Criar mosquitos em larga escala pode parecer contraditório em um país que enfrenta epidemias recorrentes de dengue, zika e chikungunya. Mas é justamente essa a estratégia adotada por um grupo de cientistas, liderado pelo pesquisador Luciano Andrade Moreira, para reduzir a transmissão dessas doenças no Brasil.
Ele coordena uma tecnologia que aposta na liberação planejada de mosquitos Aedes aegypti infectados com uma bactéria capaz de bloquear a transmissão de vírus – estudo que foi publicado na Revista Nature.
A iniciativa, chamada de Método Wolbachia, foi desenvolvida no Brasil há mais de uma década e ganhou escala nacional após resultados expressivos em cidades como Niterói (RJ) e Campo Grande (MS). A medida passou a integrar oficialmente as diretrizes do Ministério da Saúde para o controle das arboviroses.
Pesquisa com mosquitos foi desenvolvida por engenheiro agrônomo brasileiro
O método foi desenvolvido pelo engenheiro agrônomo Luciano Andrade Moreira, formado pela Universidade Federal de Viçosa (UFV). O pesquisador decidiu se especializar no estudo de mosquitos transmissores de doenças durante um pós-doutorado nos Estados Unidos, na Case Western Reserve University, onde trabalhou com malária.
Mais tarde, em um segundo pós-doutorado na Universidade de Queensland, na Austrália, Moreira participou de uma pesquisa que descobriu a capacidade da bactéria Wolbachia, presente naturalmente em muitos insetos, de bloquear a replicação de vírus dentro do mosquito Aedes aegypti.
Desde 2012, ele lidera a implementação do Método Wolbachia no Brasil e, atualmente, é diretor-presidente da Wolbito do Brasil, um consórcio entre a Fundação Oswaldo Cruz (Fiocruz) e o World Mosquito Program (WMP).
Como funciona o Método Wolbachia, que bloqueia a transmissão de vírus como a dengue?
A estratégia parte de um princípio simples: ao infectar o Aedes aegypti com a bactéria Wolbachia, o mosquito perde a capacidade de transmitir vírus como dengue, zika e chikungunya. Isso acontece porque a bactéria impede que esses vírus se multipliquem dentro do inseto.
Segundo Moreira, os mosquitos utilizados no método não são geneticamente modificados. “São mosquitos comuns que carregam a bactéria Wolbachia, introduzida em populações de Aedes aegypti em 2008”, afirmou em entrevista à Gazeta do Povo.
A bactéria é transmitida de geração em geração, o que permite que ela se estabeleça de forma duradoura na população local de mosquitos. A produção ocorre em biofábricas especializadas.
Nessas unidades, os mosquitos se reproduzem e geram ovos que são enviados para Núcleos Regionais de Produção, responsáveis por criar os insetos até a fase adulta. Depois disso, eles são liberados em áreas urbanas previamente definidas, de forma controlada e monitorada.
Queda de quase 90% nos casos de dengue a partir do Método Wolbachia
O caso de maior sucesso da aplicação do Método Wolbachia no Brasil é o de Niterói, na Região Metropolitana do Rio de Janeiro. O projeto-piloto começou em 2016 e teve seus resultados publicados recentemente na revista científica Tropical Medicine and Infectious Disease, em um estudo conduzido pelo World Mosquito Program Brasil, com participação da Universidade Monash, da Austrália, e da Fiocruz.
De acordo com a pesquisa, o número de casos de dengue notificados em Niterói foi 89% menor após a implementação do método, na comparação com a média registrada nos dez anos anteriores à intervenção, entre 2007 e 2016.
O estudo no município fluminense permite comparação com o cenário nacional e regional. Em 2024, o Brasil enfrentou a maior epidemia de dengue da história, com 6,6 milhões de casos e cerca de 6,2 mil mortes. No mesmo período, Niterói registrou 374 casos por 100 mil habitantes, um índice muito inferior ao observado no Estado do Rio de Janeiro (1.884 por 100 mil) e no país como um todo (3.157 por 100 mil).
Após as liberações iniciais, realizadas entre 2017 e 2019, a estratégia foi ampliada em 2023 para cobrir toda a área urbana do município, com financiamento do Ministério da Saúde e apoio do governo municipal. Hoje, a Wolbachia está presente em cerca de 95% da população de Aedes aegypti nas áreas monitoradas da cidade, mantendo-se estável mesmo sete anos após as primeiras liberações.
A estimativa dos pesquisadores é que três em cada quatro casos de dengue registrados em Niterói em 2024 foram evitados graças ao método.
“Essa é uma estratégia de controle de arboviroses presente no Brasil há mais de 10 anos e que, no último ano, passou a integrar oficialmente as diretrizes de prevenção e controle dessas doenças”, destacou Moreira. “A estratégia atua de forma complementar a outras tecnologias e tem apresentado resultados expressivos.”
Expansão da pesquisa com mosquitos para outras cidades
Além de Niterói, o Método Wolbachia já apresentou resultados relevantes em outras regiões do país. Em Campo Grande (MS), por exemplo, a estratégia foi responsável por uma redução de 63% nos casos de dengue, segundo dados citados pelo pesquisador.
Com a biofábrica instalada em Curitiba (PR), a expectativa é evitar que cerca de 14 milhões de brasileiros por ano sejam contaminados pelos vírus, ampliando a cobertura da tecnologia em cidades com histórico de alta transmissão de arboviroses.
“O Método Wolbachia não é um projeto piloto. Trata-se de uma estratégia com comprovação científica, aplicada no Brasil e em diversos países”, explica o engenheiro agrônomo.
O diferencial do Método Wolbachia está no seu caráter autossustentável. Uma vez estabelecida na população de mosquitos, a bactéria se mantém sem a necessidade de aplicações constantes, como ocorre com inseticidas.
Além disso, o método atua de forma complementar às políticas tradicionais de controle, como a eliminação de criadouros e a vigilância ambiental. “Não realizamos comparações com outros métodos, pois a estratégia atua de forma colaborativa e complementar às demais ações de controle”, explicou Moreira.
Outro ponto destacado é a segurança ambiental. Segundo o pesquisador, o Wolbito não apresenta riscos à saúde humana, ao meio ambiente ou a outros animais. A Wolbachia é uma bactéria amplamente distribuída na natureza e não é transmitida aos humanos por meio da picada do mosquito.
Apesar dos resultados positivos, há desafios significativos para ampliar a estratégia para todo o Brasil. “A dimensão e a complexidade do país impõem desafios logísticos e operacionais importantes”, afirmou Moreira.