Disputa por terras ameaça terreiro e mãe de santo no Córrego do Bálsamo, no Itapoã

Entre o Paranoá, o Lago Norte e o Itapoã, um pedaço de terra sacra está em disputa. O terreiro de mãe Josaina, instalado na área rural há mais de mais de dez anos – e em ampliação há dois -, convive com ameaças veladas ou abertas e grilagem de terrenos. Mãe Josania, como ficou conhecida Josania Silva, abriu seu terreiro em 2016, em um pequeno terreno do Itapoã, após ser chamada para “uma missão espiritual”. Montou o Centro de Cultura África – Casa de Oxum Opará no Itapoã, onde, há dez anos, passou a cuidar dos arredores tanto no âmbito religioso, quanto no material. 

“Aqui eu ajudo a comunidade com verdura, com com o que eu posso, com remédio, uma passagem de ônibus, para um trabalho, para o que for preciso”, conta. Josania é a dona de um terreno poucos quilômetros à frente da primeira sede do terreiro, no Setor de Chácaras Córrego do Bálsamo. É lá, numa chácara de pouco mais de dois hectares, que hoje são realizadas as celebrações religiosas, e também onde seus filhos de santo encontraram moradia. Atualmente, três famílias vivem no terreno, onde também se dedicam à colheita e produção de alimentos e à própria manutenção do terreiro. 

Josania mostra barraco construído em cima da estrada que liga seus lotes, no Córrego do Bálsamo. Foto: Olavo David/Jornal de Brasília

Os três lotes, comprados separadamente, estão registrados em cartório. Eles foram adquiridos através de uma divisão da área anterior, que pertencia a uma família da região. Com o antigo dono não havia rusgas, mas o atual proprietário tem gerado brigas – e medo. Como os terrenos de Josania não são em linha reta, há certa confusão nas entradas de cada lote. Os dois primeiros adquiridos se fecham em um “L”, enquanto o terceiro está postado como que por trás do outro. Há uma pequena estrada de ligação, toda feita no limite do imóvel, mas aí reside o principal problema. 

Josania posa junto a objeto religioso no terreno onde, hoje, funciona a Casa de Cultura África. Foto: Olavo David/Jornal de Brasília

Um dos vizinhos, que comprou o lote ao irmão do dono original, construiu uma casa justamente no caminho que leva ao terceiro lote. “Esse rapaz chegou aqui com mais dois caras. ‘Eu vim falar para a senhora que eu estou fechando a rua, que eu fiz um lote e vendi”, conta Josania, que relata ter dito para o homem construir o que quisesse, desde que deixasse a estrada que dá acesso ao terreno do terreiro. A partir disso, que ocorreu no início de abril, as conversas ficaram mais tensas. 

O racismo religioso aparece nos relatos de Josania a partir do momento em que até os rituais entraram na mira dos vizinhos. “Ele falou que eu atrapalho a vida dele porque jogo meus feijões, boto minha pólvora. Eu não posso fazer nada no meu terreno que ele diz que eu estou invadindo”, relata. “Um deles veio bater na minha porta, conversou com o filho de Santo meu e falou ‘Se ela entrar de novo dentro da nossa área, nós vamos meter bala nela’”, conta. O filho de santo confirmou a ameaça à reportagem. 

O homem em questão, “Rafinha”, é figura conhecida na região: em contato com moradores da área, muitos demonstram medo ao falar dele. Uma caminhonete antiga, já prejudicada pelo passar do tempo e pelas estradas irregulares da região, amanheceu queimada pouco tempo depois da primeira contenda entre os vizinhos. Ela era usada no transporte dos alimentos que eram doados ou usados nas celebrações do terreiro, e Josaina garante que o grupo tem envolvimento no incêndio, que inutilizou o veículo.

Tornozelo revelador 

O temor da vizinhança tem lastro: Rafael da Silva Celestino chegou à porta de Josania usando tornozeleira. O JBr. pesquisou e teve acesso a processos aos quais o homem responde ou já respondeu. Uma das condenações com trânsito em julgado – ou seja, sem possibilidade de recurso – o sentenciou a quatro anos no regime semiaberto por associação para o tráfico e porte ilegal de arma com numeração raspada, o que explica o objeto de monitoramento acoplado à perna. 

Ele estava acompanhado por Gabriel Lopes Cantanhede. Ambos possuem condenação judicial, ainda que nem todas transitadas em julgado. Gabriel foi condenado a três anos em regime aberto por porte de material bélico de uso restrito – preso em 2024, estava com arma que tinha até mira a laser. Ele chegou a dizer, quando autuado, que foi a arma utilizada para matar um homem naquele mesmo ano, em processo ao qual ainda responde e no qual alegou legítima defesa. 

