O dólar fechou em alta de 0,24% nesta terça-feira (24), cotado a R$ 5,254, tendo como pano de fundo os novos desenrolares da guerra no Oriente Médio.
Ainda sem sinais de trégua, o conflito escalou nesta madrugada em meio a ataques de Israel a instalações de gás iranianas. Horas depois, Teerã lançou uma nova onda de mísseis contra Tel Aviv.
A retomada de ofensivas acontece um dia após o presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, sinalizar uma possível rodada de negociações para encerrar o conflito, ainda que o Irã tenha negado conversas com Washington.
As incertezas impuseram aversão a risco aos mercados, com o dólar demonstrando força globalmente. O índice DXY, que compara a moeda a seis outras divisas fortes, subiu 0,4%, a 99,41, em sinal de busca dos investidores por ativos de segurança.
Wall Street fechou no negativo, com os três principais índices -S&P500, Nasdaq e Dow Jones- marcando perdas de até 0,8%. No Brasil, por outro lado, o Ibovespa avançou 0,31%, a 182.509 pontos, puxado pela disparada de mais de 2% dos papéis da Petrobras em meio ao avanço do petróleo no exterior.
“O movimento reflete a deterioração do ambiente de risco global diante da incerteza sobre a efetividade das negociações entre Estados Unidos e Irã”, diz Bruno Shahini, especialista em investimentos da Nomad.
“A ausência de sinais concretos de desescalada, combinada com declarações mais duras por parte de autoridades iranianas e a continuidade dos ataques na região, levou o mercado a reprecificar um cenário de conflito mais prolongado, com impacto direto sobre os preços de energia.”
Nesse contexto, o barril do petróleo Brent, referência internacional, voltou a bater US$ 100. À tarde, avançava 4%, cotado a US$ 103.
Segundo a imprensa iraniana, duas instalações de gás e um gasoduto foram atingidos pelos ataques de Israel nesta madrugada.
Os alvos incluem um edifício administrativo do setor de gás e uma estação de regulação de pressão em Isfahan, ambos parcialmente danificados. Outro ataque teria atingido um gasoduto ligado a uma usina elétrica no sudoeste do país, sem informações detalhadas sobre a extensão dos danos.
Horas depois, o Irã lançou uma nova onda de mísseis contra Israel, acionando sirenes em Tel Aviv.
Edifícios residenciais foram atingidos, e equipes de resgate realizaram buscas por civis sob os escombros.
Segundo a imprensa, quatro pessoas ficaram feridas, nenhuma em estado grave.
A nova troca de ofensivas contraria o discurso de trégua de Trump da véspera. Em uma publicação no Truth Social, ele afirmou que EUA e Irã tiveram conversas “muito boas e produtivas” nos últimos dois dias sobre uma “resolução completa e total das hostilidades no Oriente Médio”.
Ele também recuou de ameaças de destruir usinas de energia iranianas, afirmando que deu instruções para adiar por cinco dias quaisquer ataques contra as instalações.
As negociações estariam acontecendo com uma autoridade iraniana que não seria o líder supremo, Mojtaba Khamenei. Teerã, no entanto, nega qualquer diálogo.
Segundo a agência iraniana Mehr, a chancelaria do Irã disse que Trump só quer ganhar tempo para sua campanha militar e aliviar a pressão no mercado de petróleo, ainda que existam “iniciativas para reduzir a tensão”. O país persa, contudo, reforçou que só aceitará propostas dos Estados Unidos diretamente.
A possibilidade de uma trégua no conflito injetou ânimo nos mercados na véspera -o Ibovespa chegou a disparar mais de 3% e até retomou o patamar de 180 mil pontos, por exemplo. Mas os novos ataques desta terça, somados às percepções de que os danos ao mercado de energia serão de longo prazo, limitam maiores ganhos.
Enquanto os temores do início da guerra eram de gargalos no escoamento de petróleo pelo Estreito de Hormuz, via por onde passam 20% de todo o fornecimento global da commodity, agora a preocupação também é com a infraestrutura da região.
“Passamos de interromper o trânsito, que é uma medida temporária, para atacar infraestrutura, que tem efeitos de longo prazo”, disse David Goldwyn, ex-diplomata americano e ex-funcionário do Departamento de Energia.
Com a restrição da oferta de petróleo, o mercado já precifica um repique na inflação global por causa do aumento dos preços de combustíveis. Essa percepção já afeta, inclusive, decisões de juros ao redor do mundo -inclusive no Brasil.
Em ata divulgada nesta terça, o Copom (Comitê de Política Monetária) afirmou que, diante do novo contexto imposto pela guerra, a duração e a intensidade do ciclo de queda da Selic serão decididas ao longo do tempo.
O colegiado não sinalizou passos futuros e deixou a próxima decisão em aberto. A ideia do Copom é ter mais clareza da profundidade e da extensão do conflito antes de definir quais serão os movimentos seguintes. A próxima reunião está marcada para 28 e 29 de abril.
“O Comitê estabeleceu que a magnitude e a duração do ciclo de calibração serão determinadas ao longo do tempo, à medida que novas informações forem incorporadas às suas análises”, afirmou.
“Essa decisão é compatível com o cenário atual, no qual a duração e extensão dos conflitos geopolíticos, assim como sinais mistos sobre o ritmo de desaceleração da atividade econômica e seus efeitos sobre o nível de preços, dificultam a identificação de tendências claras.”
O Copom iniciou na última quarta-feira (18) o ciclo de queda de juros e reduziu a taxa Selic em 0,25 ponto percentual, de 15% para 14,75% ao ano. Na ata, ressaltou os efeitos dos juros altos sobre a atividade econômica e sobre a inflação para justificar o primeiro corte em quase dois anos.