São Paulo, 21 – A análise da ostentação de bens e viagens de luxo de Deolane Bezerra dos Santos e de seu filho adotivo nas redes sociais da família virou prova importante da lavagem de dinheiro do crime organizado. É o que mostra o relatório da Polícia Civil no âmbito da Operação Vérnix. Só ontem, os policiais apreenderam quatro veículos na mansão da influenciadora. Os modelos pertencem ao segmento premium e de alto luxo, e a frota total de carros que ela possui está avaliada em mais de R$ 5 milhões.
A lista incluiu um Jeep Commander e uma Range Rover Sport. Só que um Cadillac Escalade também habitava a garagem da advogada. Símbolo de ostentação, o SUV de grande porte não é vendido oficialmente no Brasil e sua aquisição exige importação independente. Como não há um preço oficial de tabela no País, o Escalade importado costuma ser comercializado por cerca de R$ 2 milhões em revendedoras especializadas.
O Mercedes-AMG G 63 é o veículo mais emblemático da lista. O modelo da marca alemã é oferecido oficialmente no Brasil, mas por uma bagatela que supera os R$ 2 milhões. Deolane passou por audiência de custódia na tarde de ontem, e o decreto de prisão foi confirmado. “Creio que tão cedo ela não vai sair da prisão!”, considera o promotor de Justiça Lincoln Gakiya, conhecido como o ‘caçador do PCC’. Além disso, a Justiça determinou o bloqueio bancário de R$ 27 milhões da acusada.
Um capítulo inteiro escrito pelos delegados Edmar Rogério Dias Caparroz e Ramos Euclides Guarnieri Pedrão, da Delegacia Seccional de Presidente Venceslau, foi dedicado ao conteúdo extraído das redes sociais de Deolane, que também é advogada e já defendeu uma liderança do PCC.
Segundo a polícia, o conjunto de imagens e informações lançadas nas redes da influenciadora, que tem 20 milhões de seguidores, ‘revela um padrão reiterado de ostentação de bens de alto valor econômico, incompatível, em tese, com a capacidade financeira formalmente declarada, o que se mostra relevante sob a ótica da persecução penal voltada aos crimes de lavagem de capitais e ocultação de patrimônio’.
PERFIL
A ostentação, exemplificada pelos carrões, foi o que se tornou um dos principais atrativos de Deolane nas redes sociais. Natural de Vitória de Santo Antão (PE), Deolane Bezerra se formou em Direito e já atuou como advogada criminalista no escritório Bezerra Advogados & Associados, ao lado das irmãs Dayanne e Daniele.
Ela ganhou projeção nacional em 2021, após a morte do funkeiro MC Kevin, com quem era casada. Depois disso, consolidou presença nas redes sociais, acumulando milhões de seguidores. Sua ascensão foi impulsionada por um estilo de vida luxuoso, forte apelo nas redes sociais como advogada criminalista, participação no reality A Fazenda em 2022, polêmicas constantes e episódios midiáticos, incluindo suas prisões, além de participações em programas de televisão e campanhas publicitárias.
A influenciadora de 38 anos, apontada por seus seguidores nas redes como “uma mulher forte e de opinião” e que “não teme mostrar o dinheiro que ganha”, já havia sido alvo de outra investigação policial em 2024, quando foi presa durante uma operação da Polícia Civil de Pernambuco que investigou suspeitas de lavagem de dinheiro e exploração de jogos ilegais ligados a plataformas de apostas.
Na mesma época, o nome da advogada também apareceu na CPI das Bets, criada para investigar possíveis irregularidades envolvendo empresas de apostas esportivas. Já em abril de 2026, a influenciadora foi apontada como uma das operadoras de um esquema de ocultação e branqueamento de ativos a serviço do crime organizado sob liderança de MC Ryan SP, preso pela Polícia Federal na Operação Narco Fluxo.
PRISÃO
Para os investigadores, Deolane usava a ostentação como estratégia de legitimação social dos valores empregados para conferir aparência de que tudo aquilo era lícito. Sua ostentação, por fim, aparece em sua justificativa de prisão. “A ostentação pública e reiterada de padrão de vida elevado, documentada em redes sociais ao longo de anos, é frontalmente incompatível com as informações fiscais conhecidas e contribui para a conclusão investigativa de que seu patrimônio é, ao menos em parte, produto ou proveito da lavagem de capitais praticada em benefício da organização”, diz o juiz Deyvison Heberth dos Reis, da 3.ª Vara de Presidente Venceslau.