O preço da energia elétrica deve crescer mais do que a inflação de novo neste ano, apontam projeções de consultorias especializadas no tema. A variação segue uma tendência dos últimos anos, quando fragilidades regulatórias do sistema elétrico e fatores climáticos provocaram um aumento na conta de luz do brasileiro.
No ano passado, a energia elétrica residencial ficou 12,3% mais alta, segundo o IPCA (Índice Nacional de Preços ao Consumidor Amplo), e a inflação do país fechou em 4,26%.
De acordo com a consultoria PSR, uma das mais respeitadas do setor elétrico, a tarifa residencial do consumidor deve ter aumento real, ou seja, descontada a inflação, de 4% neste ano. A previsão para o IPCA em 2026 é de 3,91%, segundo o Boletim Focus desta segunda-feira (23).
Segundo a PSR, o aumento se dá sobretudo devido ao aumento do preço em novos contratos entre distribuidoras e geradoras de energia e ao processo de descotização de usinas da Eletrobras.
A lei que privatizou a empresa em 2022 estipulou um período para que as hidrelétricas da companhia continuassem vendendo energia a um preço abaixo do mercado, sendo que a cada ano há redução dessa exigência, até chegar a 0% no ano que vem.
A consultoria também atribui o encarecimento aos encargos pagos pelos consumidores, que bancam a Tarifa Social, além de subsídios a fontes incentivadas, como solar e eólica, e aqueles concedidos a donos de painéis solares instalados em telhados.
Neste ano, a Aneel (Agência Nacional de Energia Elétrica) projeta que os consumidores de energia precisarão pagar ao menos R$ 47,8 bilhões em subsídios, 15,4% a mais do que em 2025.
Já a consultoria Logos Economia prevê um aumento total de 5,6% na conta de luz do brasileiro em 2026.
Fábio Romão, sócio da empresa, pontua que neste ano o IGP-M, índice usado para reajustar tarifas públicas, inclusive de energia, deve crescer mais do que no ano passado, o que tende a pressionar as contas de luz. Em 2025, o índice fechou o ano com 1,05% negativo no acumulado de 12 meses, mas neste ano a previsão é de um aumento de 2,8%.
“O IGP-M vai ficar mais alto no segundo semestre e em algumas regiões o reajuste das contas de energia é feito justamente neste período”, diz Romão.
A Logos Economia também atribui o encarecimento à probabilidade de o governo precisar decretar bandeira amarela e vermelha ao longo do ano devido ao El Niño, evento climático que pode reduzir o volume de chuvas no Norte e no Nordeste no segundo semestre.
A depender de sua intensidade, o El Niño pode afetar ainda mais os reservatórios das hidrelétricas. Neste ano, as chuvas têm sido menos intensas que a média histórica, o que pressiona o sistema elétrico brasileiro, muito dependente da fonte hidráulica.
Isso é um ponto de preocupação, porque é justamente no período úmido, entre outubro e março, que os reservatórios ficam cheios para atender os meses posteriores.
“O ONS [Operador Nacional do Sistema] esperava que tivéssemos um nível de reservatório muito maior no final de março, mas neste período úmido temos tido um volume de chuvas menor. Ou seja, a tarifa do consumidor vai aumentar muito em 2026, mesmo considerando que tivemos bandeira vermelha quase em todo o ano passado”, diz Edvaldo Santana, ex-diretor da Aneel.
Reservatórios menos cheios afetam a conta de luz, porque nesses momentos o ONS precisa acionar termelétricas, que cobram mais caro para gerar energia. “É um dilema: ou gastar muito usando térmica ou usar as hidrelétricas com risco de ficar com reservatórios baixos”, afirma Santana.
Além disso, como não há incentivos no Brasil para que grandes consumidores de energia desloquem seus consumos para momentos de excesso de geração, como nas tardes ensolaradas, o ONS precisa acionar mais termelétricas à noite. Esse acionamento é pago pelos consumidores, inclusive residenciais.
Um estudo da Abraceel (Associação Brasileira dos Comercializadores de Energia) divulgado em junho do ano passado apontou que nos últimos 15 anos, a tarifa de energia ficou 177% mais cara, passando de R$ 112 por MWh (megawatt-hora) em 2010 para R$ 310 por MWh em 2024. Neste mesmo período, a variação do IPCA foi de 122%.
As principais razões, segundo a associação, são a indexação de longo prazo de contratos entre distribuidoras e geradoras de energia, além de lobbies políticos e riscos indevidamente alocados ao consumidor, como o risco hidrológico.
No primeiro ponto, a associação afirma que a contratação de energia no mercado regulado, onde estão os consumidores residenciais, acontece por meio de contratos de 20 a 30 anos indexados à inflação, o que tende a pressionar os preços anualmente. Em comparação, no mercado livre, no qual indústrias e grandes comércios atuam, a renovação de contratos acontece mais rapidamente, o que aumenta a competitividade.
“Decisões políticas em leilões também interferem. Muitas vezes, contratamos energias que o consumidor não contrataria se tivesse a possibilidade, mas são decisões motivadas por influências políticas”, afirma Rodrigo Ferreira, presidente executivo da Abraceel.
Um exemplo é a extensão até 2040 de contratos de termelétricas movidas a carvão mineral determinada por uma lei aprovada pelo Congresso no final do ano passado e a contratação compulsiva de térmicas a gás natural e pequenas hidrelétricas aprovada meses antes.