Dólar sobe e Bolsa recua com tensões entre EUA e Irã no radar

Barômetros Econômicos Globais interrompem trajetória de alta dos últimos meses, mostra FGV
Barômetros Econômicos Globais interrompem trajetória de alta dos últimos meses, – Reprodução

O dólar sobe nesta segunda-feira (4), com supostos ataques do Irã a navios no estreito de Hormuz aumentando temores de investidores durante o pregão.

Às 13h09, a moeda norte-americana subia 0,38%, cotada a R$ 4,971 (próxima da máxima de R$ 4,974). O comportamento da divisa acompanhava o exterior: o índice DXY, que mede o desempenho do dólar em relação a outras seis moedas fortes, avançava 0,26%.

No mesmo horário, a Bolsa de Valores brasileira recuava 0,71%, a 185.980 pontos.

Nesta segunda-feira, a Marinha do Irã afirmou ter impedido a entrada de navios de guerra dos Estados Unidos no estreito de Hormuz, segundo a TV estatal iraniana. A agência semioficial iraniana Fars informou que dois mísseis teriam atingido um navio de guerra norte-americano perto do porto de Jask, onde a Marinha iraniana possui uma base.

A informação foi negada por Washington. O Comando Central dos EUA, que por sua vez está bloqueando portos iranianos para pressionar Teerã, afirmou que nenhuma embarcação do país foi atingida.

O cenário se tornou mais instável no final de semana. O Irã havia alertado as forças de Washington para não entrarem na via marítima depois que do presidente dos EUA, Donald Trump, dizer no domingo (3) que os EUA iriam guiar os navios que estão retidos em Hormuz para fora da via marítima.

Na sexta-feira (1º), o Irã enviou uma nova proposta de paz aos EUA. Trump disse a repórteres, entretanto, que não estava satisfeito com a proposta do Irã.

No sábado (2), o republicano também afirmou que irá analisar a proposta enviada por Teerã, mas estar cético quanto aos termos do possível acordo. O republicano disse que a retomada dos ataques contra o Irã é possível.

As duas partes firmaram um cessar-fogo em 8 de abril, após quase 40 dias de bombardeios dos EUA e de Israel contra o Irã, e de represálias iranianas contra países do Golfo, aliadas de Washington.

Em 21 de abril, Trump anunciou a prorrogação da trégua contra o Irã. O norte-americano não especificou um prazo, informando que o cessar-fogo será estendido até que Teerã apresente uma proposta e as negociações entre os países sejam concluídas.

O conflito no Oriente Médio tem sido responsável pelo bloqueio do fluxo no estreito de Hormuz, via por onde passa cerca de 20% do abastecimento mundial de petróleo e gás.

Para Lucca Bezzon, especialista em inteligência de mercado da Stone X, o pregão, esvaziado de indicadores econômicos, é direcionado para as tensões.

“O principal fator de atenção segue sendo o conflito no Oriente Médio. O ambiente segue bastante hostil entre os dois países e deve continuar gerando volatilidade nos mercados”, afirma.

Gabriel Cecco, especialista da Valor Investimentos, o foco está no cenário externo. “Impacta diretamente commodities, inflação esperada e juros no mundo todo. Com o aumento do risco, o investidor tende a buscar proteção: o dólar ganha força, a curva de juros abre e a Bolsa sofre pressão”.

No exterior, o preço do petróleo Brent, referência global, avança 2,49%, a US$ 110,82 por volta das 11h20. Na máxima, o barril chegou a US$ 114,29, às 7h15 (horário de Brasília), alta de 5,66%.

No cenário doméstico, o lançamento do Desenrola 2.0 também está no radar. O governo anuncia nesta segunda-feira (4) as regras do novo programa de renegociação de dívidas.

Brasileiros que recebem até cinco salários mínimos (R$ 8.105) poderão participar da iniciativa. O programa irá proibir os participantes de fazerem apostas em sites esportivos por um ano, como medida de contenção aos gastos com apostas.

Segundo representantes do setor bancário, a iniciativa deve atrair mais bancos e implicar em menos custos operacionais e de infraestrutura do que a primeira versão.

Para Otávio Araújo, consultor sênior da Zero Markets Brasil, o programa tende beneficiar as instituições financeiras no curto prazo, com receitas de clientes inadimplentes, “mas também pode reacender dúvidas sobre o impacto fiscal”.

Gabriel Cecco também destaca o anúncio do programa durante o pregão. “O Desenrola é uma pauta relevante. O programa pode ajudar a reduzir a inadimplência e limpar o nome de consumidores, o que é positivo principalmente para bancos e varejo. Por outro lado, dependendo de como o programa for estruturado, o mercado pode enxergar algum risco adicional”, diz.

O movimento doméstico também permanece ligado ao diferencial de juros ainda atrativo do Brasil, o que favorece a entrada de fluxo para o país.

Na quarta-feira passada, o Fed manteve a taxa de juros inalterada na faixa de 3,5% a 3,75%, como amplamente esperado, na última reunião de Jerome Powell como presidente da instituição. No mesmo dia, no Brasil, o Copom (Comitê de Política Monetária) anunciou um corte de 0,25 ponto percentual na taxa básica de juros, levando a Selic a 14,5% ao ano.

O Copom, contudo, tem adotado um tom mais cauteloso na política monetária frente ao cenário internacional de conflito e a alta da inflação do petróleo. Em comunicado divulgado após a decisão, o comitê reforçou a necessidade de cuidado e não sinalizou abertamente o rumo de seus próximos movimentos.

A maior cautela mexe com as apostas no ritmo de cortes da Selic. Segundo o Boletim Focus mais recente, divulgado nesta segunda-feira (4), analistas projetam que a taxa básica de juros encerre 2026 a 13%, ante 12% antes de o conflito começar.

A diferença entre as taxas impulsiona operações de carry trade. Nessa estratégia, investidores captam recursos em economias com juros mais baixos, como os Estados Unidos, e aplicam em ativos de países com taxas mais elevadas, como o Brasil, buscando ganhos com o diferencial de juros.

O comportamento é citado como um dos principais responsáveis pela alta recente da Bolsa e do real.

T CSM
Fábio Andrade Contabilidade - Contador em Santa Maria DF
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