Dia da pessoa com deficiência: profissionais quebram rótulos e pedem mais inclusão

Redação Jornal de Brasília/Agência UniCeub
Por Natalia Francescutti

No primeiro dia de aula, a professora Carolina Belfort, 40 anos, costumava perguntar aos alunos qual disciplina leciona. Por ser cadeirante, eles sugerem matérias como português, matemática ou história — nunca educação física.

A surpresa revela o estranhamento que profissionais como ela ainda enfrentam. Carolina tem paralisia nos membros inferiores desde 1 ano e 4 meses, após ser atingida por um tiro acidental disparado pelo irmão mais velho. Desde o incidente, ela usa cadeira de rodas, e seus pais decidiram nunca mais manter armas em casa.

Carolina decidiu cursar educação física em uma época em que o vestibular ainda incluía provas práticas de corrida e natação, o que restringia o acesso de candidatos com deficiência. Com o fim da exigência em 2008, ela ingressou na Universidade Católica de Brasília e tornou-se a primeira cadeirante formada no curso. Desde 2013, atua na Secretaria de Educação do Distrito Federal como coordenadora das classes especiais, oferecendo suporte pedagógico e adaptando atividades para alunos com deficiência.

Antes de ser coordenadora, Carolina atuou como professora de Educação Física, combinando aulas teóricas e práticas e utilizando recursos digitais, como slides, vídeos e jogos, para facilitar o aprendizado. Ela lembra que as escolas onde trabalhou adaptaram o ambiente para torná-lo mais acessível a ela.

Faculdade 

Carolina relembra que os professores tinham dificuldade para adaptar as aulas práticas e torná-las acessíveis. “Isso exigia mais de mim, porque eu tinha que ter uma capacidade maior para explicar o movimento e não fazer o movimento”, comenta Carolina. Mas, para a educadora, as adaptações ajudaram bastante, pois, quando se tornou professora, conseguiu explicar para os alunos quais movimentos funcionavam. 

Memórias

Entre as lembranças que Carolina guarda com carinho do período em que foi professora, um ex-aluno que seguiu os passos dela e se tornou professor de educação física. “Ele me disse que, se tinha uma professora cadeirante, então tudo era possível. É um marco na vida de um professor, ver o sucesso dos seus alunos, conta.  

Carolina recorda que ao ser aprovada no concurso público da SEEDF, precisou realizar os exames médicos.Naquele momento, teve a nítida sensação de que os profissionais não queriam sua aprovação. “Diziam que minha deficiência não era compatível com o cargo. Por eu não andar, achavam que eu não seria capaz de ensinar”, relata. Ao final, foi considerada apta.

Mudanças nas inclusões 

Para Carolina, a inclusão no mercado de trabalho depende de mais informação. Ela destaca que pessoas com deficiência física ainda enfrentam barreiras estruturais que dificultam até sair de casa, gerando constrangimentos e dependência. Mesmo assim, reforça que essas pessoas buscam e precisam de independência.

Carolina defende que a inclusão no esporte passa por maior atenção para a Paraolimpíada. Apesar do alto desempenho dos atletas brasileiros, ela aponta a falta de incentivos financeiros e de visibilidade na mídia. Lamenta que os Jogos Paralímpicos quase não sejam transmitidos na TV aberta, ficando restritos a canais pagos.

Com orgulho, ela deixa um recado para quem tem deficiência e deseja seguir no esporte ou na educação física: “Não desista nunca. O esporte é um direito”. Para Carolina, as barreiras fazem parte do caminho, mas o conhecimento e a insistência levam longe. 

Saúde mental

A psicóloga Wendy Amorim afirma que a saúde mental de PCDs no trabalho depende de acolhimento, estímulo, respeito e acessibilidade, com recursos adequados às necessidades de cada pessoa.

“É muito importante frisar que o oferecimento de recursos e acessibilidade não é um privilégio ou uma vantagem, mas sim a aplicação do conceito de equidade”, acrescenta a psicóloga.

