Brasileiras se aproximam de padrão mundial de horas trabalhadas, mostra levantamento inédito

Brasileiras se aproximam de padrão mundial de horas trabalhadas, mostra levantamento inédito
Brasileiras se aproximam de padrão mundial de horas trabalhadas, mostra – Reprodução

Dentro da sala de aula, a professora ensina as primeiras letras a jovens e adultos. Do lado de fora da escola, uma menina assiste à cena, admirada, pela janela aberta: é sua avó quem, lá dentro, escreve a lição na lousa. A imagem, que Sara Manoela Leal de Oliveira, 24, guarda na memória, pertence à primeira década dos anos 2000, na cidade de Lajedo, um município de 40 mil pessoas do agreste pernambucano.

Sara nasceu em São Paulo, para onde a mãe se mudou no final dos anos 1980, mas costumava visitar a avó, em Pernambuco, na infância. “Quando seus filhos já estavam crescidos, e ela já tinha mais de 40 anos, decidiu lecionar”, lembra. Noemia Leal dos Santos trabalhava na escola algumas horas por dia, nas outras tinha de cuidar da família e da casa.

Hoje Sara é funcionária de uma empresa que presta serviços à rede social TikTok. Gasta uma hora de ida, no metrô, até a Barra Funda, outra de volta para casa, numa escala 6×1 presencial em que, “no contrato”, trabalha 6 horas e 20 minutos por dia. É formada em jornalismo, mas cursa uma segunda faculdade por ensino a distância. Trabalha desde os 14, quando começou a ajudar os pais na banca de rua que mantêm no Brás, vendendo “mochila, cinto, calcinha, cueca”.

O contraste entre a realidade laboral de Sara e a de sua avó, dona Noemia, em boa medida sintetiza a evolução da dedicação feminina ao trabalho no Brasil, nas últimas três décadas e meia.

Um levantamento feito pelo economista Daniel Duque a partir da base de dados de horas trabalhadas em 160 países organizada pelos pesquisadores Amory Gethin, do Banco Mundial, e Emmanuel Saez, de Berkeley (EUA), mostra que nos anos 90 e início dos anos 2000 as brasileiras dedicavam ao trabalho remunerado muitas horas a menos do que seria esperado, dada a produtividade média do país na época.

Desde então a carga laboral feminina no Brasil tem se aproximado da tendência de horas trabalhadas em países com produtividade e estrutura demográfica semelhantes.

Duque lembra que o desvio constatado por ele —de até 6 horas a menos do que o padrão em países parecidos— já leva em consideração o número de filhos por mulher, que era maior, três décadas atrás. A explicação mais provável para a convergência da carga de trabalho das brasileiras em relação ao resto do mundo, ele diz, pode estar de toda forma ligada indiretamente à transição demográfica: uma mudança cultural na repartição de tarefas entre homens e mulheres, dentro e fora de casa.

Duque também aponta que dificuldades econômicas enfrentadas pelos brasileiros desde a década de 1990 “podem ter levado mais mulheres a trabalhar mais, para aumentar a renda da família”.

O fato é que, quanto mais jovens, mais as mulheres brasileiras trabalham, relativamente ao resto do mundo. No grupo entre 15 e 19 anos, os homens brasileiros trabalham uma hora e 12 minutos a mais do que seria esperado, dada a produtividade, a estrutura demográfica e de impostos do país, e as mulheres trabalham uma hora e 48 minutos a mais do que seria esperado.

O economista observa, de toda forma, que o esforço feito pelos trabalhadores brasileiros não se restringe às horas investidas em trabalho remunerado. É comum que a elas se juntem outras tantas horas no transporte público, além das dedicadas ao estudo ou ao trabalho doméstico.

Raphaela Carvalho, 23, é operadora de telemarketing. Trabalha mais de oito horas por dia. Com frequência, faz hora extra, ela afirma. Ganha comissão por vendas, que acaba representando a maior parte da renda mensal. Além disso, gasta mais de três horas, diariamente, nos trajetos de ida e volta entre sua casa, no município de Suzano, e o trabalho, no centro de São Paulo.

A mãe de Raphaela é consultora de viagens —e trabalha tanto quanto ela, diz a filha. As avós talvez dedicassem menos horas a atividades remuneradas, ela supõe. “Quando eu tinha mais ou menos uns dois anos, a minha avó materna teve um câncer e parou de trabalhar. E minha avó por parte de pai trabalha em casa. Ela faz marmita para vender. Marmita, docinho. Pelo que sei, ela trabalha todos os dias, mas poucas horas. Coisa de duas, três horas por dia.”

Raphaela tem planos de continuar a trabalhar por muitas horas semanais, em horários difíceis, mas em outra profissão. À noite, depois do jantar, ela dedica algum tempo aos livros e ao estudo, antes de dormir. Estuda também no trem, nos longos períodos de deslocamento por causa do trabalho. Sonha em cursar medicina. Quase passou no ano passado, “por pouquíssimo”, ela diz. “Agora estou esperando a próxima chamada, para ver se a lista roda.”

T CSM

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