A estratégia por trás do título de Guto Miguel no Roland Garros

Dos treinos à beira do Lago Paranoá ao topo do tênis juvenil mundial. Guto Miguel, de 17 anos, natural de Goianésia (GO) e radicado em Brasília desde os 13, conquistou o título de Roland Garros juvenil, em Paris, e se tornou o primeiro brasileiro a erguer o troféu do Grand Slam na categoria.

A conquista no saibro francês, um dos palcos mais tradicionais do tênis, projeta o brasileiro como a nova sensação do esporte nacional. Com a campanha, Guto também alcançou o posto de número um do mundo no ranking até 18 anos.

Na trajetória até o título, o tenista venceu o compatriota Leonardo Storck por 2 sets a 1 na semifinal. Na final, confirmou o favoritismo ao bater o norte-americano Michael Antonius por 2 sets a 0, com parciais de 6/3 e 6/4.

Por trás do feito em Paris, há uma rotina de preparação construída longe dos grandes centros tradicionais do tênis. Guto treina há quase quatro anos na Dumont Tennis, escola sediada no Iate Clube de Brasília, onde é acompanhado de perto pelo fundador da academia, Santos Dumont, de 57 anos, especialista na formação de atletas infanto-juvenis.

A preparação de Guto em Brasília moldou um estilo de jogo marcado pela agressividade e pela busca constante por iniciativa dentro de quadra, qualidade que, segundo o treinador, define o perfil do jovem.

“O Guto tem o perfil da nossa escola, que sempre foi muito agressiva. Desde jovem, quando eu jogava, sempre pensei em um jogo mais para frente, que hoje é, mais do que nunca, o tênis moderno, sempre indo para cima. Esse estilo encaixou direitinho com a nossa mentalidade e também na parte técnica. Os golpes dele, além da explosão que ele já carrega, são muito potentes. Ele tem muita força física, o que facilita para fazer a bola andar de um jeito diferenciado dos outros”, conta Santos Dumont.

Fotos Guto e treinador: Arquivo Pessoal / Santos Dumont

As características do jogo também dialogam com as condições de Brasília. A cerca de 1.172 metros de altitude do mar, a cidade impõe desafios que, de acordo com o professor, contribuem diretamente para a evolução técnica dos atletas.

“Acho Brasília um cenário perfeito para o esporte. O tênis aqui tem uma peculiaridade, por causa da altitude, a bola voa mais, e isso obriga o atleta a desenvolver um controle maior. Muita gente não sabe, mas aqui temos uma estrutura completa, com quadras rápidas, de saibro, de grama, cobertas e descobertas. Tudo muito perto. Imagina em São Paulo, onde você leva uma hora para andar 10 quilômetros. Aqui a logística é rápida e o acesso é fácil. A cidade sempre foi um celeiro de talentos e pode crescer ainda mais”, destaca.

Apesar dos avanços recentes e da revelação de talentos como Guto Miguel, o desenvolvimento do tênis em Brasília ainda esbarra em um desafio estrutural apontado por Santos Dumont: transformar a forte cultura recreativa em um ambiente mais voltado ao alto rendimento. A capital reúne diversidade de quadras e formação de base, mas ainda enfrenta dificuldades para competir com os principais centros do país.

“Brasília sempre foi um celeiro de bons jogadores, mas o nosso problema é competir com mercados como o do Sudeste, onde o volume de centros de treinamento é muito maior. Aqui na capital há muita gente jogando, mas a cultura ainda é muito voltada para o tênis social. O circuito competitivo precisaria estar mais forte. Há uma evolução, mas ela ainda é lenta em termos de torneios. Mesmo assim, a nossa base é muito rica, com meninos e meninas se destacando desde os 12 até os 18 anos. Não temos quantidade, mas temos muita qualidade”, explica.

Em um cenário em que jovens promessas costumam deixar suas bases em busca de centros mais consolidados, o caminho escolhido por Guto Miguel segue na direção oposta. Mesmo após o título e a projeção internacional, a equipe aposta na permanência em Brasília como forma de preservar o ambiente de desenvolvimento e garantir a evolução de forma gradual.

“Brasília é um lugar diferenciado. As pessoas deveriam olhar mais para este ambiente, que é acolhedor, tranquilo e tem diversas nuances que ajudam os jogadores a se formarem aqui. O Guto acreditou nesse processo, os pais dele acreditaram e o trouxeram para cá. Eu escuto muito: ‘E agora, qual é o próximo passo do Guto?’ Acho que o próximo passo dele é continuar fazendo o que já vem fazendo. Não há o porquê de sair daqui”, diz Santos Dumont.

A rotina do tênis profissional exige ajustes constantes, e o planejamento inclui períodos de treino fora da capital para ampliar o nível de competitividade. Em momentos específicos, a equipe de Guto busca intercâmbio com nomes de destaque do tênis nacional, como João Fonseca, no Rio de Janeiro. O movimento faz parte de uma estratégia que combina a base em Brasília com treinos em ambientes mais exigentes.

Campeão celebra o título em Paris

Com a conquista em Roland Garros, Guto Miguel quebrou um tabu histórico no saibro francês, onde os finalistas brasileiros Edison Mandarino (1959), Thomaz Koch (1962 e 1963) e Luis Felipe Tavares (1967) haviam batido na trave.

Na história dos Grand Slams, Guto se junta ao seleto grupo de campeões juniores do país, ao lado de Tiago Fernandes (Australian Open 2010), Thiago Wild (US Open 2018) e João Fonseca (US Open 2023). O feito na França impulsiona também a carreira profissional do jovem de 17 anos, que iniciou a temporada de 2026 na 1586ª colocação da ATP e deu um salto até o 829º lugar do mundo.

“É um sentimento de alívio e também de muita gratidão por tudo o que Deus tem feito na minha vida. Existe muito trabalho duro por trás disso, de toda a minha equipe e de todos que me acompanham há bastante tempo. Estamos colhendo alguns frutos agora, mas sei que ainda é apenas o começo”, disse o tenista.

T CSM
Fábio Andrade Contabilidade - Contador em Santa Maria DF
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