Dólar tem leve alta ante o real; com queda do petróleo e cautela antes de decisão do Fed

Dólar
Canadá e UE reforçam decisão nos EUA e alegam que – Reprodução

São Paulo, 28 – A queda de 4% do petróleo e as posições mais cautelosas dos investidores na véspera da decisão de juros do Federal Reserve (Fed) justificam a leve alta do dólar ante o real nesta terça-feira, 28. Embora a moeda americana tenha caído contra a maior parte das divisas fortes e emergentes, o fato de o Brasil ser exportador líquido de petróleo deteriora os termos de troca e pesou na divisa local.

Após tocar mínima a R$ 5,1097 (-0,05%) no início da tarde, o dólar à vista voltou a operar em leve alta contra o real e fechou a R$ 5,1223 (+0,20%), após máxima a R$ 5,1301 pela manhã. Às 17h, o contrato futuro para agosto subia 0,14% (a R$ 5,1260) enquanto o índice DXY, que mede a divisa americana contra seis pares fortes, recuava 0,11%.

“Amanhã tem decisão de juros nos EUA, e há um movimento de certa cautela. O pessoal prefere ficar mais tomado em dólar do que exposto em real, naturalmente dá uma puxadinha no câmbio”, resume o operador Fernando Cesar, da corretora AGK.

O CEO da Gravus Capital, Ricardo Trevisan, afirma que o câmbio opera em “um compasso de espera clássico numa véspera de Fed”, considerando que por mais que o cenário-base do mercado seja de manutenção dos juros americanos entre 3,5% e 3,75% ao ano, o presidente do Fed, Kevin Warsh, já tem tido um discurso mais duro contra a inflação.

Reportagem especial da Broadcast (sistema de notícias em tempo real do Grupo Estado) mostra que independentemente da decisão de quarta, uma aposta do mercado é que não será por consenso. O Bank of America (BofA) e o Citi veem sinais de que dois membros votantes do Comitê Federal de Mercado Aberto (Fomc, em inglês) – Beth Hammack (Fed Cleveland) e Lori Logan (Fed Dallas) – votarão pelo aumento da taxa de juros. Ainda assim, a ferramenta FedWatch, do CME Group, o mercado precificava, nesta manhã, 70% de chance de manutenção da taxa.

Para Trevisan, da Gravus, se o Fed vier como o esperado (com manutenção dos juros), o dólar tende a seguir de lado. Porém, se o Fed surpreender para o lado mais duro, seja subindo juros, seja com um discurso mais agressivo de Warsh, o movimento clássico seria de fuga para Treasuries e dólar forte no mundo.

Cesar, da AGK, afirma que a queda do petróleo continua pressionando o real. Hoje o Brent fechou a US$ 82,08 por barril, em meio a sinais de avanços diplomáticos no Oriente Médio. O Irã conversou com Arábia Saudita e Omã sobre a situação no Estreito de Ormuz.

Nesta terça investidores também repercutiram o Índice Nacional de Preços ao Consumidor Amplo 15 (IPCA-15) desacelerando de 0,41% em junho para 0,06% em julho, abaixo do piso de 0,17% do Projeções Broadcast, o que tende a liberar espaço para mais cortes de juros.

O operador de câmbio da AGK nota que o diferencial de juros entre Brasil e EUA ainda é grande, mas paulatinamente vem diminuindo e pode diminuir o apetite a carry trade.

Já o déficit de US$ 2,230 bilhões na conta corrente em junho veio abaixo da mediana de US$ 2,30 bilhões e foi considerado, para o chefe de alocação de investimentos e sócio da GT Capital, Nicolas Gass, um fator de sustentação para o real. “A conta corrente veio melhor do que o esperado, com investimento direto tendo quase o dobro da entrada de dólares do que estava esperando”, diz.

Bolsa

O Ibovespa fechou em alta pela segunda sessão seguida, amparado por uma combinação de fatores internos e externos. Enquanto, no exterior, o apetite pelo risco, alimentado pela melhora da perspectiva nas negociações entre EUA e Irã, estimulou fluxo, no Brasil o que garantiu o bom desempenho foi o IPCA-15 de julho muito abaixo do piso das estimativas.

Pela manhã desta terça-feira, 28, o Ibovespa chegou a romper os 178 mil pontos, em forte reação à divulgação do índice de inflação, que estimulou uma série de revisões em baixa para o IPCA em 2026 e também as apostas na continuidade do ciclo de queda da Selic para além de agosto, o que favoreceu especialmente papéis sensíveis ao ciclo econômico. O IPCA-15 subiu 0,06%, ante piso das estimativas de 0,17%.

“Além do investidor estrangeiro voltar com apetite a risco pela expectativa de um acordo de paz no Oriente Médio, temos ótimos dados de inflação aqui, que podem sim significar que o Banco Central continua tendo espaço para queda dos juros”, resumiu Rebecca Nossig, estrategista de ações da Nomad Investimentos.

A perspectiva de melhora do cenário inflacionário veio ainda da nova queda dos preços do petróleo, diante da expectativa de avanço nas tratativas para reabrir o Estreito de Ormuz. Desta vez, o recuo da commodity não foi suficiente para pressionar os papéis da Petrobras. “A empresa nem sofreu tanto, porque, além de ter resultados próximos para apresentar, um possível acordo de paz no Oriente Médio faz com que o investidor estrangeiro volte com apetite a risco”, explica Nossig. A companhia divulga dados de produção e vendas após o fechamento do mercado.

