O chanceler iraniano, Abbas Araghchi, declarou na terça-feira (24) que um acordo com os Estados Unidos sobre o programa nuclear de Teerã está “ao alcance da mão”, mas o presidente Donald Trump elevou o tom e acusou Teerã de desenvolver armas capazes de atingir os Estados Unidos.
Ao mesmo tempo, o governo iraniano advertiu os estudantes que voltaram a se manifestar de que existem “limites”, após a sangrenta repressão dos protestos de janeiro.
Em janeiro, uma onda de protestos resultou em uma repressão violenta do governo de Teerã, o que provocou um aumento da pressão militar dos Estados Unidos sobre o Irã, com um grande deslocamento de forças militares em direção ao Golfo.
“Temos uma oportunidade histórica de alcançar um acordo sem precedentes que aborde as preocupações de ambas as partes e os interesses mútuos”, disse Araghchi em uma publicação na rede X.
O ministro iraniano afirmou que chegar a um entendimento está “ao alcance da mão, mas somente se a diplomacia for priorizada”.
Trump acusa o Irã
Horas mais tarde, Trump aproveitou o discurso sobre o Estado da União para acusar Teerã de ampliar sua capacidade na área de mísseis, apesar de ter enfatizado a sua preferência pela diplomacia.
“Já desenvolveram mísseis capazes de ameaçar a Europa e nossas bases no exterior, e estão trabalhando para construir mísseis que em breve alcançarão os Estados Unidos”, afirmou o mandatário americano.
O porta-voz da diplomacia iraniana, Esmail Baqai, rebateu as acusações nesta quarta-feira (25). “O que estão alegando a respeito do programa nuclear iraniano, dos mísseis balísticos do Irã e do número de mortos durante os distúrbios de janeiro é simplesmente a repetição de ‘grandes mentiras’”, disse.
Irã e Estados Unidos realizarão na quinta-feira um terceiro ciclo de conversas sobre o programa nuclear em Genebra, com a mediação de Omã.
O diálogo é marcado pelo envio de forças militares dos Estados Unidos ao Oriente Médio nas últimas semanas e pelas ameaças do presidente Donald Trump de lançar um ataque caso não se alcance um acordo.
“Minha preferência é resolver este problema por meio da diplomacia, mas uma coisa é certa: nunca permitirei que o principal patrocinador do terrorismo no mundo, que é, de longe, o Irã, tenha uma arma nuclear”, reiterou o presidente na terça-feira em seu discurso ao Congresso.
O Irã afirmou repetidamente que responderá com força diante de qualquer hostilidade, e o Ministério das Relações Exteriores iraniano declarou na segunda-feira que qualquer ataque, mesmo limitado, “será considerado um ato de agressão”.
Na publicação, Araghchi afirmou que o Irã “sob nenhuma circunstância desenvolverá uma arma nuclear”, mas insistiu que o país tem o direito de se beneficiar da tecnologia nuclear para fins civis.
“Demonstramos que não recuaremos diante de nada para defender nossa soberania com coragem”, acrescentou.
Washington e Teerã participaram de cinco rodadas de conversas sobre o programa nuclear iraniano, mas elas foram interrompidas pelo ataque de Israel contra a república islâmica em junho, que desencadeou uma guerra de 12 dias.
Os Estados Unidos intervieram nesse conflito, bombardeando instalações nucleares iranianas.
“Limites”
Por outro lado, os estudantes iranianos começaram no sábado um novo semestre com manifestações a favor e contra o governo, segundo a imprensa local.
Em sua primeira reação a esses protestos, a porta-voz do governo, Fatemeh Mohajerani, afirmou na terça-feira que os alunos “têm, naturalmente, o direito de se manifestar”.
Mas há “limites que devemos proteger e não ultrapassar nem nos desviar deles, nem mesmo no momento mais intenso da indignação”, ponderou a porta-voz, citando que há “coisas sagradas” como “a bandeira” da república islâmica.
As manifestações abalam um país ainda impactado pelas consequências dos protestos do início do ano.
As marchas começaram no fim de dezembro com manifestações contra a crise econômica em um país duramente afetado pelas sanções, mas evoluíram para um movimento mais amplo contra o poder, até serem violentamente reprimidas.
“As prisões continuam”
A organização com sede nos Estados Unidos Human Rights Activists News Agency (HRANA) estimou que mais de 7 mil pessoas morreram na repressão desses protestos. No entanto, a ONG advertiu que o número real provavelmente é muito mais alto.
As autoridades iranianas informaram mais de 3 mil mortes, mas afirmam que a violência foi causada por “atos terroristas” incentivados pelos Estados Unidos e por Israel.
“As autoridades continuam aterrorizando a população”, afirmou Bahar Saba, pesquisadora da ONG Human Rights Watch, em um relatório publicado nesta terça-feira.
“As prisões continuam e os detidos enfrentam tortura, confissões forçadas e execuções secretas, sumárias e arbitrárias”.
A repressão aos protestos de janeiro levou o presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, a ameaçar bombardear novamente o Irã.
Trump ordenou o envio à região de um aparato militar e naval, enviando ao Oriente Médio o porta-aviões Abraham Lincoln. Ele será seguido pelo Gerald R. Ford, que está atualmente em uma base em Creta, na Grécia.
É incomum que dois navios desse tipo, que transportam dezenas de aviões de combate e são tripulados por milhares de militares, estejam ao mesmo tempo em uma mesma região.
Diante das “ameaças existentes”, a Guarda Revolucionária, o exército ideológico do Irã, iniciou manobras militares nas costas do Golfo.