O agronegócio brasileiro acompanha com preocupação a escalada do conflito no Oriente Médio, que se iniciou com os ataques dos Estados Unidos e de Israel ao Irã. A guerra no Irã, com bombardeios a outros países da região, amplia os riscos e as incertezas para o setor, sobretudo por dois canais macroeconômicos interligados. De um lado, há o risco logístico, com bloqueios de rotas comerciais, aumento do custo de seguros marítimos e dúvidas quanto à disponibilidade de contêineres.
De outro, há choque de custos pelo aumento dos preços de petróleo, fretes e fertilizantes. Ambos afetam o fluxo de exportações, competitividade e margens. Especialistas em comércio exterior, entidades do agronegócio e integrantes do próprio governo ouvidos pelo Estadão/Broadcast Agro alertam que a intensidade dos impactos depende, porém, da duração e da extensão do conflito e da capacidade do comércio de encontrar rotas alternativas.
O comércio de produtos agropecuários Irã-Brasil é “expressivo”, apontam fontes. No último ano, o Brasil comercializou US$ 2,92 bilhões em produtos do agronegócio para o país persa, somando 11,532 milhões de toneladas, conforme o Agrostat, sistema de estatísticas de comércio exterior do agronegócio brasileiro.
O principal produto vendido é o milho, com embarques que geraram US$ 1,98 bilhão em 2025, representando 68% do total, seguido pela soja (US$ 563,63 milhões), açúcar (US$ 189,113 milhões), farelo de soja (US$ 182,19 milhões) e café verde (US$ 153,02 milhões), segundo o Agrostat.
Do lado da importação, o Irã fornece sobretudo ureia para o agronegócio brasileiro, tendo exportado para cá 184.738 toneladas do adubo em 2025, com desembolso de US$ 66,834 milhões pelos importadores.
Com o Oriente Médio, a relação é ainda mais profunda. A região representou US$ 12,572 bilhões em embarques do agronegócio em 2025, com 25,121 milhões de toneladas de produtos agropecuários exportados. Os cinco principais produtos exportados do Brasil à região no último ano foram carne de frango (US$ 3,082 bilhões), milho (US$ 2,779 bilhões), açúcar (US$ 2,258 bilhões), carne bovina (US$ 1,217 bilhão) e soja (US$ 919,59 milhões).
No governo brasileiro, a leitura é a de que o impacto “dependerá um pouco da extensão do conflito”. O secretário de Comércio e Relações Internacionais do Ministério da Agricultura, Luis Rua, é cauteloso e avalia que o “comércio sempre encontra seus caminhos”, considerando que os alimentos muitas vezes têm “salvo-conduto”.
Para o secretário, é possível, até, o aumento de compras pelos países do Oriente Médio para formação de estoques de segurança. “Já vimos isso acontecer. O papel do Brasil torna-se ainda mais relevante em um contexto de conflito e incertezas”, disse em entrevista ao Estadão/Broadcast Agro.
A percepção é compartilhada pela Câmara de Comércio Árabe-Brasileira, que avalia que potenciais impactos do conflito nas exportações brasileiras aos países árabes da região podem ser recuperados ao longo do ano. O secretário-geral da Câmara, Mohamad Mourad, observa que alguns armadores estão deixando de fazer a rota do Golfo Pérsico, mas afirma que eventuais impactos podem ser “amenizados ou recuperados”, nos próximos meses porque os países árabes dependem do Brasil para segurança alimentar.
No curto prazo, estoques do Ramadã ajudam. “De imediato, não vai haver falta de produto (lá)”, apontou. Para ele, rotas alternativas tendem a exigir um pouco mais de tempo, mas garantem a chegada das mercadorias.
Para a Confederação da Agricultura e Pecuária do Brasil (CNA), o milho é a commodity com exposição mais sensível no aspecto do comércio com Oriente Médio. Isso porque 23% dos embarques é destinado à região. “O milho é o maior ponto de atenção, mas com risco menor no curto prazo devido à sazonalidade dos embarques”, disse a entidade em nota técnica.
Neste momento, o Brasil está focado na exportação de soja. A CNA considera ainda carne bovina com exposição baixa a moderada e soja e açúcar com baixa exposição. Para a confederação, frete e seguro podem pressionar custos, mas pondera que, no caso do frango, “apesar de multas e fretes, a indústria está conseguindo readequar rotas”. Em relação à carne bovina, a CNA destaca que 6,8% da proteína brasileira é exportada para o Oriente Médio.
