Juros, crise fiscal e ausência de política castigam indústria do Brasil há quatro décadas

Juros, crise fiscal e ausência de política castigam indústria do Brasil há quatro décadas
Juros, crise fiscal e ausência de política castigam indústria do – Reprodução

Em um acerto de contas com o passado que seria visto hoje em dia como um exercício de sincericídio, o primeiro industrial brasileiro termina sua obra com um pedido.

“E oxalá que nas reformas, que se apregoam como necessárias ao bem-estar social da nossa pátria, não se esqueçam os que se acharem à frente da governança do estado, que o trabalho e interesses econômicos do país são mais que muito dignos da proteção e amparo a que têm direito.”, escreveu Irineu Evangelista de Sousa em seu livro de 1878, “Exposição do Visconde de Mauá aos credores de Mauá & C e ao público”.

No texto em que explica as razões da moratória e das dificuldades financeiras que fizeram suas empresas irem à falência, Mauá expõe, como o título sugere, suas dificuldades na tentativa de ter uma indústria no Brasil. Dois anos depois, aos 70 anos, ao ter pago seus credores e liquidado suas dívidas, recebeu carta de reabilitação de comerciante. Chorou.

Operário faz rebarbação em peça na indústria metalúrgica em Barueri, na Grande São Paulo Eduardo Knapp-21.nov.16 Folhapress A imagem mostra uma pessoa usando uma ferramenta de moagem, com uma roda giratória que emite faíscas. A mão da pessoa está segurando a peça de metal que está sendo trabalhada, enquanto a outra mão está apoiada na ferramenta. Nas últimas quatro décadas, o Brasil tem passado por processo de desindustrialização que remete ao pedido de Mauá. Em 1985, a indústria de transformação era responsável por 36% do PIB (Produto Interno Bruto). Em 2024, o índice foi de 10,8%.

Em 40 anos, o país se tornou exemplo do que os especialistas chamam de desindustrialização prematura.

Produtividade, empregos e salários desabaram antes de atingirem níveis considerados elevados de renda per capita.

“O setor produtivo é muito onerado em carga tributária [no Brasil]. A manufatura mais ainda. A indústria de transformação tem cerca de 12% do PIB e cerca de 28% da arrecadação tributária. A indústria como um todo é 25% [do PIB] e é responsável por 50% da tributação”, afirma Igor Lopes Rocha, economista-chefe da Fiesp (Federação das Indústrias do Estado de São Paulo).

O ganho foi das commodities. Em 1962, elas representavam 4% do PIB. Em 2024, incluído minerais e agrícolas, foram 23,2%. Nas exportações podem ter representado até 64,5% do total, a depender da metodologia adotada.

“Indústria não tem LCA ou CRA [investimentos que financiam o agro e não pagam Imposto de Renda]… Uns pagam muito, outros não pagam nada. Ônus ficou muito alto para o setor industrial”, completa Lopes Rocha.

A desindustrialização foi agravada, segundo especialistas, por outros fatores. Há a abertura comercial no governo Collor (1990-1992), considerada atabalhoada, o chamado custo Brasil (tributação elevada, burocracia, gargalos de logística e infraestrutura deficiente), a valorização da moeda no período do Plano Real, persistentes crises fiscais e política de juros altos, que causou redução de capacidade de investimento das indústrias.

Economistas citam a “doença holandesa”, termo que designa uma relação entre a dependência da extração e exportação de recursos naturais e a perda de competitividade da indústria.

“A tese econômica enfatiza que o desenvolvimento material do país acontece com crescimento sustentável e pela produtividade. O responsável por isso ainda é a indústria, pela transferência de mão de obra de baixo para alto valor agregado. A desindustrialização brasileira não decorre de um movimento virtuoso, como aconteceu na Alemanha, no Japão, na Itália. É um processo de desestruturação de elos de cadeias produtivas que já foram importantes no passado e estão desmobilizados”, diz Guilherme Grandi, professor da FEA (Faculdade de Economia, Administração e Contabilidade) da USP (Universidade de São Paulo).

A queda de empregos formais chama a atenção. Em 1986, 27% das vagas de carteira assinada no Brasil estavam na indústria. A proporção foi de 15,8% em 2023. Entre 2011 e 2020, foram fechados 1,1 milhão de postos de trabalho. Durante a recessão de 2014 a 2017, especificamente, o encolhimento salarial registrado foi de 14,7%. De 2019 a 2023, houve recuperação parcial com a criação de 910 mil vagas. Mas as 8,5 milhões de vagas em 2023 ainda estavam abaixo dos 8,8 milhões de 2014.

Dos empregos formais, 70% estão em setores menos tecnológicos. Áreas de tecnologia e Pesquisa & Desenvolvimento são responsáveis por 22% dos empregos nas indústrias. Nos países desenvolvidos, esta taxa varia entre 33% e 50%.

A última tentativa de política pública para tentar reverter o quadro foi a NIB (Nova Indústria Brasil), lançada pelo governo federal em janeiro de 2024. O discurso apresentado foi o de reindustrializar o país de maneira competitiva, inovadora e sustentável com um pacote de R$ 394 bilhões no total. A coordenação está com o ministro do Desenvolvimento, Indústria, Comércio e Serviços e vice-presidente da República, Geraldo Alckmin (PSB).

“É [um programa] razoavelmente bem concebido. Tem um braço muito importante, que é o BNDES. Escolheu áreas corretas. Mas é um plano que precisa de volume maior de recursos, principalmente para pesquisa e inovação. Problema é que no próprio lançamento a gente viu o ministro [da Fazenda, Fernando] Haddad dizer que não o conhecia. Tem de ser uma política central dentro do governo. E num ambiente de alta taxa de juros, o capital fica muito caro”, afirma Nelson Marconi, professor de economia da FGV EAESP (Fundação Getúlio Vargas).

Uma crítica comum nas últimas quatro décadas de desindustrialização brasileira tem sido a falta de políticas duradouras.

“A gente perdeu a capacidade de planejamento de longo prazo. Não tem planejamento de Estado. Tem planejamento de governo”, diz Igor Lopes Rocha.

Na última linha de seu testamento sobre a vida de industrial no Brasil, O Visconde de Mauá resume a sua desconfiança de que os interesses nacionais prevaleceriam no futuro.
“Pela parte que me toca, fui vencido, mas não convencido.”

T CSM

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