São Paulo, 07 – O dólar à vista desacelerou bem o ritmo de alta na reta final dos negócios desta terça-feira, 7, com a diminuição da percepção de risco no exterior. O alívio veio na esteira da expectativa de possível extensão do prazo dado pelos EUA ao Irã para aceitar um acordo de cessar-fogo nos termos propostos pelo presidente norte-americano, Donald Trump.
Após ter registrado máxima de R$ 5,1735 pela manhã e trabalhado acima de R$ 5,16 ao longo da tarde, o dólar à vista fechou cotado a R$ 5,1550, em alta de 0,17%. Apesar do avanço desta terça-feira, a divisa ainda acumula perdas de 0,46% em abril. Na segunda-feira, a moeda norte-americana fechou a R$ 5,1465, no menor nível desde 27 de janeiro (R$ 5,1340), véspera da eclosão da guerra. No ano, as perdas são de 6,08%.
A dinâmica do mercado global de moeda foi ditada, uma vez mais, pelo vaivém do noticiário em torno de possível escalada do conflito no Oriente Médio. Pela manhã, Trump afirmou que “uma civilização inteira morrerá esta noite, para nunca mais ser trazida de volta”, em referência à possibilidade de ataques massivos ao Irã, caso o país persa rejeite proposta de cessar-fogo ou não reabra o Estreito de Ormuz no prazo estipulado pelos EUA (21h, horário de Brasília).
No fim da tarde, o Paquistão solicitou aos EUA a extensão do prazo e exortou o Irã a reabrir Ormuz como “um gesto de boa fé nas próximas semanas”. Em seguida, a secretária de Imprensa da Casa Branca, Karoline Leavitt, afirmou que o presidente dos EUA foi informado da proposta feita pelo governo paquistanês e que “uma resposta virá”. Circularam informações de que o Irã estaria de acordo com o plano.
O real exibiu um dos piores desempenho entre as principais divisas emergentes e de países exportadores de commodities. Peso chileno e peso argentino amargaram perdas maiores. Operadores afirmam que pode ter ocorrido um movimento mais forte de ajustes e realização de lucros, após a recuperação recente do real, com a taxa de câmbio recuando de R$ 5,30 em meados de março para orbitar R$ 5,15 nos últimos dias.
“O real destoou um pouco hoje, com desvalorização superior à da maioria das moedas emergentes. Isso parece ligado ao fato de a nossa moeda ter se valorizado mais nos últimos dias”, afirma a economista-chefe do Ouribank, Cristiane Quartaroli, para quem o “ruído fiscal” com as medidas do governo de subvenção ao diesel podem ter contribuído para o tropeço da moeda brasileira.
Na segunda, o ministro do Planejamento e Orçamento, Bruno Moretti, disse que o custo das medidas, em dois meses, será de R$ 8 bilhões. Em termos anualizados, saltaria para R$ 31 bilhões A equipe econômica afirma que o impacto fiscal será neutro, dado o ganho de arrecadação com o aumento dos preços do petróleo
O economista-chefe da Análise Econômica, André Galhardo, pontua que a arrancada dos preços da commodity já provocou uma piora das projeções de inflação, o que pode levar o Comitê de Política Monetária (Copom) a encurtar o ciclo de redução da taxa Selic. “Um ciclo de corte menor pode favorecer a moeda brasileira. Mas, de outro lado, podemos ter juros reais menores, com a piora das expectativas e da inflação corrente”, afirma o economista.
Termômetro do comportamento do dólar em relação a uma cesta de seis moedas fortes, o índice DXY operou em leve baixa ao longo do dia e rondava os 99,700 pontos no fim da tarde, em queda de cerca de 0,30%, após máxima aos 100,156 pontos. A sessão foi marcada pelo fortalecimento do euro e da libra, em meio ao aumento de apostas de aperto monetário pelo Banco Central Europeu (BCE) e pelo Banco da Inglaterra (BoE), em razão do choque de custos nos preços de energia.
Após volatilidade ao longo do pregão, as cotações do petróleo encerraram o dia em direções opostas, com oscilações modestas, apesar do aumento das tensões geopolíticas. O contrato do WTI para maio subiu 0,48%, a US$ 112,95 o barril. Já o Brent para junho – referência de preços para a Petrobras – recuou 0,45%, a US$ 109,27 o barril.
A Bradesco Asset reduziu a previsão para a taxa de câmbio ao final de 2026 de R$ 5,35 para R$ 5,30. Já a projeção para o dólar no fim de 2027 foi mantida em R$ 5,50. “A recente apreciação do real frente ao dólar, mesmo diante do aumento na aversão ao risco por conta dos conflitos no Oriente Médio, e a expectativa mais favorável para as exportações brasileiras nos levaram a revisar nossa projeção”, afirmou a casa, em relatório
Bolsa
O Ibovespa não apenas conseguiu defender, no fechamento, a linha dos 188 mil pontos como também, no ajuste final, mostrou leve ganho de 0,05%, aos 188.258,91 pontos, na máxima do dia. Dessa forma, estendeu nesta terça-feira, pela sexta sessão, a série positiva, ainda que praticamente estável nas últimas três do intervalo.
