O Brasil importa 100% do pistache que consome — hábito que vem aumentando — enquanto trabalha na possibilidade para iniciar uma produção nacional, embora tímida. Pesquisadores e agricultores indicam a Serra da Ibiapaba, no Ceará, como área com potencial para cultivo. Uma pesquisa pretende testar a adaptação da cultura no ambiente serrano.
A Federação da Agricultura e Pecuária do Ceará (Faec) tem a ambição de tornar o estado pioneiro no cultivo. “Queremos fazer um campo experimental de pistache e tornar o estado o primeiro produtor nacional dessa cultura exótica”, afirma o presidente da Faec, Amilcar Silveira.
A oleaginosa tem origem milenar, em regiões montanhosas do Oriente Médio, como a antiga Pérsia, atual Irã. Registros do Velho Testamento da Bíblia, no livro do Gênesis, citam o fruto como um dos “melhores produtos da nossa terra”.
De acordo com a Empresa Brasileira de Pesquisa Agropecuária (Embrapa), o pistacheiro cresce em clima quente, mas depende de períodos contínuos de frio. A espécie integra a família Anacardiaceae, a mesma do cajueiro e da mangueira. O ciclo produtivo completo dura cerca de dez anos e a árvore pode produzir por até um século, sob manejo adequado.
Clima pode limitar o avanço da produção de pistache no Brasil
Segundo a Embrapa, a diferença climática impõe o principal desafio. Cajueiros e mangueiras suportam calor constante. O chefe-geral da Embrapa Agroindústria Tropical, Gustavo Saavedra, avalia o cenário com cautela. “Nessa serra, à noite, faz 15°C, mas o que o pistacheiro precisa é abaixo dos 10°C, semelhante à macieira”, explica ele.
A Embrapa prevê iniciar um cultivo experimental no Ceará em 2027. O chefe-geral da instituição estima que o desenvolvimento de variedades adaptadas à região deve levar entre dez e 15 anos de pesquisa.
O projeto esbarra em etapas decisivas. A equipe precisa obter material genético nos Estados Unidos, garantir a autorização de importação junto ao Ministério da Agricultura e viabilizar a liberação do material para entrada no país.
Importação de pistache cresce no Brasil
De acordo com a Organização das Nações Unidas para Alimentação e Agricultura (FAO), Estados Unidos e Irã lideram a produção global de pistache. Em 2024, os EUA produziram 498,9 mil toneladas, enquanto o Irã registrou 316,1 mil toneladas.
O Brasil ampliou as importações nos últimos anos. O país comprou mais de mil toneladas em 2024, ante 350 toneladas em 2022, segundo a plataforma Comex Stat, do Ministério do Desenvolvimento, Indústria, Comércio e Serviços. Naquele ano, os EUA responderam por 85% do volume adquirido.
Em 2025, as compras brasileiras chegaram a 1,3 mil toneladas, com alta de 15% em relação ao ano anterior. Os EUA mantiveram a liderança, com 865 toneladas e participação de 62%. O Irã alcançou 422 toneladas, o equivalente a 32%.
Neste ano, os dados iniciais apontam que, entre janeiro e fevereiro, o Brasil importou 107 toneladas. O Irã respondeu por 46% do total, enquanto os Estados Unidos ficaram com 54%.
Fiscalização monitora entrada do pistache no Brasil e destaca valor nutricional
O pistache passa por controle rigoroso antes de chegar às prateleiras brasileiras. A fiscalização ocorre por meio de coletas de amostras em pontos estratégicos de entrada no país.
“Essas amostras passam por análises laboratoriais para verificar a conformidade sanitária, especialmente quanto à presença de aflatoxinas, que representam risco à saúde humana”, explicou a auditora Ludmilla Verona do Sindicato Nacional dos Auditores Fiscais Federais Agropecuários (Anffa Sindical).
De acordo com o sindicato, o avanço do consumo do pistache no país indica mudança de hábitos e amplia a necessidade de monitoramento. “A fiscalização acompanha esse movimento para garantir que produtos de alto valor agregado atendam aos padrões de segurança”, afirma Janus Pablo Macedo, presidente da entidade.
O perfil nutricional do pistache sustenta o interesse do consumidor. “Uma porção de 30 gramas de pistache fornece mais de 6 gramas de proteínas e cerca de 2 gramas de fibras, com 180 calorias. Quase metade do peso corresponde a gorduras, cerca de 13,5 gramas, em sua maioria insaturadas, consideradas benéficas à saúde, como as presentes no azeite de oliva e no abacate”, afirma a nutricionista Danila Almeida.