Como as atrações do Carnaval, os vendedores ambulantes se desdobram para chamar a atenção do público. Alguns ficam fantasiados, outros abordam, de cardápio na mão, os foliões que passam pelo corredor formado entre as caixas de bebidas, os “pesadões”, como eles costumam chamar.
O esforço redobrado dos vendedores tem um motivo: garantir uma remuneração mais próxima do esperado. “A prefeitura aumentou o número de vagas e ficou mais difícil vender por conta da concorrência”, explica Fernando Nogueira, 46 anos, que trabalhava ao lado da mãe, Maria de Lourdes, 66, na venda de bebidas no circuito do Ibirapuera.
Os dois trabalharam no fim de semana pré-Carnaval, ao longo do Carnaval e no fim de semana de pós. Na manhã deste domingo (22), lutavam para garantir um lucro com tamanho esforço. “Até a terça-feira de Carnaval, a gente apenas tinha empatado o investimento. Ontem e hoje que estamos conseguindo tirar um lucro”, afirma.
O contrato de patrocínio assinado com a gestão Ricardo Nunes (MDB) dá a uma indústria de bebidas o monopólio de venda de seus produtos na área de desfile dos blocos. Os ambulantes, que são profissionais autônomos, compram a bebida fornecida por ela e vendem para os foliões. A Ambev pagou R$ 30,2 milhões à prefeitura para a exclusividade de suas bebidas no desfile de blocos de 7 a 22 de fevereiro.
Fernando, que geralmente trabalha como motorista de aplicativo, atuou como ambulante pelo sexto ano consecutivo com a mãe. “Acredito que seria mais lucrativo trabalhar como motorista, mas acabo vindo para dar uma retaguarda a ela”, explica. Os dois fazem parte de um exército de 15 mil ambulantes cadastrados neste ano.
Para ele, a falta de organização torna o trabalho mais pesado e menos lucrativo. “Para conseguir entrar no Ibirapuera no dia seguinte, precisamos sair por volta das 16h para entrar na fila para o dia seguinte”, diz. Grupos se organizavam para passar a noite juntos na fila, para garantir o descanso.
Além de não ter um lugar para repouso e banheiro enquanto esperavam para voltar ao trabalho, os vendedores relatam que sofreram com a violência da Polícia Militar e da Guarda Civil Metropolitana ao reprimir tumultos. “Muitos perderam suas mercadorias e tiveram suas caixas quebradas desta forma”, explica.
A poucos metros dali, Tânia Araújo Soares, 34, trabalhava ao lado dos filhos Davi, 12, e Alice, 10. Nos últimos oito anos, ela tirou férias da loja de roupas em que trabalha como vendedora para garantir uma renda extra no Carnaval. Desta vez, o esforço não compensou. “Eu costumava tirar em torno de R$ 8.000 por ano. Desta vez, mal cheguei a R$ 2.000 até agora”, compara.
Para ela, o crescimento dos blocos e as grandes atrações não significaram uma melhoria no trabalho dos ambulantes. “A concorrência aumentou bastante na venda, com o aumento do número de cadastrados”, disse. Tânia optou pelo Ibirapuera na maioria dos dias, exceto no domingo do pré-Carnaval, quando foi na rua da Consolação por conta do Baixo Augusta.
Ela afirma que busca os blocos que considera que terão mais movimento, assim como fazem os demais ambulantes. Com isso, há uma concentração nos mesmos lugares, que faz com que a concorrência seja maior, enquanto pode haver falta de vendedores em outros. “Não sei se trabalharei de novo no Carnaval do ano que vem, mas não voltarei aqui para o Ibirapuera”, afirma.
Houve reclamações também na Consolação. Para a ambulante Rose Sena, o movimento foi mais fraco do que no ano passado -tanto no Pipoca da Rainha, de Daniela Mercury, como em outros blocos. Ela atribui à logística da prefeitura e a influência da marca patrocinadora do Carnaval. “O movimento é bom, mas esse ano os ambulantes e os foliões foram prejudicados. Foram muitas atrações no mesmo dia, e as estruturas de segurança bagunçaram o fluxo”, frisou.
Como a Folha de S.Paulo mostrou, o Ministério Público do Trabalho expediu no dia 13 deste mês uma recomendação à Prefeitura de São Paulo, às secretarias municipal de Cultura e de Governo, à SPTuris e à Ambev (Companhia de Bebidas das Américas) para que garantissem infraestrutura adequada aos ambulantes oficiais que trabalham no Carnaval de rua na região do parque.
A gestão Nunes afirmou que “o cadastro de ambulantes integra as etapas de organização do Carnaval de Rua, como ocorre em todos os anos”. “O credenciamento foi realizado pela Ambev, patrocinadora oficial da festa, com a entrega dos kits aos vendedores habilitados”, completou.
Já Ambev disse, em nota divulgada na ocasião da recomendação do MPT, que segue “rigorosamente as regras estabelecidas no edital de patrocínio divulgado pela prefeitura” e que “oferece estrutura e kit para o credenciamento dos ambulantes, profissionais autônomos cuja atuação no evento é autorizada pela prefeitura”. “Como patrocinadores, garantimos todas as entregas previstas no contrato de patrocínio e atuamos em parceria com a prefeitura para construir um Carnaval cada vez melhor.”