Esgoto contamina praia vizinha a condomínios de luxo no litoral de SP

Esgoto contamina praia vizinha a condomínios de luxo no litoral de SP
Esgoto contamina praia vizinha a condomínios de luxo no litoral – Reprodução

Diante de condomínios pé na areia com apartamentos avaliados em mais de R$ 10 milhões, a qualidade da água do mar nem sempre acompanha os investimentos na praia de São Lourenço, em Bertioga, no litoral paulista.

Conhecida como bairro planejado de alto padrão, a Riviera de São Lourenço tem um sistema privado de saneamento tido como modelo. Já o bairro vizinho, o Jardim São Lourenço -com o qual divide a mesma orla- sofre com falhas históricas de esgotamento, que têm preocupado moradores e banhistas.

Na primeira semana de janeiro, auge da temporada, a Cetesb hasteou uma bandeira vermelha em frente ao Jardim São Lourenço, a poucos metros do córrego que separa os dois bairros. Como o mar não respeita fronteiras, parte dos coliformes fecais que poluíram esse trecho pode ter alcançado áreas próximas da Riviera, onde não há ponto oficial de monitoramento semanal da companhia ambiental.

A bandeira vermelha indica água imprópria para banho e é baseada em coletas semanais feitas sempre nos mesmos locais. O alerta ocorre quando a análise identifica níveis elevados da bactéria enterococos: mais de 100 colônias por 100 ml em ao menos duas de cinco semanas, ou mais de 400 colônias em uma única medição.

O Ministério Público de São Paulo informou, em nota, que conduz um procedimento, sob sigilo, a respeito da impropriedade da praia em razão de problemas de esgoto e drenagem no Jardim São Lourenço, e que cobrou da Sabesp um cronograma de obras.

No sábado (24), a companhia foi multada em R$ 100 mil pela prefeitura de Bertioga após um vazamento de esgoto que, segundo moradores, atingiu a rede de águas pluviais e desaguou no mar. Procurada, a Sabesp afirmou que houve uma “ocorrência pontual”, causada por obstrução da tubulação pelo descarte irregular de lixo, e que a manutenção emergencial regularizou o sistema.

A recorrência de falhas, no entanto, levou a Riviera a instalar uma mangueira sob a ponte do córrego que separa os dois bairros para despejar cloro na água antes que ela chegue ao mar.

Foi no verão de 2025 que soou o alarme dos moradores da Riviera e do Jardim São Lourenço quando aquele trecho da praia ficou impróprio por sete semanas consecutivas enquanto novos empreendimentos imobiliários avançavam.

“Frequento essa praia há 30 anos e nunca vi nada parecido”, diz o morador José Carlos Maduro Júnior, 39. Segundo ele, o bairro cresceu sem que antigas pendências de infraestrutura fossem resolvidas.

“Ficaram pendências de infraestrutura e, com o crescimento do bairro, surgiram os problemas”, diz.

Os três primeiros grandes condomínios do local, construídos no início dos anos 2010 pela Camargo Corrêa Desenvolvimento Imobiliário, Phoenix e SRW, foram os responsáveis pelo sistema de saneamento criado para escoar o esgoto de seus empreendimentos e de parte das casas e comércios locais.

Um acordo firmado entre construtoras, Sabesp e prefeitura condicionou os novos empreendimentos à construção de sistemas de drenagem, rede coletora de esgoto e três estações elevatórias para bombear o esgoto até uma estação de tratamento. Uma delas nunca saiu do papel, o que faz com que parte da rede atual leve os dejetos das casas e comércios a lugar nenhum, transbordando em dias de chuva.

Deficiências no sistema de drenagem do bairro e ligações irregulares de esgoto na rede de águas pluviais agravam o problema.

Wilson Roberto da Silva, presidente da Associação do Jardim São Lourenço e Itaguaré e dono da construtora SRW, responsável pela estação faltante junto à construtora Phoenix, afirma que a obra não avançou por falta de liberação do terreno pela prefeitura, o que só ocorreu em outubro de 2025. Silva diz não haver conflito em ser construtor e presidente da associação.

Procurado, o município diz que a estação elevatória devida pela SRW e pela Phoenix é condição para a concessão do Habite-se de um novo empreendimento da construtora de Silva, enquanto a Sabesp sustenta que a obra é essencial, mas não é de responsabilidade da companhia.

“É um absurdo o que acontece ali. Um vai empurrando para um lado, outro vai empurrando para outro, e as coisas vão ficando como estão”, afirma o engenheiro Heverton Faria, que vive na região e lidera uma petição sobre o tema.

“Daremos entrada no Gaema [Grupo de Atuação Especial de Defesa do Meio Ambiente do Ministério Público de São Paulo] com uma petição em nome dos mais de mil frequentadores da praia de São Lourenço. Sabesp, Cetesb, prefeitura e construtores estão citados”, afirma.

A movimentação dos moradores levou a um encontro no último dia 19 entre o prefeito Marcelo Vilares (União), representantes das secretarias de Obras, do Meio Ambiente, de Serviços Urbanos, Sabesp, moradores e empreendedores locais, e a uma série de promessas de resolução dos problemas do bairro que afetam, por tabela, seu vizinho rico: a Riviera.

“Sem dúvida a pressão dos moradores fez efeito, e começaram a se mexer. Além disso, a bandeira vermelha é algo muito impactante, que desta vez circulou nas redes por meio de influenciadores”, afirma Maduro Júnior. “Mas, mesmo sem evidências, tenho a impressão de que muita pressão veio da Riviera, que tem uma força muito grande na região.”

T CSM

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