Paixão e beijo: ciência e cultura ditam as demonstrações de amor

Por Rafael de Paula e Maria Eduarda Barreto
Agência de Notícias do CEUB

Quando o ser humano se relaciona com um interesse romântico, o corpo passa por transformações que muitos não compreendem e que geram dúvidas.

O que é a paixão biologicamente? Por que o beijo existe nos humanos? A psicologia, a antropologia e outros campos do conhecimento ajudam a responder.

A psicóloga Fernanda Sampaio, neuropsicóloga e terapeuta sexual, explica que o sentimento da paixão envolve diferentes processos químicos.

Dopamina

Na fase inicial do apaixonamento, a idealização e a projeção de fantasias com a pessoa de interesse liberam dopamina, responsável pelo sistema de recompensa, e serotonina, que regula o humor.

Dessa forma, o ato de fantasiar esses cenários gera sensação de prazer e euforia, ligadas a essa pessoa.

Outros hormônios, como a ocitocina e a vasopressina, se relacionam com o interesse romântico, pois lidam, respectivamente, com a construção de um vínculo afetivo e a manutenção de laços duradouros.

Já a adrenalina e a noradrenalina são as responsáveis pelas famosas “borboletas no estômago”, aumentando a excitação e o nervosismo, enquanto a testosterona aumenta o desejo sexual.

Lentes da atração

“A forma como os homens e as mulheres se apaixonam não é igual, por causa de diferenças hormonais”, disse a psicóloga.

Essa disparidade causa uma discrepância em como cada gênero associa a paixão.

“O homem, por ter muito mais testosterona, vai ter o apaixonamento muitas vezes mais vinculado ao desejo sexual do que a mulher”, completou.
O apaixonamento das mulheres, em contrapartida, se relaciona com a maior quantidade de estrogênio em seus corpos.

“O estrogênio afeta diretamente a serotonina e a dopamina, e assim a fase mais emocional do apaixonamento costuma se sobrepor”, explicou a terapeuta.

A neuropsicóloga afirma que é mais comum a paixão do homem ser despertada por algo visual, e nas mulheres, por algo emocional e sensorial.

Apesar das diferenças mais marcantes, Fernanda Sampaio menciona que, em geral, diversos estudos apontam que, na maioria dos casos, os mesmos neurotransmissores e hormônios atuam no apaixonamento de ambos os gêneros.

Atração como instinto

A psicóloga expõe que a atração foge do consciente humano e envolve instintos, históricos e uma busca involuntária pela sobrevivência.

Estudos científicos apontam que os humanos se atraem com base em feromônios — o “cheiro” de cada pessoa —, pois indicam compatibilidade química.

“Esse negócio de ‘ah, rolou química ou não rolou química’ não é à toa.

A sabedoria do nosso corpo sabe distinguir o que pode funcionar e rejeitar cheiros que entende serem geneticamente incompatíveis”, explicou a terapeuta sexual.

Saúde mental no amor

Um problema muito enfrentado pela sociedade ao procurar romance é a saúde mental.

Isso não é mera coincidência, pois estresse, ansiedade, depressão e outros transtornos afetam os hormônios produzidos pelo corpo.

A depressão, por exemplo, diminui a produção de ocitocina e serotonina, dificultando o apaixonamento.

De acordo com a psicóloga, transtornos e traumas podem afetar áreas do cérebro que influenciam todos esses sentimentos.

“Um grande perigo que pode acontecer é a busca da paixão como fuga da depressão.

Quando você está deprimido e recebe doses de serotonina ou dopamina pensando em alguém, acaba se apegando muito a isso.”

A cultura do beijo

Desenho rupestre no Parque Nacional Serra da Capivara, no Piauí — Foto: Reprodução

Por que o ser humano beija? A resposta é que não necessariamente ele o faz.

O antropólogo Lourenço Cardoso esclarece que o beijo sofre intensa variação cultural, sendo até ausente em algumas sociedades.

“As culturas são múltiplas e não são estáticas. Um beijo no Brasil não é o mesmo que um beijo no Japão, nem significa a mesma coisa que significava há 10 mil anos”, disse o antropólogo.

“O registro possivelmente mais antigo do mundo de um beijo é uma pintura rupestre na Serra da Capivara. A gente diz isso com o nosso olhar do presente e com o que entendemos como presente, mas essa ação representada, na época, podia ter um significado infinitamente diferente”, ressaltou.

O desejo do beijo

A vontade que um ser humano tem de beijar também não é universal.

Fernanda Sampaio explica que essa necessidade deriva de diversos fatores psicológicos que variam de pessoa para pessoa.

“Quando estamos nos desenvolvendo, passamos por uma fase chamada ‘fase oral’, em que conhecemos e entendemos o mundo pela boca. Esse período, que inclui fatores como o tempo de amamentação e a introdução alimentar, influencia diretamente em como uma pessoa vai enxergar o beijo depois”, disse.

“Se alguém desenvolve bem a fase oral, vai associar coisas voltadas à boca ao prazer. É provável que sinta vontade de beijar, porque fez essa relação direta no cérebro”, alegou.

Além disso, o contato lábio a lábio permite a troca de saliva e odores únicos, sendo uma forma particular e mais íntima de conhecer outra pessoa, remetendo à fase oral.

“Beijo do Hotel” Foto de Ville de Robert Doisneau (1950)

Não só isso: por ser um forte objeto simbólico, o beijo influencia quimicamente a forma como o corpo humano vai reagir a ele.

A terapeuta sexual expôs que uma pessoa que idealiza o beijo, porque culturalmente isso é o normal, dá importância a ele em sua mente.

Dessa forma, quando o ato de beijar acontece, o sistema de recompensa é ativado e ocorre a liberação de dopamina.

Assim, o beijo transmite sensação de prazer, fazendo com que a pessoa sinta vontade de beijar de novo, repetindo o ciclo.

A evolução do beijo

Um artigo publicado na National Library of Medicine (NLM) conta a evolução do beijo em diversas culturas ao longo da história e aborda o que seria sua possível origem evolutiva.

O estudo afirma que os primatas dos quais os seres humanos descendem tinham o hábito chamado de “social grooming”, que consiste na limpeza mútua entre dois indivíduos, retirando parasitas e sujeiras.

Esse ato era feito com as mãos e com os lábios, e não era usado somente para a limpeza, mas também como forma de criação de vínculos sociais.

A hipótese do artigo sugere que a etapa final desse processo seria o contato lábio a lábio, que envolvia a sucção.

Ao longo dos anos, o ato de “grooming” foi se tornando menos comum e necessário, e a teoria diz que sobrou somente essa etapa final, que evoluiu até o beijo como se conhece hoje.

“A sobrevivência é a primeira lei dos mamíferos; qualquer coisa no cérebro que remeta a isso tem poder. Mesmo que de forma inconsciente, tudo o que estiver em uma memória coletiva instintiva vai afetar a nossa cabeça e as nossas vontades”, concluiu a psicóloga.

Supervisão de Luiz Claudio Ferreira

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Fábio Andrade Contabilidade - Contador em Santa Maria DF

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