Desenrola amplia renegociação, mas não é garantia de tirar brasileiro das dívidas, dizem especialistas

O novo Desenrola chega com a proposta de aliviar a pressão sobre o orçamento de famílias endividadas, mas especialistas apontam que, se tratados como uma estratégia isolada, programas de renegociação não são garantia de tirar os brasileiros das dívidas de forma duradoura. Com descontos de até 90% sobre dívidas bancárias, o programa é voltado para inadimplentes com renda de até cinco salários mínimos (R$ 8.105).

Economistas e planejadores financeiros ouvidos pela reportagem afirmam que o retorno ao endividamento costuma estar ligado não apenas aos juros elevados, mas também à dependência crescente do crédito para pagar despesas do dia a dia e à falta de reorganização financeira após os acordos.

“Renegociar uma dívida sem mudar a dinâmica financeira que levou ao endividamento é como esvaziar um barco com um balde sem tampar o furo. O alívio imediato até existe, mas a água continua entrando”, afirma a especialista em finanças pessoais Carol Stange.

Segundo ela, o principal erro é tratar a inadimplência como episódio isolado. Stange afirma que o risco de voltar a entrar no vermelho costuma ser maior entre autônomos, pessoas com renda variável e famílias que passaram por desemprego, doença ou separação. Nesses casos, diz, pesa a dificuldade de manter uma renda estável.

Reinaldo Domingos, presidente da DSOP Educação Financeira, diz que o Desenrola poderia aproveitar o momento da renegociação para incluir etapas de educação financeira e conscientização sobre consumo.

“Se renegocia e continua gastando mais do que ganha, volta ao mesmo problema em poucos meses”, afirma. “O brasileiro precisa reorganizar o orçamento, reduzir excessos e construir reserva financeira. Sem isso, daqui a pouco vamos ter um Desenrola 3.0”, diz.

Para Reginaldo Nogueira, diretor nacional do Ibmec, o avanço da inadimplência também está ligado a fatores estruturais da economia brasileira, com crescimentos reais de salário pequenos e juros muito altos. “Muita gente passou a usar cartão e parcelamento não para consumir mais, mas para fechar o orçamento do mês.”

ANTES DE RENEGOCIAR, ESPECIALISTAS RECOMENDAM REORGANIZAR O ORÇAMENTO

Domingos diz que o primeiro passo antes de fechar a renegociação é entender se o orçamento familiar comporta novas parcelas. “O problema não é a dívida em si. A dívida pode ser uma ferramenta financeira, ela faz você ter coisas antes para pagar depois. O grande risco é gastar mais do que se consegue pagar nas datas de vencimento”, afirma.

Segundo ele, isso exige uma “faxina financeira”, com revisão de hábitos de consumo e corte de excessos. Em alguns casos, pode envolver trocar serviços e reduzir padrões de consumo.

Uma estratégia apontada por Carol Stange é consolidar dívidas em linhas de crédito mais baratas, limitar o uso do cartão ao valor que pode ser pago integralmente e automatizar pequenos aportes mensais para formar uma reserva de emergência.

Ao reorganizar as contas, especialmente entre famílias de baixa renda, a prioridade é preservar despesas essenciais (moradia, alimentação, energia elétrica e água).

Segundo Nogueira, dívidas de serviços básicos costumam gerar mais urgência na renegociação do que as bancárias, por envolverem o corte do serviço.

O problema se agrava, afirma, quando a pessoa começa a comprometer despesas básicas para pagar dívidas antigas, num quadro de superendividamento.

Nesse contexto, dívidas com garantia real, como financiamento imobiliário e de veículos, também ganham prioridade, já que o atraso pode resultar na perda do bem. Depois disso, afirma Carol Stange, o principal critério passa a ser o custo dos juros: rotativo do cartão de crédito e cheque especial costumam liderar a lista das dívidas mais caras e, por isso, deveriam entrar primeiro na renegociação.

A velocidade com que esses juros crescem, segundo Adrian Carvalho, planejador financeiro e CEO da Quartavia, faz com que esperar descontos maiores nem sempre seja a melhor estratégia. Ele afirma que muitos consumidores adiam acordos porque programas de renegociação costumam oferecer abatimentos maiores para dívidas mais antigas, enquanto o saldo devedor continua aumentando.

“Tem gente que pensa: vou esperar mais um pouco para sair de 70% para 85% de desconto’. Mas a economia de juros perdida nesse período costuma ser maior do que o ganho adicional no abatimento”, diz.

Para quem tem múltiplas dívidas, Carvalho recomenda renegociar por etapas. “A pessoa fecha quatro renegociações em duas semanas e depois descobre que comprometeu 70% da renda com novas parcelas.”

EDUCAÇÃO FINANCEIRA NO CENTRO DO DEBATE

A nova medida provisória do Desenrola determina que as instituições financeiras participantes destinem, a fundo perdido, ao menos 1% dos valores garantidos pelo FGO (Fundo Garantidor de Operações) para ações de educação financeira, que deverão ser pactuadas com o Ministério da Fazenda e executadas em até um ano.

A exigência é vista por especialistas como um dos pontos mais relevantes do novo Desenrola, embora ainda existam dúvidas sobre como as ações serão implementadas. Em nota, a ABBC (Associação Brasileira de Bancos) elogiou a iniciativa e afirmou que o setor ainda não iniciou as discussões sobre essa operacionalização porque, neste momento, os esforços estão concentrados em colocar o programa em funcionamento.

Segundo a associação, as ações podem ajudar consumidores a escolher linhas de crédito mais adequadas à renda e às necessidades da família.

Para Reginaldo Nogueira, do Ibmec, a medida vai na direção correta, mas falta clareza sobre execução, como os recursos serão utilizados e sobre avaliação de resultados. Segundo ele, sem mecanismos de acompanhamento, o efeito prático fica limitado e há risco de que as iniciativas acabem restritas a campanhas genéricas e cartilhas com baixo efeito estrutural sobre o comportamento financeiro da população.

O MITO DA DÍVIDA QUE DESAPARECE APÓS CINCO ANOS

Quando o tema da renegociação de dívidas entra em discussão, também costuma reaparecer a ideia de esperar a dívida “caducar” após cinco anos.

Fernando Gambaro, especialista da Serasa em educação financeira, explica que o que deixa de existir após esse prazo é apenas a negativação do CPF nos cadastros de inadimplência. A dívida continua existindo, ou seja, ela não é extinta, e ainda pode ser cobrada administrativamente pelas empresas credoras, além de continuar afetando a relação com bancos e empresas, inclusive dificultando novas concessões de crédito.

“Ignorar uma dívida não a apaga. Apenas transfere o problema para um momento em que você pode ter menos poder de negociação”, diz Carol Stange.

T CSM
Fábio Andrade Contabilidade - Contador em Santa Maria DF
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