Redação Jornal de Brasília/Agência UniCeub
*Por Maria Clara Della Penna, Mariana Mazzaro, Pedro Santana e Sabrina Bastos
O início da temporada do futebol brasileiro foi marcado por polêmicas quanto a episódios de machismo, racismo e preconceitos que extrapolaram as quatro linhas do campo. O cenário não é algo novo no esporte, mancha o propósito e deixa vítimas.
O caso mais recente aconteceu entre o zagueiro Gustavo Marques, do Bragantino, e a árbitra Daiane Muniz, em uma partida do Campeonato Paulista. Na ocasião, o time que o jogador defende foi eliminado da competição ao ser derrotado para o São Paulo por 2 x 1. Após o fim da partida, o defensor foi a público e declarou que mulheres não deveriam apitar jogos de grande porte:
“Todo o respeito às mulheres do mundo, eu sou casado, eu tenho minha mãe, então desculpa aí se eu estou falando alguma coisa para as mulheres, mas ela, do tamanho dela, eu acho que ela não tem a capacidade de apitar um jogo desse.”
Sobre o assunto, a psicóloga Nayara Machado de Almeida explica que uma das causas para o machismo no ambiente esportivo tem relação com um comportamento já enraizado nas arquibancadas e alerta que esses comentários causam sintomas como ansiedade, estresse, entre outros.
“Do ponto de vista da psicologia, esse tipo de comportamento pode acontecer por alguns fatores, sendo um deles o condicionamento cultural. Durante muito tempo, o futebol foi visto como um espaço exclusivo para homens, o que levou as pessoas acreditarem na ideia de que somente os homens seriam naturalmente mais aptos para ocupar posições de liderança ou autoridade nesse contexto.”, explicou Nayara.
“Atitudes e discursos machistas são frutos da construção de identidade feminina e masculina, moldando identidades de gênero desde a infância ao longo da história da humanidade”, completou a especialista.
No campo e na arquibancada
O sentimento de impunidade não se limita somente aos jogadores. Nas arquibancadas, mesmo com o crescimento do movimento feminino nas torcidas, ainda predomina de forma majoritária a presença de homens nos grupos e coletivos.
Esse fato ocorre pela insegurança que as mulheres tem em jogos de futebol. Em 2026, a partida entre Athletico-PR x Corinthians, pelo Campeonato Brasileiro, contou apenas com a presença de mulheres, idosos e crianças, mas o caso aconteceu por uma penalização da CBF após episódios de violência com a torcida do time paranaense.
Essas atitudes que tiram as mulheres das arquibancadas de futebol está enraizada e passa por um condicionamento cultural. A psicóloga explica que discursos do passado moldam a identidade do torcedor atual:
“Atitudes e discursos machistas são frutos da construção de identidade feminina e masculina, moldando identidades de gênero desde a infância ao longo da história da humanidade. Podemos observar um reflexo de machismo estrutural que ainda é existente em muitos ambientes, como o futebol por exemplo, revelando principalmente em um preconceito cultural e inconsciente.”
Desmotivação
Atualmente, a Federação de Futebol do Distrito Federal (FFDF) conta com apenas duas árbitras no quadro de arbitragem. São elas: Cássia França de Souza e Leila Cruz. O baixo número de profissionais mulheres na área tem relação com essa cultura implementada erroneamente de que o futebol é um esporte apenas dedicado a homens. A psicóloga Nayara alertou que o machismo pode desmotivar mulheres que pretendem atuar no futebol:
“Esses comportamentos podem interferir, pois possuem um efeito desmotivador, não atingindo somente a pessoa que é direcionada a crítica, como também, outras mulheres que presenciam ou tomam ciência da situação, podendo sentir que aquele não é um espaço seguro e que teriam que se esforçar bem mais para um reconhecimento profissional, gerando medo da exposição, sentimento de desvalorização, inseguranças e até a desistência em exercer a função.”
“O impacto psicológico nas profissionais pode causar sintomas e sentimentos como, ansiedade, estresse, sentimentos de injustiça e desvalorização profissional, devido a esses preconceitos que surgem em forma de ataque ao gênero e não à competência profissional, podendo afetar a confiança ao exercer sua função.”
No DF, Cássia França integra o quadro da CBF desde 2020 e atua em jogos na capital federal e participa do calendário nacional em algumas oportunidades; Leila Cruz, além de fazer parte do grupo de árbitras que possuem o selo da CBF, também está integrada à FIFA. A árbitra venceu o prêmio de Melhor Assistente do ano em 2025.
Iniciativas
Atualmente, a Confederação Brasileira de Futebol (CBF) conta com o projeto Mulheres no Jogo. O intuito da entidade é aumentar a presença feminina na instituição educacional, acabar com o machismo, inclusão e incentivo à valorização da mulher no esporte através de sua profissionalização. No Distrito Federal, um dos grandes projetos que promovem o esporte feminino é o grupo Vivace Futsal, que atua com a gestão e desenvolvimento de atletas desde as categorias de base.