Da violência sofrida na infância à superação e luta pela proteção

“No meu caso, eu não tinha a quem pedir ajuda.” O relato é de Maura de Oliveira, de 57 anos, que, ainda criança no Rio de Janeiro, foi vítima de um crime que persiste na sociedade brasileira: violência sexual. No mês de combate à exploração e ao abuso sexual infantojuvenil, o Jornal de Brasília conta a história de Maura, que superou anos de violência e hoje é ativista pelos direitos das crianças e adolescentes, lutando para que nenhum deles passe pelo que ela enfrentou na infância.

Neste Maio Laranja, o Jornal de Brasília e o Ministério Público do Distrito Federal e Territórios (MPDFT) estão em parceria para conscientizar sobre a temática. No DF, mais da metade das violências sexuais ocorreu contra crianças e adolescentes – cerca de 53,1% dos casos.

“Nós temos, no Brasil, milhares de crianças que desaparecem por ano, e muitas dessas são vendidas a pedófilos. Na minha infância isso também aconteceu comigo. Aos 4 anos de idade, eu fui retirada da minha família e me tornei uma criança de rua até os 6 anos, quando uma família me levou para me explorar. Eu sofri a exploração do trabalho infantil e vivenciei todas as violências, incluindo a violência física e a violência sexual, além da violência psicológica”, relata.

A partir daquele momento, foram anos de violência praticada por diferentes pessoas. Começou com o homem mais idoso da casa, patriarca da família, que a violentou dos 6 aos 10 anos. Aos 10 anos, mudou-se para o Rio Grande do Sul com o casal que a levou das ruas, onde o segundo abusador, um oficial do Exército Brasileiro, passou a violentá-la. Ele era genro do idoso que costumava violentá-la.

Aos 13 anos, a família se mudou novamente, desta vez para o Acre. O estado era diferente, mas a rotina de exploração era a mesma. “Eu estava à mercê dessa família. Ali eu vivenciava o terror da escravidão, o terror do trabalho infantil, tendo que limpar toda a casa, cozinhar, lavar, passar e sendo espancada diariamente. Então eu tinha vários medos, além do medo do abuso sexual infantil”, relatou. Maura também relembrou que se via completamente sozinha diante de toda a violência que enfrentava. “Ela [a criança explorada] não tem força; o cérebro dela não tem desenvolvimento suficiente para que ela entenda o que está acontecendo. Na maioria das vezes, ela não pede ajuda, fica calada, assim como eu fiquei. No meu caso, eu não tinha a quem pedir ajuda”, disse.

O plano para fugir da exploração

Aos 13 anos, ao ir para o Acre, a carioca começou a traçar um plano para escapar de seus abusadores. “Eu já não era mais alguém que não sabia o que estava acontecendo comigo; eu já sabia muito. Ali por volta dos 11 para os 12 anos, eu já lia todos os livros da dona da casa. Então, através da leitura, eu entendi o que era a pedofilia e que eu não era a única vítima.”

Havia muitos livros na casa em que estava – a família era considerada culta para além dos limites da residência. No interior, porém, ela conhecia a realidade. Foi por conta da leitura que Maura viu uma maneira de escapar dos agressores. “Como eu lia os livros de Direito também, entendi que a Justiça poderia me ouvir se eu tivesse 16 anos. Então eu teria que suportar tudo aquilo até completar os 16 anos. Eu sabia que precisaria de dinheiro para sair daquela casa. Então, o meu plano durou 3 anos – eu fazia de tudo para guardar dinheiro”, explica.

“Eu era levada para estudar por um motorista do Exército – não para que isso fosse um conforto para mim, mas para que a família tivesse controle sobre mim dessa forma. Então esse motorista me levava e me buscava. Quando a aula acabava, eu tinha que voltar rapidamente porque o carro já estava lá me esperando. Quando eu completei 16 anos, paguei ao motorista para não me levar ao Instituto de Educação, e sim ao fórum”, conta Maura.

Ao chegar lá, foi até a recepção e pediu para se encontrar com o presidente da Ordem dos Advogados do Brasil (OAB). Por acaso, a autoridade estava passando pelo local no exato momento em que solicitava a reunião. “Ele olha para mim e diz assim: ‘O que é que você quer comigo, menina? Cadê seu pai? Cadê sua mãe? O que está acontecendo?’ Eu pego o saco de dinheiro guardado, juntado em 3 anos, entrego a ele e digo: ‘Eu quero te contratar para o senhor me tirar da casa onde eu moro’. É ali que eu conto sobre a violência emocional e sobre a violência física que me tirava sangue do corpo.”