Cícero Leandro Sobrinho entrou na história mais recentemente, apesar de ser o novo dono do lote – vendido a ele por Rafinha. No sábado (9), acompanhada de sua entourage, Josania o chamou de lado pois, conforme disse, pretendia dar uma solução amigável à contenda. Ao pedir que o barraco fosse removido e construído em local adequado, ouviu uma negativa do vizinho. Josania não recuou. “Se o senhor não tirar, eu mesmo tiro”, relata ter dito a Cícero, que, pelo relato, se exasperou. 

“O homem ficou doido, começou a falar um monte de coisa, que não ia tirar. O cara ao lado dele colocou a mão na cintura, mas a mulher [esposa do Cícero, ao que se supõe] o agarrou, mandou se acalmar”, relata. 

Filho de santo de Josania, o “MC Favelinha”, como pediu para ser identificado, realiza trabalhos cotidianos do terreiro. Foto: Olavo David/Jornal de Brasília

A Polícia Militar foi acionada, conforme o depoimento de Josania. Sem conseguir esperar pela chegada dos agentes, ela anunciou que iria embora. “A senhora não vai esperar a polícia?”, teria dito Cícero. Naquela região, conforme a PMDF informou ao JBr., o tempo de resposta ficou em 6,10 minutos, em 2023, e 6,14 minutos em 2024 – não há dados consolidados para 2025 e 2026. A mãe de santo indica que houve tentativas de agressão, e neste ponto Rafinha teria voltado à cena, aos berros, proferindo novas ameaças. Josania aponta que ele a teria seguido até a 6ª Delegacia de Polícia. 

Um dos filhos de santo que fazem sua segurança também foi ameaçado, conforme a fala da mulher. Ela registrou boletim de ocorrência por ameaça. 

“Nossa arma é espiritual”

A nova localização do terreiro divide espaço com outras fés. “Eu não tenho problema com ninguém aqui. Pelo menos metade dos moradores é evangélica e sempre nos respeitou, assim como nós respeitamos também”, comenta Josania. Um dos filhos de santo, que partia uma mandioca em pedaços com um facão, concorda. O Casa de Oxum Opará é bem frequentado. Ao todo, conta Josania, são mais de 100 colaboradores, entre fixos e sazonais, que mantêm o terreiro de pé. Ela tem 40 filhos de santo, pessoas consagradas a algum orixá, pelos quais intercede. 

Hoje, são alguns deles que tentam dar um mínimo de segurança à mãe de santo nas andanças. De cabeça, ela lembra oito nomes principais que agem como guarda-costas àquela que lhes acolheu religiosa e maternalmente. “Eu não ando mais sozinha. Andava antes, até o dia que eles me ameaçaram, e meus filhos de sangue, meu marido, meus filhos de santo disseram que eu só vou lá [no terreno] se eles estiverem comigo”, relata. Ainda assim, nenhum deles anda armado. “Nossa arma é espiritual”, ri-se ela. 

Manifestações

O Jornal de Brasília entrou em contato com os homens acusados de ameaça. Cícero afirmou em ligação que nunca chegou a ameaçar ninguém, e que, inclusive, estaria disposto a ceder o espaço da estrada, com compensação por parte de Rafael – que lhe vendeu o lote – em outro espaço do terreno. “Antes de comprar, em março, eu perguntei ao Rafael se tinha algum problema com o imóvel. Comprei, fiz o quartinho e ninguém falou nada; depois, [Josania] chegou com um monte de gente e disse que ia derrubar”, pontua o proprietário. 

Ele também afirma que “foi ela quem me ameaçou”, mas reconhece que não recebeu a escritura do lote. Contactado, Rafael foi questionado sobre a razão de, até o momento, não ter entregado a escritura ao comprador; sobre os processos, com trânsito em julgado ou não; aos relatos de que é um homem perigoso na região; e se há alguma chance de resolver a contenda de forma amigável. Por mensagem, ele alegou estar trabalhando e que “não participei de briga nenhuma”. Em outra mensagem, disse não ter ameaçado ninguém, e finalizou dizendo que “tem como sim conversar numa boa nada contra ninguém (sic)”. 

A reportagem também pediu manifestam à Aliança Brasileira de Proteção Ancestral (Abrapa), que atua juridicamente para auxiliar em casos de racismo e intolerância religiosa contra descendentes de povos originários – nos quais se encaixam descendentes de quilombolas e praticantes de religião de matriz africana. 

A Abrapa demonstrou “profunda preocupação diante das denúncias envolvendo ameaças, intimidações e possíveis violações de direitos enfrentadas pelo terreiro Centro de Cultura África – Casa de Oxum Opará”, além de classificar o caso como “uma situação que atinge diretamente um espaço de preservação cultural, religiosa, ancestral e comunitária, reconhecido por sua atuação social junto à população local, acolhendo famílias, promovendo assistência humanitária e mantendo viva a tradição dos povos de matriz africana.

T CSM
Fábio Andrade Contabilidade - Contador em Santa Maria DF

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