Crise migratória no Mediterrâneo está em foco no documentário ‘Rescue’

A diretora e antropóloga dinamarquesa Sine Plambech trabalha com questões migratórias há duas décadas. Mas nada a preparou para o que veria ao filmar sua produção mais recente, “Rescue”, sobre a dramática situação no mar Mediterrâneo.

O documentário mostra o trabalho de equipes de resgate em alto-mar e as condições perigosas enfrentadas por milhares de migrantes que fogem de guerras e crises econômicas e políticas na esperança de começar uma nova vida na Europa.

As câmeras acompanham uma operação marítima da ONG Médicos Sem Fronteiras que tenta resgatar um grupo de migrantes em uma pequena embarcação.

Uma sequência tensa termina com a separação de uma família iemenita: os ativistas acolhem um homem que chora e grita pela família, sequestrada por um grupo armado minutos antes, diante das câmeras.

A história abalou Plambech, cujo documentário estreou no Festival Internacional de Cinema de Toronto (TIFF).

A produção acompanha durante meses Hani, um iemenita que chega ao litoral italiano após ser resgatado pela ONG. Ele passa meses de angústia sem saber se voltará a encontrar a família, mantida em cativeiro na Líbia.

Por fim, ele recebe notícias da esposa, Roro, que contribuiu para o documentário com imagens gravadas em seu celular e com o relato da violência física, psicológica e sexual que sofreu enquanto estava sequestrada com os filhos.

“Desde o começo, ela me disse: ‘Quero contar minha história e, se você puder me ajudar a conseguir justiça, também quero isso’”, disse Plambech.

– ‘Diariamente’ –

Plambech e sua equipe fizeram várias expedições com as equipes de resgate na tentativa de documentar a situação migratória no Mediterrâneo.

“Filmamos em condições muito difíceis, por causa do tempo e das ondas”, contou. “O que documentamos em nosso filme acontece diariamente”.

A diretora também se preocupou com a mudança de rumo que observou na opinião pública e na política europeia enquanto trabalhava no filme.

Plambech disse, no entanto, que isso a motivou ainda mais.

“Há uma guinada à direita no mundo. Isso pode tornar tudo mais difícil, mas também dá mais importância a esse debate”.

O tema ganha ainda mais relevância diante de situações como a de Ceuta, enclave espanhol no norte da África, onde mais de 70 mil migrantes entraram irregularmente entre os dias 30 e 31 de julho. A maioria voltou ao Marrocos em poucas horas, mas alguns milhares permanecem ali, o que desencadeou manifestações.

“Sinto que o que aconteceu na Espanha lembrou às pessoas que isso continua”, disse.

Um dos desafios de seu trabalho é vencer a resistência do público.

“Como podemos contar a história política dos acordos que a União Europeia e outros países têm no Mediterrâneo? E como contá-la de uma maneira que alcance públicos que talvez não queiram ver um filme sobre migração?”, questionou.

Por isso, seu documentário “é uma história de amor, uma história de família. Trata de um pai que procura os filhos e de uma mãe disposta a fazer o que for necessário”.

“Rescue” estreia nesta sexta-feira na Europa, no Festival de Cinema de Zurique.

T CSM
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