O risco de interrupção do transporte público entre o Entorno e o Distrito Federal é elevado devido à recente crise do diesel. Visando evitar a paralisia do serviço, a Associação Nacional das Empresas de Transporte Rodoviário Interestadual Semiurbano de Passageiros (ANATRIP) enviou à Agência Nacional de Transportes Terrestres (ANTT) um ofício com a solicitação de medidas emergenciais, considerando o impacto da crise no abastecimento das frotas.
No documento, a associação destacou que a escalada do conflito no Oriente Médio desestabilizou o mercado de combustíveis, provocando escassez de diesel e um aumento insustentável nos custos operacionais. Em consequência disso, as empresas associadas à Anatrip relatam dificuldades concretas para adquirir volumes suficientes de combustível. A situação compromete diretamente a regularidade e a continuidade da prestação do serviço público de transporte semiurbano.
O ofício aponta que o serviço é essencial e atende diariamente milhares de trabalhadores que dependem desse modal para o deslocamento entre o DF e as cidades vizinhas. O texto também ressalta a dependência do Brasil em relação à importação de diesel — responsável por cerca de 30% do consumo nacional —, fato que deixa o setor vulnerável às oscilações internacionais do petróleo, que já ultrapassou a marca de US$ 100 por barril.
Medidas Propostas
A associação propôs que a ANTT adote medidas emergenciais para proteger o setor e a mobilidade dos usuários. O documento sugere mecanismos extraordinários para compensar o aumento abrupto do custo, autorizações temporárias para reduzir a oferta de veículos (ajustando a operação à disponibilidade atual de diesel) e a implementação de normas regulatórias de emergência para garantir a continuidade mínima do serviço.
“A situação apresenta contornos graves, tendo em vista que algumas empresas já relatam não estar conseguindo adquirir combustível em quantidade suficiente para o abastecimento integral de suas frotas, circunstância que pode comprometer, em curto prazo, a manutenção da operação regular das linhas”, sublinha o ofício. As flexibilizações adotadas durante a pandemia de Covid-19 foram mencionadas como referência para a implementação de medidas urgentes e para o fortalecimento do diálogo institucional, visando evitar o colapso do sistema.
De acordo com Gabriel Oliveira, secretário-executivo da Anatrip, o cenário atual aponta para uma possível redução futura das atividades. “Como o problema está aumentando, a operação pode começar a ser diminuída, mas não podemos sinalizar ainda paralisação imediata.” Segundo Oliveira, a associação se reuniu com a ANTT na última terça-feira para debater um plano de ação. “As empresas têm atuado junto ao poder público para mitigar os prejuízos da falta de combustível”, finalizou.
ANTT reforça continuidade do serviço no Entorno
Em nota, a Agência Nacional de Transportes Terrestres (ANTT) esclareceu que o transporte semiurbano entre o DF e o Entorno segue operando normalmente, sem qualquer deliberação sobre paralisação. A agência confirmou a reunião com representantes da ANATRIP, na qual foram analisadas as demandas das empresas, especialmente sobre o aumento dos custos. A autarquia reiterou que eventuais medidas devem observar estritamente os contratos e a legislação vigente.
A agência reforçou que acompanha continuamente o cenário econômico e destacou que medidas federais recentes, voltadas à política energética e fiscal, podem produzir efeitos sobre a formação de preços. A ANTT ressaltou que tais impactos seguem em monitoramento pelas áreas técnicas. “A ANTT reafirma seu compromisso com a transparência, a segurança jurídica e a adequada prestação do serviço público aos usuários”, concluiu o órgão.
O que diz o Sindicombustíveis
O presidente do Sindicombustíveis-DF ressaltou, em nota à imprensa, que as medidas adotadas pelo governo federal para conter a escalada do preço do diesel amenizam, mas não evitam a elevação do produto. Ele apontou que, pelo segundo dia consecutivo, as distribuidoras subiram os preços do diesel, que acumulou um reajuste de R$ 0,89 desde o início do conflito. Na gasolina, a elevação já chega a R$ 0,27. Além do custo, as companhias estão em fase de adequação de estoques de ambos os produtos.
Ele salientou que cotas diárias são negociadas com dificuldade. Quanto à situação no DF, destacou que um grande revendedor na região está há mais de três dias sem receber diesel de uma das principais companhias. “Tivemos, neste fim de semana, ocorrência de postos fechados por falta de produto devido às cotas menores.”
Segundo o representante, a Petrobras tem realizado leilões para suprir pequenas distribuidoras regionais; entretanto, o ágio já chegou a R$ 2,60 sobre o preço de tabela. “A guerra não demonstra fim e as companhias precisam importar pelo menos 30% do diesel e 10% da gasolina consumida. Não há como evitar a influência no custo, que é repassado diretamente aos revendedores”, finalizou.