, é um valor que eles construíram ao longo de séculos. E vai continuar. Nós podemos entrar nisso”, diz Portocarrero.

Hoje, quando algum país do bloco europeu importa do Brasil itens de vestuário como casacos, shorts, jaquetas ou camisas, eles pagam 12% de imposto. De lá para cá, a taxa é de 35%.

Como ambas as taxas devem ser eliminadas nos próximos anos, há a possibilidade daquela roupa de marca importada chegar às araras nacionais mais barata, segundo Fernando Valente Pimentel, diretor-superintendente da Associação Brasileira da Indústria Têxtil e de Confecção. “Produtos que hoje não são competitivos passarão a ser competitivos”, ele diz.

Pimentel prevê um longo prazo, em torno de oito anos, para que os efeitos do acordo comercial sejam sentidos lá e cá. O pacto, que ainda não entrou em vigor, prevê que o Mercosul elimine tarifas sobre 91% das exportações à União Europeia ao longo de um período de 15 anos. O bloco europeu, por seu turno, eliminará progressivamente os impostos sobre 92% das exportações ao Mercosul ao longo de dez anos.
Pimentel lembra que a União Europeia é um mercado grande e de alta renda e que o acordo é importante para o Mercosul, que ficou “anos ensimesmado ou mais vinculado aqui à nossa vizinhança”. Contudo, o pacto em si “não vai fazer o produto brasileiro ser vendido na Europa”, ele acrescenta.

“Os empresários vão ter que se interessar em vender mais, as reformas aqui dentro do Brasil vão ter que continuar acontecendo. A redução do custo Brasil é fator primordial para aumentar a produtividade e competitividade do setor”, afirma.

T CSM

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