Da abertura ao ajuste final, prevalecia a percepção de risco geopolítico. O ultimato dos EUA ao Irã pesava sobre a confiança dos investidores que, em geral, venderam ações na sessão, desde os horários de negócio na Ásia até os da Europa e dos Estados Unidos.
Contudo, em Nova York, os principais índices mostraram alguma reação perto do fechamento, sem sinal único, com variações de -0,18% (Dow Jones), +0,08% (S&P 500) e +0,10% (Nasdaq) no encerramento do dia. Relatos da mídia internacional de que tanto o Irã como os Estados Unidos estariam avaliando uma proposta de cessar-fogo de duas semanas, apresentada pelo Paquistão, resultaram em melhora do humor em Nova York e, por consequência, também na B3 na reta final de sessão.
A secretária de Imprensa da Casa Branca, Karoline Leavitt, afirmou que o presidente dos EUA, Donald Trump, foi informado da proposta de cessar-fogo com o Irã, e que “uma resposta virá”. Por sua vez, o Irã estaria avaliando positivamente a proposta mediada pelo Paquistão.
Assim, na B3, o Ibovespa defendeu os 188 mil pontos no fechamento, com giro a R$ 26,4 bilhões, fortalecido na reta final. Nas duas primeiras sessões da semana, o índice agrega 0,11%, o que o coloca no mês a +0,43%. No ano, sobe 16,84%. Na ponta ganhadora nesta terça-feira, destaque para Braskem (+7,26%), Rumo (+2,95%) e RD Saúde (+2,25%). No lado oposto, MRV (-9,45%), Suzano (-6,39%) e Cyrela (-5,65%).
Entre as blue chips, Petrobras sustentava ganhos na primeira etapa da sessão, na contramão da maioria das ações de primeira linha, mas inverteu o sinal com a virada do Brent, para baixo. Os investidores também tomaram nota da saída do diretor de Logística, Comercialização e Mercados, Claudio Schlosser – uma mudança que volta a levantar questões sobre eventual retomada de indicações de cunho político na estatal, reporta do Rio a jornalista Gabriela da Cunha, do Broadcast ( sistema de notícias em tempo real do Grupo Estado) em conversa com o professor Rafael Chaves, da FGV-EPGE.
No fechamento, Petrobras ON mostrava perda de 0,28% e a PN, de 0,88%. Principal ação do Ibovespa, Vale ON subiu 0,72%, ganhando força no ajuste final. Entre os grandes bancos, a variação, no fechamento, ficou entre -0,97% (Santander Unit) e +0,87% (BTG Unit).
Embaixadas do Brasil nos países árabes do Golfo estão recomendando aos brasileiros que avaliem deixar a região diante da possibilidade de intensificação dos ataques dos Estados Unidos e Israel ao Irã, e das possíveis retaliações iranianas a alvos nas nações vizinhas.
“O conflito regional dá sinais de escalada e não há como prever sua evolução”, afirmam as embaixadas nos Emirados Árabes Unidos e no Kuwait em alertas postados em seus perfis nas redes sociais As representações diplomáticas brasileiras no Bahrein e no Catar fizeram manifestações semelhantes, reporta o jornalista Alexandre Rocha, do Broadcast.
Em outro desdobramento, o Paquistão solicitou ao governo dos Estados Unidos que estenda o prazo de negociação de acordo com o Irã em duas semanas. O primeiro-ministro do país, Shehbaz Sharif, disse que os esforços estão em progresso estável e que os resultados podem vir “num futuro próximo”. “Pedimos que o Irã reabra Ormuz como gesto de boa fé nas próximas duas semanas”, afirmou Sharif, pedindo ainda que Irã e EUA cumpram um cessar-fogo nesse intervalo.
Uma fonte militar iraniana disse à agência de notícias Tasnim que Teerã adicionará as instalações de petróleo da Aramco e de Yanbu, na Arábia Saudita, e o oleoduto de Fujairah, nos Emirados Árabes Unidos, aos seus alvos se o presidente dos EUA, Donald Trump, atacar as usinas de energia do país. “Caso Trump cometa um crime, o Irã não hesitará em impor custos pesados aos Estados Unidos e seus aliados”, disse. A fonte ainda acrescentou que, se o republicano colocar suas ameaças em prática, deverá “esperar um preço do petróleo de US$ 200 nos próximos dias”.
“O prazo imposto até hoje, às 21h, para um possível acordo entre Estados Unidos e Irã, acompanhado de um tom agressivo, elevou significativamente o nível de tensão global”, diz Leonardo Santana, especialista em investimentos e sócio da casa de análise Top Gain. “Esse tipo de fala não apenas assusta, como paralisa o apetite por risco. E é exatamente isso que estamos vendo, refletido na queda das bolsas ao redor do mundo e, consequentemente, no Ibovespa”, acrescenta.
