Busca por autonomia: jovens enfrentam desafios para morar só no DF

Apesar do alto custo de vida em Brasília, morar sozinho é um desejo de muitos jovens. Dados da Pesquisa Distrital por Amostra de Domicílios Ampliada (PDAD-A) de 2024, realizada pelo Instituto de Pesquisa e Estatística do Distrito Federal (IPEDF Codeplan), aponta que cerca de 19,1% dos lares na capital são compostos por uma pessoa sozinha. A mostra revela ainda que 44,7% dos brasilienses são solteiros. Segundo especialistas, a estimativa é que uma pessoa que busca morar sozinho no DF desembolse entre R$1.500 e R$2.100 mil reais por mês apenas com o aluguel.

O aluguel é um dos principais gastos no orçamento das pessoas na capital. De acordo com o Sindicato da Habitação do Distrito Federal (Secovi-DF), o valor médio do aluguel subiu 8,13% nos últimos 12 meses (até outubro de 2025). Os dados Sindicato indicam as quatros regiões administrativas onde a moradia mais subiu no ano passado: Cruzeiro (21%), Asa Norte (19%), Lago Norte (19%), Sudoeste (18%) e o Noroeste (17%).

Daniel Claudino, especialista no mercado imobiliário, afirmou ao Jornal de Brasília que não existe uma média única para o DF e o custo pode variar drasticamente de acordo com cada região. Segundo o FipeZap (fevereiro de 2026) anúncios residenciais apresentam o valor do metro quadrado em cerca de R$50 reais.

“Na prática, isso significa que um imóvel compacto de 30 a 40 metros quadrados sai entre R$1.500 e R$2.100 só de aluguel. Somando condomínio, contas básicas de luz, água e internet, alimentação e transporte, a conta dificilmente fica abaixo de R$3.500 nas áreas centrais. É uma equação que a maioria das pessoas subestima quando decide sair de casa”, explicou.

A respeito do valor necessário para custear uma vida com o essencial no quadradinho, o especialista estima uma quantia de R$4.000 mil reais. “Dados do IPEDF em parceria com o DIEESE mostram que o rendimento médio mensal dos jovens ocupados no DF foi de R$ 2.483 em 2024. Quando um custo básico de vida solo no DF já começa acima de R$ 3.500, fica claro que morar sozinho não é um passo automático da vida adulta, para muita gente virou quase um privilégio econômico”, comentou.

Como morar sozinho no DF?

Claudino cita que os principais erros dos jovens que buscam sair de casa é calcular apenas o valor do aluguel e desconsideram despesas extras ligadas ao imovel, como condomínio, IPTU, contas, alimentação, transporte e uma reserva mínima para imprevistos. E orienta que as pessoas se perguntem: “consigo sustentar essa rotina por doze meses sem me endividar?”.

Uma sugestão que ele menciona é montar uma estratégia de guardar o valor total gasto com o imovel durante três meses. Ele alerta: caso a pessoa não consiga realizar a estratégia é necessário repensar os planos. Há ainda outros custos como caução, seguro-fiança ou título de capitalização caso o aluguel seja feito por meio de uma imobiliária. No entanto, o caução também aparece como um requisito recorrente nos aluguéis diretos com os proprietários.

Como base no cenário, o especialista aconselha a gerenciar os grandes gastos e não os pequenos. Ele alerta que um cafézinho não quebra uma pessoa, e sim contas acima do que a renda comporta. “Uma orientação é usar a cidade a favor: morar um pouco menor, mas mais perto do trabalho ou de um eixo de transporte público, costuma ser mais barato do que morar em área com aluguel baixo e pagar a diferença em deslocamento e tempo. E a outra é: quem mora sozinho precisa tratar a reserva de emergência como item de sobrevivência, não como luxo opcional. Sem ela, qualquer imprevisto transforma a autonomia em dívida”, esclareceu.

Dividir para viver

A jovem piauiense de 22 anos, Geneffy Alves, morava com a família no interior do Piauí e resolveu se mudar para Brasília com o objetivo de melhorar de vida. Ela contou ao Jornal de Brasília que duas irmãs mais velhas já viviam na cidade. Ao chegar no apartamento, as coisas ficaram complicadas por falta de espaço. Então, depois que começou a trabalhar, passou a morar com apenas uma das irmãs. Mas depois de alguns meses, essa irmã decidiu voltar para a cidade natal.

Com receio de não conseguir se manter sozinha e ter que voltar para a casa dos pais no interior, a jovem não teve escolha: começou a trabalhar em dois lugares, um durante o dia e o outro na parte da noite. Após meses de uma rotina exaustiva, Geneffy tomou uma decisão e chamou uma colega de trabalho para dividir um apartamento perto do serviço.

“Era muito cansativo, eu passava mais tempo no trabalho do que em casa. Então, eu conversei com uma das minhas colegas de trabalho e como ela estava na mesma situação que eu, decidimos morar juntas. E mesmo dividindo tudo eu gasto em torno de R$2.500 reais por mês. Se eu estivesse morando sozinha pagaria cerca de R$2.000 reais só com as contas do apartamento”, disse.

Ela relatou que já deixou de fazer outras atividades ligadas a lazer por falta de dinheiro, mas afirma que gosta de dividir a casa. Como suas irmãs voltaram para a cidade natal, se sentia muito sozinha. Então a alternativa financeira se tornou também um local de apoio e acolhimento. Geneffy cita que o principal desafio é apenas a questão da privacidade, mas não considera um empecilho grande.

O especialista Daniel Claudino explica que esse movimento deixou de ser uma escolha exclusiva dos estudantes, mas também adultos em busca de flexibilidade financeira. “Dividir despesas fixas com outra pessoa tornou-se uma estratégia racional de quem quer acesso a uma boa localização sem pagar sozinho o preço inteiro dela. O conceito de coliving (moradia compartilhada com áreas comuns gerenciadas) é uma versão mais estruturada desse mesmo movimento, que atrai hoje não apenas jovens universitários, mas também adultos na faixa dos 30 a 40 anos em busca de flexibilidade e redução de custos”, informou.

Primeiros passos rumo à autonomia

Seja por consequências da vida ou pelo desejo por autonomia, em algum momento da vida jovens e adultos começam a trilhar o caminho em busca da independência. É o caso do Thiago Rocha, o desenvolvedor de 32 anos. Ele morou com os pais durante toda a vida, mas recentemente sentiu a necessidade de ter o próprio espaço. Ele estima um valor mensal de R$5.600 reais para as despesas mensais, com R$2.600 com gastos com os imóveis e o restante para as contas fixas.

Thiago conta que antes de tomar a decisão fez uma boa reserva de emergência, mas gastos extras com o apartamento podem alterar os planos futuramente. Um dos maiores desafios foi a procura pelo imovel na região do Guará, onde já vive com os pais. Ele alega que muitos apartamentos possuem uma burocracia muito grande, como seguro incêndio, seguro fiança e título de capacitação. Além de agir rápido, já que muitas pessoas também estão em busca das melhores oportunidades.

Para ele, morar sozinho hoje em dia está mais difícil do que era antigamente. No entanto, afirma que dividir um apartamento com alguém tiraria o foco do que ele busca: a autonomia. “Os custos aumentaram bastante desde a pandemia, sem que houvesse um aumento real no salário (só aqueles para cobrir a inflação quando muito). Acho que todo mundo que já está se movendo para morar sozinho agora está tendo que fazer concessões, se afastando dos centros, etc”, comentou.

T CSM

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