E quando o ambiente tem ausência de acessibilidade. “Vai reverberar negativamente na saúde mental do trabalhador que impede o desenvolvimento e, já que estamos falando de trabalho, a produtividade”, argumenta a profissional. 

Fotografia  

Aos 10 anos, João Maia se encantou pela fotografia ao conhecer um estúdio e, aos 16, já registrava eventos escolares com uma câmera simples — uma paixão que atravessou sua infância e permaneceu mesmo após enfrentar a deficiência visual.

Naquela época, não havia cursos, manuais ou formações técnicas voltadas à fotografia. João precisou ser criativo. As câmeras utilizavam filmes fotográficos dentro das caixinhas dos filmes, vinham endereços das empresas, e o jovem escrevia cartas para elas pedindo manuais de fotografia. Além disso, buscava aprender conversando com fotógrafos da cidade e lendo tudo o que encontrava sobre o tema.

Já adulto, ao chegar a São Paulo em 1996, João investiu no próprio equipamento: comprou sua primeira câmera semi-profissional e passou a registrar festas, encontros familiares e eventos sociais, ampliando sua relação com a arte de fotografar.

 Redescobrimento do olhar

Aos 28 anos, João recebeu o diagnóstico de uma doença autoimune que comprometeu sua visão: perdeu 100% da visão do olho direito e, no esquerdo, teve uma lesão no nervo óptico. Hoje, ele enxerga apenas vultos coloridos e desfocados a até cerca de 15 centímetros de distância

Com o tempo, as câmeras evoluíram, e João acompanhou as mudanças tecnológicas. Teve modelos Canon, inclusive uma das primeiras digitais, a A70, com a qual viveu uma transição marcante em sua trajetória. Foi nessa fase, já com deficiência visual, que enfrentou o desafio de continuar fotografando. “Será que vou ter habilidade para fotografar sem enxergar?”, questionou-se. Mas a paixão falou mais alto, e ele decidiu persistir, conciliando o processo de reabilitação com o redescobrimento do olhar através da fotografia.

Foto: João Maia/Divulgação

A retomada veio por meio do esporte. Atleta de arremesso de peso e lançamento de disco, João passou a registrar treinos e competições, unindo duas paixões, e  a fotografia se tornou uma nova forma dele enxergar o mundo.

Foto: João Maia/Divulgação

Atualmente, João Maia, licenciado em História, pós-graduado em Fotografia e atleta, dedica-se a inspirar outras pessoas por meio de palestras e oficinas de “fotografia cega”, voltadas para o público em geral, com o propósito de mostrar que a sensibilidade vai além da visão. Também  tira fotos de atletas com deficiência. 

Entre agosto e outubro deste ano, João Maia exibiu a mostra “Invisível: o que não se vê, se sente”, na Unibes Cultural, em São Paulo. A exposição, com recursos de acessibilidade, convidava o público a experimentar a fotografia para além da visão, explorando sentidos como a escuta e o tato. Durante o evento, o fotógrafo também lançou o livro infantojuvenil “As histórias de João Maia”, que apresenta personagens com deficiência e celebra a diversidade como parte essencial da narrativa humana.

Foto: João Maia/Divulgação

A ideia de criar uma oficina é, “É dar empoderamento para as pessoas com deficiência de você ter a capacidade de fazer seus registros…que você tenha autonomia…”, comenta o João. As aulas são para público de modo geral, até quem não é cego pode fotografar sem utilizar a visão, utilizando os outros sentidos. “A minha fotografia, ela é sensorial”., explica o Maia. 

Na época que era atleta, aproveitava os treinos e competições para fotografar os colegas, unindo suas duas paixões: esporte e fotografia. A virada veio quando teve a oportunidade de registrar, pela primeira vez, um evento oficial: paralímpico de 2024.Enxergou ali uma chance de mostrar o esporte paralímpico sob uma nova perspectiva, “Uma visão que utiliza os sentimentos, as percepções, a emoção”. fala o João. Assim, ele migrou para o esporte paralímpico e acabou virando uma referência mundial como fotógrafo com deficiência visual. 

