As bebidas adulteradas com metanol, que vitimaram ao menos 11 pessoas no estado de São Paulo, custavam o mesmo preço de garrafas originais, disse à Folha de S.Paulo a delegada da Polícia Civil de São Paulo Isa Lea Abramavicus, que investiga cinco óbitos relacionados à intoxicação na capital paulista.
O comprovante de compra no Torres Bar, na Mooca, zona leste de São Paulo, onde duas pessoas consumiram bebidas intoxicadas e morreram, mostra que cada garrafa de vodca Smirnoff adulterada custou entre R$ 35 e R$ 39. A reportagem apurou com donos de bares e distribuidoras que o preço de uma garrafa original dessa marca é de R$ 35.
“Não era nem para baratear custos. Era só por comodidade”, disse Abramavicus, vinculada ao DPPC (Departamento de Polícia de Proteção à Cidadania), especializado em crimes contra a saúde pública.
O dono do bar, ouvido pela polícia, afirmou que comprou as bebidas de um intermediário informal. O estabelecimento foi interditado em uma operação conjunta da Polícia Civil com as vigilâncias sanitárias municipal e estadual no dia 30 de setembro de 2025.
“O proprietário reporta que não tinha conhecimento de que a bebida era falsificada. Quem lhe fornecia vodca era um intermediário apresentado por amigos. Mas ele deveria ter adquirido dos estabelecimentos regulares”, afirma Abramavicus.
O intermediário foi intimado à polícia e apontou Vanessa Maria da Silva como sua fornecedora. A investigação apurou que o ex-marido de Vanessa, Renan Felizardo Martins, já havia sido preso por falsificação e adulteração de bebidas, e que o pai dela, João Antônio da Silva, também atuava nesse ramo.
Além disso, Vanessa e a família eram de São Bernardo do Campo, no ABC paulista, onde foram registrados casos e vítimas de intoxicação por metanol. “Os indícios mostraram que a investigação estava no caminho certo”, disse a delegada.
Mandados de busca e apreensão foram cumpridos em outubro nos endereços de Vanessa. Em um deles, localizado em São Bernardo do Campo, a polícia encontrou uma fábrica “precária” de falsificação de bebidas.
No local, havia nove bombonas -um tipo de galão de armazenamento- contendo etanol. Segundo a perícia, duas delas também continham metanol, produto químico industrial altamente tóxico e impróprio para consumo humano. Havia ainda garrafas vazias de bebidas e prensa para lacrar as embalagens.
À época, Vanessa foi presa em flagrante. De acordo com a delegada, os casos e mortes de intoxicação por metanol na capital paulista, na região metropoliana e também em outros estados possivelmente partem do núcleo criminoso em torno de Vanessa. Além dela, o ex-companheiro, com quem tem um filho, o pai e o ex-cunhado, Gilmar Silva dos Santos, são investigados.
A polícia trabalha com a linha de investigação de que o grupo comprava álcool etílico de postos de gasolina para diluir e fabricar vodcas. Entretanto, o álcool já vinha “batizado” com metanol pelos próprios fornecededores dos postos, sem que Vanessa e seu grupo soubessem. Não havia intenção direta de matar, mas sim de lucrar com a falsificação. “É a fraude dos fraudadores”, disse a delegada.
O programa Fantástico, da TV Globo, mostrou neste domingo (25) que durante o julgamento –ocorrido em dezembro–, Vanessa negou vender bebida falsificada.
À Justiça, ela disse que o local onde funcionava a fábrica clandestina era uma garagem de uso comum dos moradores. Na ocasião, ela afirmou também que no espaço havia materiais usados para a fabricação de bebidas.
Vanessa foi condenada a sete anos de prisão em regime fechado, com base no artigo 272 do Código Penal Brasileiro, que diz que é crime adulterar, falsificar ou alterar substâncias alimentícias destinadas ao consumo. A pena varia de quatro a oito anos de prisão e multa.
Segundo a delegada, Vanessa, as pessoas de seu entorno, os intermediários e os donos dos estabelecimentos que adquiriram as bebidas adulteradas podem ser condenados por homicídio com dolo eventual, quando o agente não deseja diretamente a morte, mas assume o risco. A pena máxima pode chegar a 30 anos de prisão.
Segundo a reportagem do Fantástico, Gilmar Silva dos Santos, que foi casado com a irmã de Vanessa, negou o uso de metanol. Em depoimento, ele confessou que falsificava vodcas com bebidas mais baratas. O homem apontou Vanessa como manipuladora da mercadoria.
Ao Fantástico, o advogado de Vanessa, Felipe Gomes da Silva Brandão, questionou a forma como a polícia teve acesso aos dados de seu celular. “Requereram o celular dela de maneira ilícita, mandaram desbloquear com coação, com suposta agressão, e tudo o que veio dali, no meu ponto de vista, está contaminado”, relatou.
A reportagem não conseguiu localizar as defesas de Vanessa, do pai, do ex-marido e do ex-cunhado.
Em entrevista à Folha de S.Paulo, a delegada disse que as alegações não procedem. “Tínhamos a busca e apreensão autorizada e já havíamos solicitado a quebra de sigilo de qualquer equipamento telefônico ou eletrônico.”, afirmou Abramavicus.
O Fantástico também exibiu com exclusividade áudios extraídos do celular de Vanessa, revelando o funcionamento do esquema.
“Você quer uma foto do mais barato para ter uma base? Você pode ver que é assim quase imperceptível, tanto que a gente trabalha muito com ele”, diz um dos áudios de Vanessa.
Em outro áudio, uma revendedora relatou à Vanessa a reclamação de uma comerciante: “Ela falou: eu cheirei aqui. É puro álcool. Então, numa dessas, já pensou se dá um problema e a pessoa vai parar no hospital. A pessoa pensa que está tomando vodca e tá tomando álcool? Isso é grave!”.
Em outubro, a criminosa mandou mensagem para tranquilizar o dono de um bar. “Pode ficar tranquilo quanto às coisas que vocês têm aí. Não é da procedência que está passando, ok? Pode ficar tranquilo mesmo, não terá nenhum problema. Quanto ao acerto, mais para a frente a gente vê”.
Segundo a delegada, o inquérito policial conta ainda com mais de 5.000 áudios de Vanessa e mais de 20 mil transações financeiras ligadas a ela.
CASOS DE INTOXICAÇÃO POR METANOL EM SÃO PAULO
A Secretaria de Estado da Saúde de São Paulo disse, em nota, que foram 51 casos de intoxicação por metanol no estado, sendo 11 óbitos.
Entre as vítimas estão quatro homens de 26, 45, 48 e 54 anos residentes da cidade de São Paulo; uma mulher de 30 anos e um homem de 62 anos, de São Bernardo do Campo; dois homens de 23 e 25 anos e uma mulher de 27 anos de Osasco; um homem de 37 anos, de Jundiaí; e um homem de 26 anos, de Sorocaba.
Atualmente, quatro óbitos permanecem sob investigação, segundo a pasta: um paciente de 30 anos de Guariba, um de 31 anos de São José dos Campos, e dois de Cajamar, de 29 e 38 anos.
A pasta disse que acompanha e monitora continuamente os casos suspeitos e confirmados de intoxicação por metanol no estado, e recomenda que bares, empresas e demais estabelecimentos redobrem a atenção quanto à procedência dos produtos comercializados.
Os primeiros sintomas da intoxicação se assemelham aos de uma ressaca, dores abdominais intensas, tontura e confusão mental, o que pode dificultar sua identificação.