Casal Clinton não presta depoimento, e Câmara dos EUA abre denúncia por desacato

Em meio às investigações sobre o caso Epstein, um comitê da Câmara dos Representantes dos Estados Unidos aprovou duas resoluções que recomendam que o plenário declare o ex-presidente Bill Clinton e a ex-secretária de Estado Hillary Clinton em desacato criminal ao Congresso. O crime pode levar a multas de até US$ 100 mil (R$ 532 mil) ou a um ano de prisão.

O casal foi convocado a prestar depoimento pelo Comitê de Supervisão, que investiga as conexões entre Jeffrey Epstein e figuras poderosas nos EUA, além de como as informações sobre seus crimes foram tratadas. Eles não compareceram às audiências a portas fechadas no Capitólio, em Washington, relacionadas ao caso de Epstein, criminoso sexual morto em 2019, que teve ampla presença em círculos de poder.

Na prática, os deputados deram, nesta quarta-feira (21), sinal verde para que o plenário decida se encaminha o caso ao Departamento de Justiça, que terá a palavra final sobre uma eventual acusação criminal.

O presidente do comitê, o republicano James Comer, afirmou que ambos desafiaram deliberadamente intimações legais e bipartidárias. “O comitê enviou uma mensagem clara: ninguém está acima da lei, e a Justiça deve ser aplicada de forma igual”, disse Comer em nota.

“Os Clinton eram legalmente obrigados a comparecer e, em vez disso, responderam às nossas negociações de boa-fé com desafio, atraso e obstrução. O comitê está tomando as medidas necessárias para preservar a autoridade investigativa do Congresso e agora pede que o plenário aja rapidamente para responsabilizá-los”, completou o deputado.

Após a ausência, os Clinton publicaram uma carta endereçada a Comer, afirmando já ter tentado fornecer as “poucas informações” que possuíam para auxiliar na investigação e acusando o republicano de tentar desviar o foco das falhas do governo de Donald Trump, amigo de Epstein por quase 15 anos antes de uma desavença que precedeu a primeira prisão do financista, em 2006.

“Cada pessoa precisa decidir quando está pronta (…) para lutar por este país, seus princípios e seu povo, não importando as consequências”, escreveram os Clinton. “Para nós, esse momento chegou.”

“Não há explicação plausível para o que o senhor [Comer] está fazendo além de política partidária”, completaram, acrescentando que esperam a denúncia por desacato. “O senhor intimou oito pessoas além de nós. Dispensou sete dessas oito sem que nenhuma delas dissesse uma única palavra. Não fez qualquer tentativa de obrigá-las a comparecer. Na verdade, desde que iniciou sua investigação no ano passado, o senhor entrevistou um total de apenas duas pessoas.”

Segundo o comitê, em julho de 2025, foi aprovado por unanimidade a intimação de dez pessoas, incluindo Bill e Hillary Clinton, para depor sobre os crimes de Jeffrey Epstein e Ghislaine Maxwell, ex-namorada do abusador. As intimações foram formalmente emitidas em 5 de agosto de 2025.

Os depoimentos de Bill e Hillary foram remarcados várias vezes, inicialmente em outubro e depois em dezembro de 2025, por diferentes justificativas. O comitê ofereceu novas datas em janeiro de 2026, mas nenhum dos dois compareceu às intimações finais.

O governo Trump está sob pressão depois que o Departamento de Justiça divulgou, em dezembro, uma pequena parte dos arquivos do caso Epstein, um mês após o prazo legal ter expirado. Figura da alta sociedade nova-iorquina, ele é acusado de ter explorado sexualmente mais de mil mulheres e meninas.

Bill Clinton aparece em imagens dos arquivos liberados no final do ano passado –uma das fotos mostra o ex-presidente reclinado em uma banheira de hidromassagem com uma pessoa cujo rosto foi ocultado. Em muitas das cenas em que o democrata aparece, ele é a única pessoa cuja identidade pode ser discernida, e os arquivos fornecem pouco ou nenhum contexto para as imagens.

Na ocasião, Clinton disse que a Casa Branca tentou tirar proveito político da publicação, e seu porta-voz, Angel Ureña, pediu que o Departamento de Justiça liberasse imediatamente quaisquer materiais restantes dos arquivos relacionados a Epstein que façam referência ao ex-presidente de qualquer forma, incluindo fotografias.

“O que o Departamento de Justiça divulgou até agora e a maneira como o fez deixam uma coisa clara: alguém ou algo está sendo protegido. Não sabemos quem, o quê ou por quê, mas sabemos disso:
não precisamos de tal proteção”, afirma o texto de Ureña. “Eles podem divulgar quantas fotos granuladas de mais de 20 anos atrás quiserem, mas isso não é sobre Bill Clinton. Nunca foi, nunca será”, escreveu. O democrata, assim como Trump, nunca foi formalmente acusado de ter cometido crimes com Epstein.

A morte de Epstein, encontrado morto em sua cela em Nova York em 2019 antes de seu julgamento por tráfico de menores para fins sexuais, alimentou inúmeras teorias da conspiração apoiadas por anos por aliados de Trump, segundo as quais ele teria sido assassinado para proteger personalidades da elite americana.

Durante sua campanha de 2024, Trump havia prometido à base republicana revelações contundentes sobre o abusador. Mas, desde seu retorno ao poder, o presidente está relutante em publicar os documentos.

Parte do material liberado inclui emails de um procurador federal em Manhattan sobre a quantidade de vezes que Trump teria viajado no avião de Epstein. A mensagem, escrita em janeiro de 2020, dizia que Trump estava listado como passageiro no jato de Epstein pelo menos oito vezes de 1993 a 1996, incluindo alguns casos em que também havia mulheres jovens dentro do avião.

T CSM

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