Após esse acontecimento, segundo Maura, foi convocada uma audiência, na qual o casal foi confrontado pelo juiz, na presença de um advogado e da própria vítima. “Durante esse momento, o próprio pedófilo fez uma confissão; não direta, mas o suficiente para que entendessem que havia, sim, o abuso sexual infantil”, descreve.

Maura de Oliveira dá palestras em todo o Brasil contando sua história e ensinando sobre a proteção individual de crianças e adolescentes no Brasil | Foto: Arquivo Pessoal

História que inspira

A trajetória de luta de Maura inspirou a Lei Estadual nº 9.234/21, do Rio de Janeiro, de combate à exploração sexual de crianças e adolescentes, batizada de Lei Maura de Oliveira. A legislação foi um dos muitos exemplos de que a luta da ativista pelos direitos das crianças e dos adolescentes se tornou sinônimo de combate e inspiração. Mesmo após um trauma – que durou quase a totalidade de sua infância e adolescência –, Maura transformou o sofrimento em motivação para lutar contra a exploração e o abuso sexual infantojuvenil.

Inspirada pelas palavras de Jô Soares sobre a importância da leitura – em um dos raros momentos em que conseguia assistir televisão quando criança –, Maura decidiu logo cedo que escreveria um livro com sua história. Em 1994, aos 24 anos, escreveu o primeiro livro: “Menina de Ontem”. O lançamento, no entanto, só ocorreu em 2007, aos 37 anos. Segundo a autora, “porque já tinha o meu primeiro filho e tinha receio de como a sociedade iria entender”. “Ninguém falava de pedofilia”, explica.

Sua história também demorou a ser aceita para publicação. “Só eu acreditava; nenhuma editora acreditou; ninguém acreditou. Eu pedi a todo mundo para publicar o meu livro e recebi vários nãos. Mas eu fiz; eu acreditava. Eu fiz uma produção independente do meu livro e, quando ele ficou pronto, fui levar às livrarias. A primeira livraria que eu levei foi na do Aeroporto Santos Dumont, que ficou com apenas um exemplar e apenas esse um exemplar.”

Maura teve a oportunidade de lançar seu primeiro livro, “Menina de ontem”, no Programa do Jô, em 2007 | Foto: Arquivo Pessoal

O exemplar em questão foi comprado por um homem chamado João Soares, o mesmo Jô que a inspirou na infância. “Foi incrível. Eu tinha a certeza de que o meu livro seria lançado no programa dele, só não sabia como. O Jô comprou esse único livro na livraria, leu e quando chegou em São Paulo, ele me telefonou. Ele disse: ‘Maura, você já lançou o seu livro?’ Eu falei: ‘Não’. Ele falou: ‘Você me daria a honra de lançar o seu livro no meu programa?’ No dia seguinte, eu já estava lá e estávamos lançando o livro”, conta Maura.

Projeto Anjos na Estrada

Depois disso, a autora lançou diversos outros livros e tomou a frente de ações pela proteção da infância. Uma delas é o projeto “Anjos na Estrada”, feito juntamente com a Polícia Rodoviária Federal (PRF), que, por meio de cursos e palestras, leva conscientização sobre o combate ao abuso e à exploração de crianças e adolescentes.

A iniciativa, em parceria com a PRF e o Instituto Anjos Maura de Oliveira, promove a integração entre instituições por meio de cursos, palestras, conhecimentos e o compartilhamento de informações sobre o combate ao abuso e à exploração de crianças e adolescentes. A luta da ativista rendeu até uma menção honrosa da ex-primeira-dama dos Estados Unidos, Michelle Obama.

Projeto Anjos na Estrada em parceria com a PRF já percorreu milhares de quilômetros em todo o Brasil, alcançando milhares de crianças e adolescentes do país | Foto: Arquivo Pessoal

O Anjos na Estrada tem hoje como principais parceiros, além da PRF, o Instituto dos Magistrados do Brasil (IMB), a concessionária Ecoponte e o Tribunal de Justiça do Estado do Rio de Janeiro (TJRJ). O projeto também contribuiu para a condecoração da PRF com o Prêmio Nacional de Direitos Humanos e para o reconhecimento da Organização das Nações Unidas (ONU).

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