Comunidade da Penha, no RJ, decora para a Copa via onde 65 corpos foram enfileirados

O entorno da praça São Lucas, na Vila Cruzeiro, comunidade na Penha, zona norte do Rio, ganhou novas cores. Parte da Estrada José Rucas foi pintada com a bandeira do Brasil, a Igreja da Penha, o Cristo Redentor e outros desenhos para decorar a via que, em outubro de 2025, teve ao menos 65 corpos enfileirados após a Operação Contenção, a ação policial mais letal do país, com 122 mortos.

Foi do pintor, decorador e morador da comunidade Luan Medeiros da Costa Silva, 33, a ideia de decorar a rua e dar um novo significado para o local. Ele conta que um documentário sobre a vida dele estava sendo produzido, mas que, por morar em uma rua movimentada, não era possível parar a circulação por dois dias para realizar a pintura.

“Tive a opção de fazer em outro local. Parei para pensar e vi que poderia ser nessa rua [da Estrada José Rucas]. Falei com o Erivelton [presidente da associação de moradores] para a gente fazer essa rua. Comecei a movimentar com as empresas. Soltamos vídeos para convidar a comunidade para pintar e aconteceu”, conta.

Era uma área sensível, ele diz. “No momento em que começamos a fazer, pensamos que era uma camada mais profunda do que apenas ressignificar o ambiente. As crianças passando e dizendo que já não vão ter a memória da tragédia. Tem sido indescritível falar porque é uma coisa que transcende a nossa alegria. As pessoas passando e tirando foto, as crianças brincando”, disse.

Um dos artistas responsáveis pela criação dos desenhos é Hugo Carlos Silvério, 37. O muralista mora próximo à comunidade e diz que a ideia era construir uma imagem não estereotipada da favela.

“Trazer de principal a igreja da Penha, com o Cristo Redentor, para mostrar essa fé. Foi uma arte com muita gente emocionada. Quando eles entram naquela rua, têm outra visão. Não era apagar o que aconteceu, mas amenizar a dor das pessoas.”

Mesmo que o novo cenário represente a alegria para alguns moradores, para outros ainda é um desafio passar na rua. É o caso da confeiteira Tauã Brito, 36, que perdeu o filho de 20 anos durante a operação de outubro passado.

O corpo dele ficou perfilado no chão da rua. “Com todas as cores, ainda é um cenário de dor. Eu queria participar da pintura, mas eu não consigo ficar naquela rua. Na segunda-feira, passei para ver. Não consigo olhar e não ver o corpo do meu filho ali” diz, ressaltando que a iniciativa é “linda”.

Para ela, a nova decoração da rua é um ato de esperança por dias melhores na região. “A Penha não se resume ao tráfico, e o governo não pode entrar só para nos matar. O governo deveria levar algo a mais para as crianças e juventude.”

A manicure Viviane de Souza, também moradora, juntou as duas filhas gêmeas para participar desse momento. Ela disse que há muito tempo não via uma pintura decorativa de Copa do Mundo e que dessa vez é mais simbólico.

“Quando comentei com as minhas filhas, elas ficaram bem empolgadas e acordaram às 6h30 para pintar a rua. Elas adoraram pintar”, afirma.

“Gostei muito. Passou aquela matança, aqueles corpos. Quando pintou, transformou bastante. E há muito tempo que a gente não vivenciava isso de pintar rua para Copa do Mundo”, afirmou.

Para os vizinhos da rua decorada, o sentimento é o mesmo: felicidade e esperança. A dona de casa Andréa Marques, 55, mora na rua há 13 anos e disse que é a primeira vez que vê a rua sendo pintada.

“Trouxe um cenário novo para a nossa comunidade e lembranças boas para as nossas crianças para um futuro melhor. As pessoas interagiram, as crianças também. Fico feliz de poder passar por aquela pintura todo dia e não ver o que a gente viu. Não ver lágrimas, e, sim, alegria pela rua”, disse.

Assim como ela, Celisson Procopio Evangelista, 33, vê a rua sob uma nova história. O treinador de futebol e diretor do projeto O Melhor de Nós, com aulas para 400 crianças da comunidade, mora na frente da rua pintada.

“A imagem era de tristeza, ficou uma rua pesada, uma cena muito triste. Muitas crianças viram aquilo presencialmente e por meio da internet. Mas a arte tem esse poder de mudar tudo e, graças a Deus, essa rua foi escolhida para ser transformada. Hoje, não é vista como cenário de tristeza, mas de alegria.”

“Eu pedi ao presidente da associação de moradores para fechar a rua. Não passa ônibus, carro, só moradores a pé. As crianças estão jogando futebol, jogando queimado”, afirmou.

A expectativa da comunidade é que o Brasil vença a Copa do Mundo e traga a taça para casa. “Acredito que o hexa venha. Estou confiante, sou clubista. A última vez que nós vimos o povo empolgado foi em 2002, com o pentacampeonato.”

No Rio, diversas comunidades estão sendo decoradas para a Copa do Mundo. Moradores têm se organizado para pintar ruas e vielas, entre elas Rocinha, Vidigal, Parque União (Maré), Borel e outras espalhadas pelos bairros da capital.

T CSM
Fábio Andrade Contabilidade - Contador em Santa Maria DF

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