O dólar está em queda nesta quinta-feira (29), após o Copom (Comitê de Política Monetária) do BC (Banco Central) decidir manter a taxa Selic em 15% ao ano pela 5ª vez consecutiva, mas sinalizar corte de juros no encontro seguinte do colegiado, em março.
Investidores também repercutem os dados de dezembro do Caged e a agenda do ministro da Fazenda, Fernando Haddad, que concede entrevista ao jornal Metrópoles nesta manhã.
Às 11h31, a moeda americana caía 0,58%, cotada a R$ 5,177. Já a Bolsa avançava 0,63%, a 185.859 pontos, a caminho de registrar um novo recorde histórico.
O Copom prevê, “em se confirmando o cenário esperado”, iniciar o ciclo de cortes na taxa Selic a partir da próxima reunião. “Porém reforça que manterá a restrição adequada para assegurar a convergência da inflação à meta”, afirmou em comunicado.
A decisão de manter a taxa básica de juros do país inalterada foi unânime. O comitê evitou sinalizar qual será a intensidade dos próximos movimentos, dizendo que “o compromisso com a meta impõe serenidade quanto ao ritmo e à magnitude do ciclo”.
Segundo ele, essa definição dependerá da evolução de fatores (sem especificar quais) que darão maior confiança de que a meta de inflação será atingida à frente. Hoje o BC tem o terceiro trimestre de 2027 como alvo.
A centro da meta de inflação da autoridade monetária é 3%, com margem de tolerância de 1,5 ponto percentual para cima e para baixo. No modelo atual de meta contínua, o objetivo é considerado descumprido quando a inflação acumulada permanece durante seis meses seguidos fora do intervalo de 1,5% (piso) a 4,5% (teto).
Como reflexo do cenário de juros elevados por período prolongado a Selic está em 15% ao ano desde junho do ano passado, a inflação perdeu força em 2025 e fechou o acumulado do ano em 4,26%, abaixo do teto da meta. Foi o menor índice para um ano fechado desde 2018, quando o IPCA avançou 3,75%.
Na visão da equipe de pesquisa macroeconômica do Itaú, o comunicado indica que o compromisso do Copom com a meta “requer serenidade quanto ao ritmo e à magnitude do ciclo, e dependerá do grau de confiança que seus membros desenvolverem em relação a convergência”.
A expectativa do banco é que o primeiro corte do ciclo seja de 0,25 ponto percentual. “Aguardaremos a divulgação da ata da reunião na próxima terça-feira para reavaliar nossa projeção. Ainda assim, não esperamos um ciclo muito maior que 2,25 pontos, levando a taxa básica a 12,75% ao ano até dezembro.”
Já Adriana Dupita, economista para mercados emergentes na Bloomberg, espera um corte inicial de 0,5 ponto.
“Só assim se afrouxa a política monetária, especialmente se for confirmado que as expectativas de inflação estão caindo”, ela diz. A economista também cita a trajetória do dólar, que atingiu o menor nível em quase dois anos nesta semana e tende estimular a queda inflacionária.
Para a Bolsa, juros mais baixos tendem a ser uma boa notícia: ao tirar um pouco do brio da renda fixa, o corte estimula que investidores procurem retornos mais altos em ativos de risco. Segundo a XP, os últimos oito ciclos recentes de afrouxamento monetário levaram o Ibovespa a subir 39,2%.
Mas, no câmbio, o corte da Selic tende a tornar o Brasil um pouco menos atrativo aos investimentos estrangeiros. Agentes do mercado têm ponderado, no entanto, que o país seguirá atraente para operações de carry trade, considerando que as taxas no exterior são bem menores.
Nessa modalidade de operação, investidores tomam empréstimos no exterior, onde os juros são menores, e aplicam no Brasil, onde o retorno é maior.
Nos EUA, por exemplo, o Fed (Federal Reserve, o banco central norte-americano) optou por manter a taxa de referência na faixa de 3,50% a 3,75% e não deu previsão para a retomada do ciclo de cortes.
A manutenção já era amplamente esperada pelo mercado, apesar da pressão do presidente Donald Trump por mais reduções e da abertura, neste mês, de uma investigação criminal contra Jerome Powell, presidente da instituição.
No comunicado que acompanhou a decisão, o Fed citou que a inflação ainda está elevada e que o crescimento econômico permanece “sólido”. Também afirmou que os ganhos no mercado de trabalho permaneceram baixos, e a taxa de desemprego demonstrou sinais de estabilização.
Sendo assim, o comitê considerou que a taxa de juros está “bem posicionada” para responder ao que está por vir para a economia.
“A declaração é ligeiramente ‘hawkish’ [favorável a juros altos], principalmente por mencionar ‘sinais de estabilização’ no mercado de trabalho e uma revisão para cima nas projeções de crescimento”, diz Benito Berber, economista-chefe para as Américas da Natixis.
Nesta quinta, Trump afirmou que os Estados Unidos deveriam ter a taxa de juros mais baixa do mundo.
Os embates do republicano com o banco central têm gerado preocupações nos mercados conforme a escolha pelo novo presidente do Fed se aproxima. O mandato de Jerome Powell termina em maio, e operadores temem que Trump opte por um dirigente que responderá às suas demandas, e não aos dados econômicos.
Essa preocupação se soma a outras incertezas relacionadas às políticas fiscais, domésticas e internacionais de Trump um caldo que tem incentivado um movimento de rotação para fora das praças norte-americanas.
Nas últimas semanas, o fluxo de investimentos estrangeiros para mercados emergentes se avolumou, com o Brasil recebendo parte desse montante. A entrada de capital aqui levou a Bolsa a recordes e fez o dólar romper o ponto de suporte de R$ 5,30.