No caso do frango brasileiro, que tem 23% das exportações direcionadas ao Oriente Médio, a indústria tenta adequar a logística para manter os embarques. A Associação Brasileira de Proteína Animal (ABPA) menciona restrição na logística do frango, ainda sem cancelamentos dos embarques já contratados, mas sem aceite de novas cargas para a região.
O risco imediato envolve atrasos, transbordos e aumento da armazenagem, em meio à incerteza causada por gargalos logísticos, agravados pelo fechamento do Estreito de Ormuz e por bloqueios no Canal de Suez, afirma o presidente da ABPA, Ricardo Santin. “Vamos fazer o nosso melhor para manter o fluxo de comércio andando bem. Se não vem do Brasil, não vem de outro lugar. Não tem”, disse, sobre a relevância do Brasil no abastecimento da região. A diversificação das exportações de frango, entretanto, ajuda a diluir o risco comercial.
Na carne bovina, a Associação Brasileira das Indústrias Exportadores de Carnes (Abiec) vê efeito indireto maior que o destino final. “Entre 30% e 40% de toda a exportação brasileira de carne bovina passa pelo Oriente Médio de alguma maneira”, disse o presidente da Abiec, Roberto Perosa.
Segundo ele, com os bookings (processo de agendamento antecipado de espaço para o transporte de mercadorias) paralisados, “não há contêineres disponíveis” e, quando existem, há a cobrança adicional de até US$ 4 mil por unidade. Trata-se da chamada “taxa de guerra”, o que “torna as vendas inviáveis”. “Se não conseguimos escoar a produção, o que faremos com a carne? Os mercados estão saturados, com risco de redução nos abates e efeitos sistêmicos”, afirmou Perosa.
No café, o canal comercial do conflito também é majoritariamente logístico. O aumento do risco em rotas próximas ao Mar Vermelho e ao Oriente Médio encarece frete e seguro e altera a competitividade relativa entre origens, afetando sobretudo o café robusta, mais dependente do corredor asiático, observa o analista de Café da consultoria StoneX, Leonardo Rossetti. “É a principal rota de escoamento do café vindo do Vietnã e da Indonésia e, se houver ameaça e desvio de rota, o encarecimento do frete acaba sendo repassado para o produto final”, disse. Com o café asiático perdendo competitividade, o Brasil pode retomar a participação nas exportações de robusta, avalia ele.
A AgResource acrescenta outro risco financeiro atrelado ao conflito geopolítico. Para a consultoria, a escalada pode alterar decisões de compra e, com balanços globais folgados, derrubar cotações de grãos. “Enquanto Trump bombardear o Irã com Israel, é impossível para os chineses comprarem soja americana”, pondera.
Na análise do Insper Agro Global, o conflito tem maior choque em “rotas logísticas estratégicas e em mercados energéticos”, com potencial de repercussão rápida em cadeias globais. Para o Insper, a região é “estrutural” no escoamento da produção brasileira de milho e de frango e como canal de fornecimento de fertilizantes, em meio aos gargalos nas rotas de Ormuz, Bab el-Mandeb e Suez.
É unânime entre as entidades e especialistas que o conflito tende a afetar o comércio de produtos agropecuários menos pela destruição de demanda e mais pela fricção no fluxo comercial, com rotas mais longas, prêmios de seguro, escassez de contêineres e suspensão de novas reservas, o que eleva os custos das transações e gera incertezas quanto ao cumprimento de contratos.
Em cadeias com maior dependência regional como frango e, sobretudo, milho para o Irã, e em setores que usam o Oriente Médio como corredor logístico, a interrupção de bookings e gargalos em passagens estratégicas podem gerar atrasos, necessidade de transbordo e armazenagem, redirecionamento de cargas e, em casos extremos, acúmulo de oferta no mercado doméstico com pressão sobre preços.
Em contrapartida, o fato de a segurança alimentar ser um tema caro para os países importadores sinaliza que, diante de rotas alternativas, parte relevante do impacto pode se concretizar como custo e volatilidade, e não como queda estrutural das exportações. A magnitude dos efeitos depende, sem dúvidas, da duração do conflito e da velocidade de normalização logística.