ISABELLA MENON
FOLHAPRESS
Os Estados Unidos veem no acordo para controlar parte das reservas de petróleo da Venezuela uma forma de garantir uma fonte estável de energia no próprio hemisfério e, ao mesmo tempo, reduzir a influência de China e Rússia sobre uma das maiores reservas do produto no mundo, afirmaram altas autoridades americanas em conversa com jornalistas nesta terça-feira (1º).
A Casa Branca considera que ter acesso de longo prazo ao petróleo venezuelano ganha importância diante de conflitos e instabilidades em outras regiões do mundo.
Na avaliação de Washington, esse objetivo de segurança energética está diretamente ligado à disputa geopolítica: interessa aos EUA que um grande fornecedor situado em seu próprio hemisfério esteja alinhado ao país, não a seus adversários.
Uma autoridade descreveu o entendimento como uma oportunidade geopolítica de aproximar esses ativos dos Estados Unidos e vinculou a iniciativa à estratégia americana de buscar um hemisfério “próspero, seguro e alinhado” aos interesses de Washington.
O acordo sobre o petróleo venezuelano foi anunciado por Trump na sexta-feira (28). Segundo o republicano, os EUA terão controle sobre mais 65 bilhões de barris em reservas comprovadas, em parceria com a iniciativa privada e sem custos para os contribuintes americanos.
Pelos termos apresentados pelo governo, os Estados Unidos terão uma participação de 35% na expansão da operação. Washington também terá acesso a 20% da produção a preço de custo e preferência para comprar os 80% restantes.
Uma autoridade descreveu esse último mecanismo como uma espécie de “seguro de longo prazo” para os Estados Unidos.
Em uma eventual crise energética, Washington teria uma fonte de petróleo à qual poderia recorrer. Já a parcela obtida a preço de custo poderia, no futuro, ser destinada à reserva estratégica americana ou usada para gerar receitas, a depender das decisões do governo.
A disputa por esses recursos também se insere na tentativa do governo Trump de reduzir a presença de adversários dos EUA na Venezuela. Segundo autoridades americanas, os blocos envolvidos no acordo foram concedidos em grande medida a empresas chinesas e russas.
A Assembleia Nacional da Venezuela aprovou nesta terça-feira (1°) o acordo, na véspera da visita do secretário de Energia dos EUA, Chris Wright, a Caracas, marcada para esta quarta-feira (2).
Dominada pelo partido governista, a Assembleia concordou com o texto que dará aos norte-americanos o acesso a um quinto das reservas de petróleo da Venezuela sob coordenação da Nabep (North American Blue Energy Partners), empresa privada comandada por um controverso venezuelano.
A empresa terá o direito de conceder licenças ou criar joint ventures para 17 campos de petróleo pelo prazo de 100 anos. O governo norte-americano ainda se comprometeu a adquirir 35% de participação na Nabep.
O governo Trump também vê a recuperação do setor petrolífero como parte de uma estratégia mais ampla para estabilizar a Venezuela durante a transição democrática.
A avaliação é que a retomada da principal fonte de receitas do país deve avançar paralelamente à reconstrução das instituições políticas, para que um futuro governo eleito não herde uma economia em colapso.
Washington trabalha com uma estratégia dividida em três frentes -estabilização, recuperação e transição- e sustenta que as duas últimas precisam avançar simultaneamente.
O petróleo ocupa papel central nessa estratégia por ser, na avaliação americana, a maior oportunidade de curto prazo para a Venezuela voltar a gerar receitas em escala.
O governo Trump acusa as administrações chavistas de terem transformado a indústria em instrumento de corrupção, sem reinvestir adequadamente os lucros para preservar ou ampliar a capacidade de produção.
O preço do petróleo teve uma forte alta na tarde desta terça após a divulgação de novos ataques dos EUA ao Irã e bombardeios a embarcações que tentavam passar pelo estreito de Hormuz.
O barril Brent, referência mundial, chegou a subir 7,69% por volta das 16h (horário de Brasília), a US$ 95,17 (R$ 494,53). É o maior valor desde 23 de julho, quando a cotação alcançou US$ 95,30.
Com o acerto, Washington espera que o respaldo do governo americano ajude a atrair investimentos privados e ampliar a produção.
O aumento da atividade geraria royalties e impostos que, inicialmente, beneficiariam o atual governo interino, mas que, segundo as autoridades, seriam posteriormente herdados por um governo democraticamente eleito.
A avaliação é que esperar pela realização de eleições para só então começar a reconstrução econômica poderia deixar um futuro governo eleito diante de uma crise capaz de comprometer sua própria estabilidade.
Segundo uma autoridade, o objetivo é que, quando um novo governo assumir, ele não herde “um país em queda livre”, mas uma Venezuela que, embora ainda enfrente problemas, tenha recuperado parte de sua capacidade econômica e de arrecadação.
O governo americano rejeita, por isso, a avaliação de que o acordo possa consolidar no poder o governo interino, liderado por Delcy Rodríguez, e reduzir a pressão pela realização de eleições.
Questionada diretamente sobre esse risco, uma autoridade afirmou que o acordo não impede a transição democrática. Esta mesma autoridade ressaltou que o recente acordo foi firmado com uma entidade privada, a Nabep, e não com o governo interino.
O calendário eleitoral, porém, permanece indefinido. Questionada se a Venezuela poderia levar um, dois, cinco anos ou até uma década para realizar eleições, uma autoridade afirmou que ninguém ficaria satisfeito com uma espera de cinco ou dez anos, mas se recusou a estabelecer uma data.
Segundo o governo americano, realizar uma votação, por si só, não seria suficiente para garantir uma democracia duradoura. Washington diz que pretende chegar a uma democracia capaz de realizar eleições livres e críveis repetidamente, e não apenas organizar uma primeira votação após a saída de Nicolás Maduro.
Uma nova rodada de negociações sobre a transição está prevista para meados deste mês. Segundo o governo americano, duas rodadas já foram realizadas, com participação de representantes da Assembleia Nacional eleita em 2015.
Ao defender essa estratégia, uma autoridade citou a Nicarágua como exemplo do risco de uma transição concentrada na realização de eleições sem instituições suficientemente sólidas para sustentar uma democracia no longo prazo. Também mencionou a Bolívia para argumentar que o presidente eleito, Rodrigo Paz, pode ter sua estabilidade ameaçada ao herdar uma economia em crise e instituições ainda marcadas pelo regime anterior.
A administração Trump argumenta ainda que o novo modelo deve substituir esse sistema por uma indústria petrolífera capaz de atrair investimento privado, gerar receitas para o Estado venezuelano e, simultaneamente, aproximar um dos maiores detentores de reservas de petróleo do mundo dos interesses estratégicos dos Estados Unidos.