Família Batista negocia crédito do BNDES para produzir fertilizantes no país

Os planos do governo federal para que o agronegócio reduza sua dependência da importação de fertilizantes e amplie a produção nacional do insumo cruzam os caminhos da família Batista, controladora da J&F Investimentos.

Segundo pessoas ligadas diretamente ao assunto ouvidas pela Folha, um dos projetos considerados mais maduros hoje pelo governo para turbinar a produção nacional de potássio, um fertilizante, pertence à empresária Valére Batista, irmã de Wesley e Joesley Batista. A companhia está em vias de um acordo milionário com o BNDES (Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social).

Procurados pela Folha de S.Paulo, o BNDES e a Stratos não comentaram o assunto. Valére Batista também não quis se pronunciar.

Valére, que adota um perfil mais discreto nas redes sociais, sem declarações ou fotos públicas na internet, é dona da VL Mineração, que comprou a única mina de potássio em atividade no país, localizada em Sergipe.

O negócio foi fechado no fim do ano passado com a multinacional Mosaic por US$ 27 milhões, o equivalente a R$ 143 milhões na cotação atual. A operação de potássio localizada entre os municípios de Taquari e Vassouras foi rebatizada de Stratos.

O próximo passo, agora, é firmar um financiamento com o BNDES, que vai anunciar uma linha de crédito específica para projetos de produção de fertilizantes nos próximos dias.

Segundo relatos feitos à reportagem, já houve conversas entre a empresa e o banco para viabilizar a operação. Ainda não há um valor fechado, mas a expectativa é que a cifra ultrapasse a casa das centenas de milhões de reais.

Hoje, a Stratos produz cerca de 400 mil toneladas de potássio por ano, mas teria condições de multiplicar esse número por cinco, chegando a 2 milhões de toneladas anuais. Um empréstimo de cerca de R$ 500 milhões daria condições para a empresa aumentar sua produção em mais 100 mil toneladas, aproximadamente.

As tratativas ocorrem no contexto do Plano Brasil Soberano 2, programa federal anunciado pelo governo, em meio aos conflitos no Oriente Médio, que prevê até R$ 15 bilhões em crédito para setores da economia, principalmente o de fertilizantes.

Sob gestão do BNDES, o programa prevê financiamento para capital de giro, aquisição de equipamentos e expansão de produção, com condições que ainda serão definidas pelo CMN (Conselho Monetário Nacional) –colegiado formado pelos ministros da Fazenda (Dario Durigan) e do Planejamento (Bruno Moretti) e pelo presidente do Banco Central (Gabriel Galípolo).

Atualmente, o país importa mais de 90% do volume total de fertilizantes que consome, com importação de 97% dos nitrogenados, 74% do fósforo e 97% do potássio. É um cenário que deixa o país completamente vulnerável a oscilações de preços, restrições comerciais e crises geopolíticas.

A escalada do conflito na região do golfo Pérsico e do estreito de Hormuz tem afetado o mercado internacional de fertilizantes, devido ao aumento do custo de insumos como enxofre, utilizado na produção de ácido sulfúrico. A região responde por cerca de 45% da oferta global deste produto.

Outro projeto que está em análise é o da Potássio do Brasil, controlado por uma empresa canadense e que prevê exploração de potássio na região de Autazes, no Amazonas. Na prática, porém, é um projeto mais complexo, por questões ambientais e logísticas. Por isso, é visto como saída de longo prazo.

Neste mês, o Ministério da Agricultura e Pecuária acelerou a criação de um grupo de trabalho emergencial para acompanhar o tema dos fertilizantes, em parceria com a Casa Civil e o Ministério do Desenvolvimento, Indústria, Comércio e Serviços.

Em 2025, as importações brasileiras de fertilizantes atingiram 43,32 milhões de toneladas, segundo a Conab (Companhia Nacional de Abastecimento). O país é o maior importador mundial de fertilizantes e o quarto maior consumidor.

“Em condições normais, os fertilizantes representam mais de 30% dos custos de produção e, em cenários de crise, podem superar 50% a 60%, comprometendo a competitividade do agronegócio brasileiro”, afirmou o Ministério da Agricultura, em ofício ao qual a Folha teve acesso.

Ao defender a necessidade de ampliar a produção nacional, a pasta diz que há “necessidade de fortalecer o papel do BNDES como agente financiador e ampliar os instrumentos de política industrial do Ministério do Desenvolvimento – Nova Indústria Brasil para garantir recursos para investimentos na produção e distribuição de fertilizantes e insumos para a nutrição de plantas em território nacional”.

Questionado sobre o assunto, o Mapa declarou apenas que as decisões sobre investimentos ligados ao PNF (Plano Nacional de Fertilizantes) estão sob a atribuição do Confert (Conselho Nacional de Fertilizantes e Nutrição de Plantas). “Esse órgão, que tem como principal atribuição revisar, debater e implementar o PNF, é presidido pelo Ministério do Desenvolvimento”, disse.

O Ministério do Desenvolvimento declarou que o plano “tem como principal objetivo ampliar a capacidade produtiva doméstica, alcançando, até 2050, uma produção capaz de suprir 50% da demanda interna”.

Segundo a pasta, o Confert monitora uma carteira de 67 projetos, sendo 14 deles relativos à construção, ampliação ou reativação de fábricas para produção de fertilizantes, no valor total de R$ 22,4 bilhões.

O Ministério do Desenvolvimento citou quatro projetos que estão em operação. Trata-se de Serra do Salitre, em Minas Gerais, que é da multinacional Eurochem, e de outras três plantas controladas pela Petrobras: Fafen Bahia, Fafen Sergipe e Araucária, no Paraná.

T CSM
Fábio Andrade Contabilidade - Contador em Santa Maria DF
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