“Os primeiros sinais do impacto macroeconômico da guerra apontam para estagflação na Europa, importadora de energia, e uma reação mais resiliente nos EUA, autossuficientes”, diz Matthew Ryan, head de estratégia de mercado global da Ebury. “Os investidores claramente buscam uma narrativa coerente à medida que ativos de risco se recuperam. Mas os preços do petróleo continuam subindo e o Estreito de Ormuz permanece fechado pelo Irã”, acrescenta.
Na avaliação de Ryan, Donald Trump tem alternado ameaças com adiamentos de prazos. Como resultado desta tática de avanços e recuos, “os ativos financeiros passam a ignorar cada vez mais sua retórica para se concentrar nos acontecimentos reais”, aponta o estrategista. “Assim como ocorreu após as primeiras semanas de turbulência tarifária, há um ano”, observa.
Taxas de juros
Os juros futuros negociados na B3 zeraram a alta observada em quase todo o pregão e passaram a recuar na hora final da sessão, seguindo o alívio global na aversão ao risco. A melhora veio na esteira de uma proposta apresentada pelo governo do Paquistão para que os Estados Unidos estendam o prazo final das negociações com o Irã.
Encerrados os negócios, a taxa do contrato de Depósito Interfinanceiro (DI) para janeiro de cedeu de 14,172% no ajuste anterior a mínima intradia de 14,145%. O DI para janeiro de 2029 fechou em 13,68%, vindo de 13,712% no ajuste de segunda-feira. O DI para janeiro de 2031 caiu de 13,784% a 13,745%.
Antes do governo paquistanês propor a extensão das tratativas e pedir que o país persa libere o Estreito de Ormuz, por onde passa 20% do petróleo mundial, agentes consideravam menos provável que um acordo entre Washington e Irã seja alcançado, o que aumentava a aversão ao risco. Caso as negociações terminem sem resultados, o fluxo de navegação seguirá interrompido, acarretando em pressão adicional do petróleo sobre os preços.
No início da tarde, Trump afirmou em entrevista à Fox News que o país está pronto para atacar o Irã se sua data-limite não for respeitada. Se não houver avanço nas tratativas, haverá um ataque “como eles nunca viram”, ameaçou o republicano, ponderando que, caso surja um acordo concreto ainda nesta terça, o cenário pode mudar.
O Irã, por sua vez, planeja retaliar eventuais ataques americanos a usinas de energia do país com ofensivas a instalações de petróleo da Aramco e Yanbu, na Arábia Saudita, e ao oleoduto de Fujairah, nos Emirados Árabes Unidos. A informação, que veio de uma fonte militar do país persa, foi noticiada pela agência Tasnim. A fonte disse que, se o líder dos EUA concretizar suas ameaças, deve “esperar um preço do petróleo de US$ 200 nos próximos dias”.
A commodity energética fechou a sessão sem direção única, mas ainda perto de US$ 110 o barril, em um pregão volátil devido à proximidade do prazo final de Trump para as negociações. O Goldman Sachs observa em relatório que o futuro de petróleo Brent para junho e o WTI para maio aumentaram US$ 7 e US$ 15 em relação à semana anterior, respectivamente. “O mercado vê perspectivas reduzidas de um acordo de paz iminente antes do prazo do presidente Trump esta noite”, diz o banco.
Na segunda, o fluxo de negócios foi menor na parte longa da curva, observa André Muller, economista-chefe da AZ Quest Investimentos, uma vez que as bolsas na Europa não operaram devido ao feriado de Páscoa. “Mas hoje os ativos de risco no mundo todo pioraram e todas as curvas de emergentes estão atuando da mesma maneira, em linha com o risco inflacionário crescente e a proximidade do ultimato de Trump”, disse.
Sobre o pacote de medidas do governo para atenuar o efeito da alta do petróleo nos combustíveis, cuja neutralidade fiscal tem sido questionada pelo mercado, Muller avalia que o risco às contas públicas não foi driver para a abertura dos DIs em boa parte da sessão desta terça. Por outro lado, as subvenções não eliminam as incertezas sobre o impacto inflacionário do choque do petróleo, destacou.
A AZ Quest trabalha com alta de 4,5% do IPCA em 2026, teto da meta perseguida pelo Banco Central, mas avalia que os riscos são para cima, e que o indicador pode fechar o ano em 5% caso o conflito no Oriente Médio se prolongue por mais tempo.
Nesta terça, a Bradesco Asset Management elevou sua projeção para a inflação deste ano de 4,4% a 4,7%, e mudou a estimativa para a Selic ao fim de 2026 a 12,75%, de 12,50% anteriormente. As alterações foram feitas em razão das pressões relacionadas ao cenário externo.