O dólar caiu 0,14% nesta segunda-feira (23) e encerrou a sessão cotado a R$ 5,167, menor valor em quase dois anos.
A moeda chegou a encostar em R$ 5,139 na mínima do dia, envolta nos desdobramentos da nova ofensiva comercial do presidente dos Estados Unidos, Donald Trump. Na máxima, chegou a R$ 5,190, logo depois da abertura das negociações.
A última vez em que a divisa norte-americana esteve neste patamar foi em 28 de maio de 2024, há quase 21 meses, quando encerrou o dia a R$ 5,160.
O movimento no Brasil acompanhou o do exterior: o índice DXY, que compara o dólar a uma cesta de outras seis moedas fortes, caiu 0,1%, a 97,70 pontos, denotando fraqueza global.
Trata-se de um “reflexo da política econômica de Trump, que faz com que a moeda norte-americana perca importância relativa enquanto reserva de valor, em favor do ouro e moedas como o euro”, diz Bruno Perri, economista-chefe e sócio-fundador da Forum Investimentos.
As praças acionárias, porém, não tiveram o mesmo desempenho. O Ibovespa recuou 0,88%, a 188.853 pontos, apesar da alta dos papéis da Vale e da Petrobras. Wall Street também fechou em baixa, com os principais índices em queda de mais de 1%.
Nas Bolsas, prevaleceu a “aversão global a risco, disparada pelas incertezas em relação à política de comércio exterior norte-americana”, diz Perri. Aqui, investidores também aproveitaram para realizar lucros após a forte alta de sexta-feira, que alçou o Ibovespa ao patamar inédito de 190 mil pontos no fechamento.
A realização de lucros engrossou no setor financeiro, com os principais bancos -BTG, Itaú, Bradesco, Santander e Banco do Brasil- em baixas significativas. Por outro lado, o Ibovespa chegou a testar o patamar de 191 mil pontos pela primeira vez nesta sessão, tendo atingido 191.002 pontos no pico -nova marca intradiária.
A cautela foi acirrada pela nova cruzada tarifária de Trump, que, irritado pela decisão da Suprema Corte dos Estados Unidos de sexta-feira, anunciou uma tarifa global de 15% a todos os países. A cobrança começa nesta terça-feira (24).
“Eu, como presidente dos Estados Unidos da América, irei, com efeito imediato, aumentar a tarifa mundial de 10% sobre países, muitos dos quais têm ‘roubado’ os EUA durante décadas, sem retaliação (até eu chegar!), para o nível totalmente permitido e legalmente testado de 15%”, escreveu ele em uma postagem na rede Truth Social.
A nova tarifa se ampara em um dispositivo previsto pela Constituição dos EUA, criado em 1974. A seção 122 dá a Trump poder para impor temporariamente taxas de até 15% sobre importações quando houver déficits significativos na balança de pagamentos.
Nesse caso, a taxação expira em 150 dias, a menos que o Congresso aprove uma extensão.
Paralelamente, seu governo trabalhará na emissão de novas tarifas “legalmente admissíveis”, afirmou Trump.
O tarifaço do ano passado, considerado ilegal pela Suprema Corte na sexta, tinha como base jurídica a IEEPA -Lei de Poderes Econômicos de Emergência Internacional-, que permitia a aplicação de sobretaxas de importação a todos os países sem aprovação do Congresso.
Os juízes discordaram que a lei, criada em 1977 para situações de emergência, de fato concedia ao presidente esse poder. O placar da decisão foi de 6 votos a 3.
Na visão de Higor Rabelo, especialista e sócio da Valor Investimentos, “o que começou como muito positivo, até eufórico, logo virou para cautela”.
“Trump reagiu rápido e manteve a política tarifária amparada em ferramentas diferentes, o que dificulta que a Suprema Corte impeça novamente o tarifaço. Agora, bolsas ao redor do mundo, inclusive a brasileira, entraram nesse viés de incerteza.”
No Brasil, a queda do dólar veio também amparada pela perspectiva de que a nova tarifa de 15% pode ser benéfica ao país. Essa visão aumenta a atratividade do mercado brasileiro, já beneficiado pelo fluxo de investidores estrangeiros para praças emergentes.
“O Brasil e as empresas brasileiras já estavam em uma categoria de subvalorização, o que atraiu o capital estrangeiro. Com essa nova percepção de que Brasil e China são os mais beneficiados da nova política [de Trump], o interesse se mantém”, diz Rabelo.
A sessão também esteve embalada pelas novas projeções do boletim Focus. O relatório do Banco Central mostrou que a mediana das projeções para a Selic no fim deste ano foi de 12,25% para 12,13%.
Atualmente a taxa está em 15% ao ano e, para os economistas consultados, o ciclo de cortes começará em março, com redução de 0,5 ponto percentual.
O diferencial de juros entre Brasil e Estados Unidos vem sendo apontado como um dos fatores para atração de investimentos ao país. Mesmo com a perspectiva de corte, o diferencial segue atrativo, considerando que a Selic deve permanecer em dois dígitos ao longo dos próximos anos.
Por parte dos Estados Unidos, as expectativas de que o Federal Reserve mantenha a taxa na banda de 3,5% e 3,75% têm crescido à luz das incertezas comerciais e geopolíticas.
Também seguiram no radar as tensões entre Estados Unidos e Irã, que indicou estar disposto a fazer concessões em seu programa nuclear em troca do fim das sanções norte-americanas e do reconhecimento de seu direito de enriquecer urânio.
No domingo, o presidente iraniano Masoud Pezeshkian afirmou que as recentes negociações revelaram “sinais encorajadores”, mas disse que Teerã permanecerá em vigilância contínua sobre as ações americanas.
“Continuamos monitorando de perto as ações dos EUA e tomamos todas as providências necessárias para qualquer cenário potencial”, disse ele em uma publicação na rede social X.