DÉCADA DE 80
João Mendes participou das três edições do GP na capital e testemunhou as transformações na relação entre imprensa, organização e pilotos
Jornalista relembra bastidores do primeiro GP de Motovelocidade realizado em Goiânia (Foto: Arquivo cedido ao Mais Goiás)
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O primeiro Grande Prêmio de Motovelocidade realizado em Goiânia, em 1987, ocorreu em um cenário tecnológico completamente diferente do atual. Sem internet, celulares ou transmissões digitais, jornalistas recorriam a máquinas de escrever para enviar resultados e reportagens ao Brasil e ao exterior. Em contrapartida, o acesso aos pilotos do MotoGP era direto, algo que se tornaria cada vez mais restrito nas décadas seguintes.
O jornalista João Mendes participou das três edições do GP na capital, em 1987, 1988 e 1989, e acompanhou de perto as transformações na relação entre imprensa, organização e competidores. Para ele, a diferença é evidente. “Era outro mundo”, resume. “Nessa época a gente andava no boxe com muita facilidade e constava nos pilotos e falava assim: “Ó, eu quero conversar com você”.
Na sala de imprensa improvisada no bloco central do autódromo, não havia computadores nem conexão digital. Os textos eram enviados por Telex, equipamento que antecedeu o fax e transmitia apenas mensagens escritas. Já as fotografias seguiam por linha telefônica, por meio de um aparelho chamado telefoto, um processo que, segundo João Mendes, demorava “uma eternidade”.
A comunicação com o exterior também exigiu adaptações de última hora. Enquanto no Brasil os orelhões ainda funcionavam com fichas, os europeus e norte-americanos já utilizavam cartões telefônicos. A organização precisou correr para modernizar os equipamentos do autódromo e garantir que pilotos, equipes e jornalistas estrangeiros conseguissem se comunicar.
Quase quatro décadas depois, João Mendes se prepara para retornar à capital goiana para mais uma cobertura e lembra com nostalgia da liberdade que tinha. “Era um sonho encontrar com os pilotos. E ali eu chegava e conversava com os maiores pilotos do mundo”, recordou em entrevista ao Mais Goiás.
Foi assim que ele entrevistou Eddie Lawson, Randy Mamola e Freddie Spencer, piloto norte-americano que naquele ano venceu nas duas categorias, 250cc e 500cc. Com Spencer, João vivenciou um momento que considera uma lembrança curiosa.
“Eu combinei com ele: ‘Olha, vou fazer essa pergunta. Só que eu vou falar em português e você pode responder em inglês’. Então ele já sabia as perguntas. Eu falava em português, ele respondia em inglês.”
Segundo João Mendes, o evento passou por um crescimento significativo ao longo das décadas. Ele explica que, embora já fosse um campeonato mundial na época, o número de etapas era menor e havia menos países envolvidos. “Eu andava com minha câmera na pista inteira, fazia as imagens que eu queria”.
O jornalista também menciona o crescimento da imprensa. “Naquela época tinha três revistas especializadas em motociclismo no Brasil. Eu fazia um programa de televisão especializado, foi o pioneiro, tinha os jornais principais e pronto. Hoje não, hoje tem todo mundo tem revista digital, todo mundo tem programa no YouTube, tem milhares de influencers, todo mundo quer credencial”, pontua.
Ele destaca que a expansão do setor de motocicletas no país também influenciou a dimensão da competição. “Ganhou muita visibilidade e as exigências dos organizadores aumentaram”.