Foto: João Maia/Divulgação

Tecnologia e acessibilidade 

Antes de ir ao local para fotografar, Maia estuda cada modalidade. “Minha experiência como atleta ajuda muito, porque conheço o ritmo das provas, o momento certo da ação”, afirma. Para ele, a fotografia vai além da visão: é uma construção feita de percepções, ritmo, escuta e emoção, uma forma de enxergar o invisível”.Os sons me dão segurança, me dizem onde está a emoção da partida”., acrescenta o fotógrafo. 

“Quando eu vou fotografar, eu sempre levo um assistente”, conta João Maia, explicando que ele descreve o ambiente enquanto ele escolhe a lente e planeja o clique perfeito. No atletismo, por exemplo, Maia se orienta pelos sons como o tiro da largada, as palmas da plateia, os gritos de incentivo e até o som das sapatilhas batendo na pista. “Ali eu decido o momento da foto: na saída do bloco, no meio da prova ou na chegada. Cada som me guia”, explica. Depois, junto ao assistente, ele revisa as imagens no computador e seleciona os registros que melhor captam a emoção do momento.

Além da ajuda do assistente, também usa ferramentas de inteligência artificial como Bimay Eyes, Gemini e SingEye são aplicativos que quando tira a foto faz a descrição. “ Então, a tecnologia hoje ajuda muito. Se eu estiver sozinho e eu quiser saber o que tem na minha frente, eu posso usar essas tecnologias” relata o João. 

Preconceitos

“Eu sou uma pessoa deficiente visual e sou fotógrafo. Por que não? Só porque eu sou deficiente visual, eu não posso ser fotógrafo?” Fala do João. 

João Maia relata que muitas pessoas duvidam da capacidade dele de captar uma foto bonita. “Até pessoas próximas falavam assim: Mas para que fotografar se você não enxerga?” comenta ele com voz decepcionada. Apesar dessas dúvidas das pessoas, tem outro lado que existem pessoas que falam “Nossa, que trabalho lindo. Parabéns. Segue em frente. A sua sensibilidade em captar o esporte paralímpico é incrível “, comentou. 

“O capacitismo é uma forma de discriminação, de preconceito que dói muito a gente que é deficiente. Eu lido da seguinte forma: a informação é a melhor arma”. explica fotógrafo. 

O fotógrafo acredita que as pessoas valorizam seu trabalho pelo valor artístico por conta da história profissionalmente que ele tem,“Eu fico muito feliz pelas pessoas gostarem do meu trabalho artístico e não pela minha deficiência e não pela superação”. relata o João Maia. 

Reações

Para João Maia, o maior retorno de seu trabalho vem da transformação que vê em seus alunos após as oficinas de fotografia cega. “O que mais me deixa feliz é ver que eles ganham autonomia, que passam a fotografar sozinhos”, diz. Ele conta que seu trabalho tem inspirado até fotógrafos que haviam abandonado a profissão após adquirirem uma deficiência. “Já aconteceu de pessoas voltarem a fotografar por minha causa, e isso é incrível”, afirma, com orgulho.

As reações positivas, segundo João, são constantes. “Quando uma pessoa com deficiência consegue fotografar por meio da minha metodologia, é uma alegria sem tamanho”, diz Maia. Ele explica que o mesmo acontece com pessoas sem deficiência que aceitam o desafio de fotografar sem usar a visão, uma experiência que, para ele, desperta empatia e amplia o conceito de percepção.

Entre tantas histórias que chegam sobre reações de pessoas da exposição até ele, uma em especial o marcou. “A monitora me contou que uma mulher começou a chorar ao ver as minhas fotos”, lembra. “Ela dizia que sentia a alegria e a sensibilidade nas imagens, e isso me emocionou muito”. No fim da visita, a mulher deixou uma mensagem no livro da exposição, uma entre tantas que, segundo João, são “lindas demais” e reforçam o poder que a fotografia tem de tocar o invisível.

Supervisão de Luiz Claudio Ferreira

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