Red Pill: pesquisadora alerta para perigos da radicalização do movimento na “machosfera”

“Um problema crônico que teremos que lidar pelo resto da vida”. É dessa forma que a pesquisadora baiana Michele Prado, uma das principais especialistas em extremismo violento e terrrorismo on-line no País. Ela compreende o fenômeno latente da radicalização em movimentos masculinistas nas redes sociais.

Michele atua no Monitor do Debate Político no Meio Digital da Universidade de São Paulo (USP). Como pesquisadora, ela já se infiltrou em grupos virtuais e flagrou os riscos para crianças e adolescentes.

Ela explica que esses movimentos formados, em sua maioria, por homens, podem parecer grupos de conversação, compartilhamento de experiências e conselhos entre o público masculino.

Mas, segundo Michele, esses espaços podem evoluir para discursos radicalizados e misóginos, chegando, em última instância, à violência.

Na última semana, o caso de estupro coletivo contra uma menor de idade ocorrido no Rio de Janeiro, chamou a atenção para um dos grupos mais populares, os chamados “Red Pill”.

Quando um dos acusados, Vitor Hugo de Oliveira Simonin, se apresentou na 12ª Delegacia de Polícia de Copacabana no dia 4 de março, chamou à atenção pela frase estampada em sua blusa com o dizer “regret nothing”, que significa “não se arrependa de nada”.

A frase foi identificada como um lema popularizado pelo influenciador inglês Andrew Tate, coach do movimento Red Pill e autodeclarado misógino.

De acordo com a pesquisadora, os Red Pill são apenas uma subcultura de um ecossistema denominado “machosfera”, termo que se refere ao conjunto de comunidades online de interesses e queixas masculinas, que tem como elo o anti feminismo radical.

Também fazem parte desse universo, grupos como  MGTOW( “Men Going Their Own Way ou “Homens Seguindo Seu Próprio Caminho”), os Incels ( Involuntary Celibate ou Celibatários Involuntários), os MRAS (“Men’s Rights Activists ou Ativistas dos Direitos dos Homens) e os PUA ( Pick – Up Artists), que surgem antes do movimento Red Pill.

“Como se fosse assim, eles estão andando de bicicleta juntos. Eles estão dentro do mesmo espaço, dentro do mesmo ecossistema que é a machosfera.” afirma Michele 

Origens

Em meados dos anos 2000, o influenciador de extrema direita Curtis Yarvin propôs a alegoria da “pílula vermelha” (Red Pill), como uma metáfora política para ser utilizada como “arma” na “guerra cultural”.

A ideia se baseia na metáfora apresentada no filme “The Matrix”, em que o protagonista da trama, Neo, deve escolher entre duas pílulas ofertadas pelo personagem Morpheus: a pílula azul (blue pill), que significa continuar vivendo em uma realidade ilusória, ou a pílula vermelha (red pill), que é o despertar para a verdadeira realidade.

Logo depois, o termo foi também adotado por subculturas dentro da machosfera, pregando que é preciso “acordar” para a realidade em que acreditam, na qual, supostamente, as mulheres teriam mais direitos e privilégios que os homens.

Cena do filme ‘The Matrix’. Foto: Divulgação

“É um pensamento conspiratório”, aponta a pesquisadora.

Machosfera

Antes de assumirem contornos mais radicalizados, muitas dessas comunidades se apresentam como espaço de acolhimento e troca entre homens. Conteúdos voltados a frustrações pessoais, dificuldades em relacionamentos e busca por autoestima funcionam como ponto inicial de contato, especialmente entre jovens que procuram pertencimento.

Nesse primeiro momento, os discursos não aparecem necessariamente de forma explícita ou violenta, a aproximação começa de forma gradual, a partir de temas cotidianos, até que as visões mais rígidas sobre gênero e relações passam a ser introduzidas e naturalizadas.

Esse percurso ajuda a explicar como conteúdos aparentemente inofensivos podem servir como porta de entrada para comunidades mais fechadas, criando as condições para processos posteriores de radicalização.

Para Michele, há 5 anos, o crescimento das comunidades Red Pill já era uma ameaça emergente. “Era muito nítido que a gente estava atravessando um processo de radicalização online a partir dessas comunidades, são jovens e adultos se radicalizando dentro de conteúdos onde nós temos a misoginia violenta.” 

A especialista relata que os conteúdos online podem desempenhar um papel central nessa disseminação de ódio e que as redes sociais, muitas vezes, funcionam como vetores que influenciam os jovens a seguir determinado sistema de crenças.

“Crianças e adolescentes vulneráveis que consomem esse conteúdo online podem chegar ao processo de radicalização mais facilmente”, comenta

Combate

Michele acredita que isso deve ser encarado como um problema de saúde pública que exige o envolvimento de toda a sociedade. Ela destaca a importância da presença ativa dos pais na vida on-line dos filhos, e acredita que a internet está longe de ser um ambiente seguro, nem mesmo para adultos.

“Aos poucos, as pessoas estão se conscientizando. Se o pai e a mãe não compreendem o assunto, se a sociedade, por exemplo, normaliza o bullying, o abuso psicológico, comportamentos tóxicos, discursos de ódio e tudo mais, não adianta. É só enxugar gelo”, afirma.

Diante desse cenário, o enfrentamento à radicalização nas redes esbarra em desafios que vão além da atuação individual ou mesmo institucional. Nesse contexto, a persistência desses movimentos evidencia não apenas falhas no ambiente digital, mas também limites na forma como a sociedade reconhece e responde a essas formas de extremismo.

A pesquisadora ainda ressalta as limitações da legislação brasileira, que ainda não acompanha a complexidade de crimes como o extremismo violento, o terrorismo e a misoginia praticados nas redes sociais, deixando falhas no combate dessas práticas. 

O avanço dessas comunidades se insere em um contexto mais amplo de normalização da violência e do discurso de ódio. Mais do que conter conteúdos, o desafio passa por compreender as raízes desse fenômeno e enfrentar as condições que permitam sua persistência.

*Supervisão de Luiz Cláudio Ferreira

T CSM

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