Por trás do mandado de prisão contra o humorista e ex-apresentador da TV Anhanguera Waldemar Neto Lobo Melo do Carmo, conhecido como Seu Waldemar, por dever mais de R$ 20 mil em pensão alimentícia, existe uma história com muitos episódios de descaso com o filho Enrico. Em entrevista ao Mais Goiás, a servidora pública Sami Moura conta que Waldemar frequentemente esquece o aniversário do filho e não vê a criança há um ano.
Além de servidora, Sami é formada em Direito, estuda para concurso público e, de acordo com as palavras dela, “equilibra todos os pratinhos” para criar Enrico sozinha, sem apoio financeiro e sem a presença do humorista.
O acordo de pensão foi firmado em juízo no dia 19 de fevereiro de 2020. Nele ficou estabelecida a guarda compartilhada, com regime de convivência em fins de semana alternados. Também foi acordado que ambos os genitores arcariam com 50% das despesas extras, como escola, uniformes, material escolar, consultas e medicamentos. Sami destaca que o valor da pensão fixado à época jamais foi reajustado, tendo ocorrido apenas os reajustes automáticos vinculados ao aumento do salário mínimo.
“Nos últimos anos, o genitor sequer se lembrou do aniversário do próprio filho. O Enrico está crescendo e já tem idade para compreender e questionar. Ele pergunta se o pai o esqueceu, e como explicar que não é isso?”, questiona a servidora.
“Até quando a justificativa de que ‘está trabalhando ou estudando muito’ se sustenta? Porque comigo não é diferente: eu também trabalho e estudo muito, e ele vê isso diariamente, mas nunca negligenciei a maternidade. Como explicar que um adulto escolhe, de forma consciente, não cumprir sequer o mínimo de suas responsabilidades? A diferença entre mim e o genitor é simples: o Enrico é, e sempre será, minha prioridade‘, afirma.
“Quem está presente se desgasta, se doa, carrega o peso das escolhas, da rotina, do afeto e, muitas vezes, da culpa. A ausência, por outro lado, acaba sendo idealizada, porque não enfrenta o cotidiano nem as responsabilidades. Não é meu papel, como mãe, ensinar o genitor a ser pai. Existem funções que não podem ser invertidas. A paternidade exige responsabilidade, presença e atitude. Quando alguém precisa ser ensinado a exercer o papel de pai, já existe uma falha no essencial”, complementa Sami.
Último contato
A última vez em que Seu Waldemar viu e manteve contato direto com o filho, de acordo com a servidora, foi no dia 19 de janeiro de 2025. Nunca houve, segundo ela, contato regular por ligações ou chamadas de vídeo. “O máximo que ocorria era o envio esporádico de áudios relatando dificuldades financeiras, finalizados com um breve ‘beijinho’ para o filho”, relata.
Atualmente, o humorista cursa medicina no Paraguai. Sami afirma que desde que ele se mudou para lá, esteve em Goiânia em algumas oportunidades, mas em nenhuma delas demonstrou interesse em ver o filho. “Não houve mensagens, ligações ou tentativas de visita, sendo que o Enrico nunca mudou de endereço e eu permaneço com o mesmo perfil nas redes sociais”, ressalta.
“Ele não se faz presente de forma física, emocional ou afetiva, tampouco envia presentes. Costuma prometer e não cumprir. Por isso, o Enrico só é informado sobre eventuais visitas quando o genitor efetivamente comunica que já está a caminho, justamente para evitar frustrações, traumas e constrangimentos. Quem sofre com essas situações é exclusivamente o Enrico, e eu faço o possível para poupá-lo”, diz Sami.
Um dos episódios de descaso relatados pela mãe da criança aconteceu na época em que o humorista ainda morava em Goiânia e um dos primos do Enrico, pela família paterna, ia comemorar o aniversário em uma hamburgueria. A mãe conta que ficou aguardando que Waldemar entrasse em contato para buscar o filho e levá-lo, mas isso não aconteceu e ela mesmo decidiu ir com ele. Ao chegar na lanchonete, o humorista já estava lá.
Outro fato que aconteceu foi no aniversário de um ano do Enrico. “Organizei uma mesinha simples, com bolo e docinhos, apenas para a família, para que a data não passasse em branco, já que ainda estávamos em período de pandemia. O genitor foi avisado com antecedência e sabia perfeitamente a data de nascimento do filho, mas, ainda assim, preferiu viajar para São Paulo para fazer uma live com a dupla Maria Cecília e Rodolfo, em vez de estar presente na comemoração do primeiro ano de vida do próprio filho”, conta Sami.
“Papai, gosto muito de você”
A servidora lembra que em um final de semana de junho de 2024, Waldemar enviou para ela um áudio pedindo para perguntar ao Enrico se ele gostaria de ir ao shopping com ele. A criança ficou feliz, disse que queria ir e, ao final do áudio, completou de forma espontânea: “papai, eu gosto muito de você”. Mas o humorista não apareceu. Ao ser questionado pelo Enrico sobre o motivo de não tê-lo buscado, a justificativa, segundo Sami, foi um problema em um dos lotes dele, em Trindade.
Na mesma ocasião, Waldemar convidou para ir ao circo Mirage, do Marcos Frota, no dia seguinte, dizendo que havia ganhado os ingressos. “O Enrico, novamente, ficou muito animado e disse que queria ir. No dia seguinte, ele se arrumou e ficou aguardando o pai, que, mais uma vez, não apareceu e sequer enviou qualquer justificativa ao filho. E, por mais inacreditável que pareça, o genitor foi ao circo sozinho e ainda postou nas redes sociais o quanto o circo era legal. Nesse mesmo dia, vários influenciadores estiveram no local justamente porque foram convidados a levar seus filhos. E, mais uma vez, fui eu quem precisou segurar as pontas com o Enrico”, desabafa ela.
A servidora diz que, embora o genitor poste nas redes sociais que ‘nunca trabalhou tanto na vida’, a pensão alimentícia não vem sendo paga integralmente desde março de 2025, havendo inclusive meses sem qualquer repasse. “Diante disso, precisei procurar a advogada Flávia Aragão para acionar o Judiciário e garantir os direitos do Enrico, já que ele não recebe do genitor nem o mínimo necessário para sua subsistência”.
Revisão da pensão
“Há um detalhe que eu considero importante destacar, até porque tem gerado certo murmurinho no sentido de que, à época da fixação da pensão, o genitor possuía condições financeiras melhores do que as atuais”, diz Sami. “Ocorre que, no curso do processo de prisão/penhora, ele ingressou com uma ação revisional de pensão com a intenção de reduzir o valor. Contudo, não conseguiu comprovar a alegada hipossuficiência financeira, ou seja, não demonstrou incapacidade econômica, razão pela qual o juiz indeferiu o pedido de plano e o processo foi extinto”.
Outro detalhe que a servidora relata é o de que a avó paterna instituiu um plano de previdência privada em favor de cada um dos netos. Após o falecimento dela, Waldemar manifestou a intenção de utilizar o valor acumulado no plano pertencente exclusivamente ao Enrico para quitar a pensão alimentícia, ou seja, pretendia que o próprio Enrico arcasse com o pagamento da própria pensão. “Ressalte-se que o genitor não pode abater ou substituir a obrigação alimentar utilizando bens ou valores que pertencem ao próprio alimentando”, frisa a mãe da criança.