Pela primeira vez desde 1997, a indústria calçadista vendeu, em julho, menos ao exterior do que foi comprado em calçados no exterior. A dupla pressão do avanço dos importados asiáticos e do tarifaço norte-americano reverteu o saldo positivo histórico do setor, que chegou a ser de US$ 193 milhões em fevereiro de 2006.
As importações superaram as exportações em US$ 3,6 milhões em julho de 2026, de acordo com a Secretaria do Comércio Exterior (Secex). O saldo acumulado em 12 meses ainda é positivo, mas caiu para US$ 276,3 milhões, o menor da série histórica.
A inversão na balança comercial resulta de uma dupla pressão conjuntural e estrutural. Segundo a Associação Brasileira da Indústria de Calçados (Abicalçados), do lado das exportações, os embarques caíram devido à desaceleração econômica em parceiros-chave, como Estados Unidos e Argentina, à volatilidade do câmbio e ao avanço de barreiras protecionistas no exterior.
No mercado interno, responsável por absorver mais de 85% das vendas nacionais, os juros elevados e o endividamento familiar contiveram o consumo, abrindo espaço para o salto das importações asiáticas.
O avanço preocupa o setor. A entidade empresarial estima que a alta das importações já impediu a criação de quase 8 mil postos de trabalho diretos no primeiro semestre de 2026. Segundo o Ministério do Trabalho, no primeiro semestre foram criados 1,1 mil postos de trabalho com carteira assinada, 86,9% a menos do que no mesmo período de 2025.
“A indústria brasileira enfrenta simultaneamente um mercado interno pressionado, perda de receita externa e aumento da concorrência importada em detrimento do calçado brasileiro, muitas vezes sob práticas de comércio consideradas desleais pela Organização Mundial de Comércio (OMC)”, afirma o presidente-executivo da Abicalçados, Haroldo Ferreira.
Como o tarifaço dos EUA derrubou as exportações do setor
As exportações recuaram nas duas principais praças compradoras do país. Nos Estados Unidos, principal destino e responsável por 20% das receitas externas do setor, as vendas em divisas caíram de US$ 135,1 milhões nos sete primeiros meses de 2025 para US$ 101,5 milhões no mesmo período de 2026 — retração de 24,9% no acumulado, conforme dados da Secex.
Na Argentina, segundo destino em relevância (10% do faturamento fora do país), o recuo foi ainda maior: 60,3% de janeiro a julho de 2026 ante igual período de 2025.
O cenário internacional agravou-se com a decisão do Escritório do Representante Comercial dos Estados Unidos (USTR) de aplicar uma tarifa adicional de 25% de acordo com a Seção 301, em vigor desde 22 de julho. Em 23 de julho, o USTR anunciou mais 12,5% alegando investigações sobre trabalho forçado, totalizando 37,5% de sobretaxa. “A decisão piorou o que já estava ruim”, diz Ferreira.
Asiáticos respondem por 80% dos pares importados
A Abicalçados tentou evitar que os Estados Unidos taxassem os calçados brasileiros. A gerente de relacionamento da entidade, Letícia Masselli, defendeu o setor em audiência em Washington em 7 de julho. Ela explica que as explanações dos empresários americanos foram favoráveis ao Brasil, apontando, sobretudo, o impacto tarifário nos EUA, que não tem produção significativa de calçados.
Internamente, a indústria cobra linhas de crédito emergencial, regulamentação do Plano Brasil Soberano 3, elevação da alíquota do Reintegra de 0,1% para até 5% e aplicação de salvaguardas. É contra esse avanço asiático que as medidas se dirigem: no acumulado até julho de 2026, China, Vietnã e Indonésia responderam por mais de 80% dos pares importados pelo Brasil.
A China liderou em volume, com dez milhões de pares, com alta de 26,8% nos embarques e 13% na receita. O Vietnã exportou 8,3 milhões de pares e a Indonésia somou 4,8 milhões de pares.
Produção recua e polos regionais perdem ritmo
As expectativas para a indústria neste ano não são otimistas, projeta a Abicalçados. Segundo a entidade, as exportações devem encolher 7,1%. Em abril, a expectativa era de 3,6%. O cenário pode se refletir no emprego e na produção calçadista
Segundo o IBGE, a produção da indústria de couros e seus artefatos, artigos de viagem e calçados encolheu 4,1% nos 12 meses concluídos em junho ante período anterior. Desde julho de 2025 que esse indicador não é positivo.
Os efeitos dos problemas na indústria calçadista são diferentes entre os maiores produtores nacionais. O Rio Grande do Sul, maior exportador nacional em valor, viu as vendas externas cairem 13,2% no primeiro semestre, para US$ 201,83 milhões. A retração reflete a exposição ao mercado norte-americano.
O Ceará, líder em volume, acumulou queda de 28% na receita de exportação e fechou 1,78 mil vagas no semestre. São Paulo registrou recuo de 18,5% em vendas. Santa Catarina e Paraíba também enfrentam perda de ritmo nas linhas femininas e sintéticas.