Petrobras ON subiu 0,80% e a PN avançou 0,49%. O petróleo Brent para outubro caiu 4,41%, a US$ 82,08 o barril. Já Vale ON foi penalizada pelo recuo do minério durante boa parte da sessão, mas conseguiu zerar as perdas ao fechar estável.

O fluxo externo também respondeu pelo bom desempenho de outras blue chips, como as do setor financeiro. Nossig explica que o investidor estrangeiro olha o Ibovespa como um todo para os aportes. “Por isso os bancos são bastante beneficiados, porque mais de 30% do peso do Ibovespa é só o setor de bancos”, diz. Itaú Unibanco PN, o de maior peso no setor financeiro, fechou em alta de 0,40%, mas o destaque foram as units do Santander (+1,13%).

Na lista das maiores valorizações, preponderaram os papéis cíclicos, com Vamos (+5,05%) à frente, seguida por Hapvida (+4,02%), acompanhando a queda dos juros futuros. Em contrapartida, Telefônica Brasil ON (-5,98%) e Tim ON (-5,81%) lideraram as maiores quedas, refletindo a leitura negativa dos balanços divulgado na segunda, seguida por Sabesp ON (-2,08%).

Em Nova York, o Dow Jones subiu 1% (+1,03%) em contraponto ao Nasdaq, que cedeu 0,22%, em dia de rotação, com saída de fluxo das empresas de chips e tecnologia em direção a setores mais tradicionais, segundo a Avenue. As bolsas americanas, exceto o Nasdaq, também se favoreceram do recuo do petróleo e do alívio nas apostas de que o Fed vá subir os juros em 2026.

O Ibovespa encerrou o dia em alta de 0,70%, com 176.564,75 pontos. Na mínima, atingiu 175.326,40 pontos (estável) e na máxima foi aos 178.538,64 (+1,83%). Em julho, o índice acumula avanço de 2,64% e, em 2026, de 9,58%. O giro da Bolsa nesta terça foi de R$ 21,9 bilhões.

Juros

Os juros futuros percorreram o pregão desta terça-feira, 28, em firme queda, após duas sessões seguidas de recuo, com agentes ajustando para baixo as projeções para a inflação deste ano após a surpresa com o IPCA-15. O dado, divulgado nesta terça-feira, 28, pelo IBGE, teve variação praticamente nula em julho – a menor para o mês desde 2023.

A alta de apenas 0,06% do indicador reforçou que a inflação doméstica está em tendência mais controlada, o que, ao lado de dados mais fracos de atividade, deve dar suporte para o Banco Central continuar cortando a Selic. O cenário externo, embora ainda volátil e com menor peso do que o IPCA-15, também ajudou a aliviar os prêmios desta terça, com nova rodada de desvalorização do petróleo, ainda motivada por sinais de possível negociação entre Estados Unidos e Irã.

Encerrados os negócios, a taxa do contrato de Depósito Interfinanceiro (DI) para janeiro de 2027 cedeu de 13,908% no ajuste anterior a 13,865%. O DI para janeiro de 2029 caiu a 14,25%, vindo de 14,346% no ajuste. O DI para janeiro de 2031 registrou baixa de 14,585% a 14,465%.

Tanto no mercado de opções digitais de Copom quanto na precificação implícita na curva de juros futuros, a probabilidade de uma redução de 0,25 ponto porcentual da Selic em agosto estava em cerca de 90% no final da tarde desta terça. A maior mudança, porém, veio nas apostas na curva para setembro, que indicavam 40% de chance de outro corte de igual magnitude. Na segunda, esse porcentual estava em 30%, segundo cálculos de Flávio Serrano, economista-chefe do banco Bmg.

Em relatório no qual reviu a projeção para a alta do IPCA em 2026 de 5,2% para 4,9%, o economista-chefe para Brasil do Barclays, Roberto Secemski, informa prever que a Selic encerre o ano em 14%, após a redução de 0,25 ponto esperada para agosto. Embora avalie que o Comitê de Política Monetária (Copom) não deve dar qualquer orientação específica sobre as próximas reuniões, Secemski diz que “se a sequência recente de dados mais fracos persistir nas próximas semanas, o colegiado pode considerar a continuidade do ciclo de calibração além de agosto “

Marcelo Bacelar, gestor de portfólio da Azimut Brasil Wealth Management, afirma que o IPCA-15 chancela que o mercado “comece a flertar” com continuidade do ciclo de baixa dos juros, ainda que, em sua visão, a postura mais conservadora do Federal Reserve (Fed), que decide juros na quarta-feira, possa atrapalhar a distensão da Selic. A ampla maioria do mercado espera que o Fed mantenha a taxa básica inalterada agora, mas aumente os juros em setembro. “O fluxo estrangeiro piora e, nos juros, fica mais para tomado do que para aplicado. Fica esse vento contra do estrangeiro por causa de possíveis altas dos juros lá fora”, explica.

Já Sergio Goldenstein, sócio-fundador da Eytse Estratégia, aponta que, se o Comitê de Mercado Aberto (FOMC, em inglês) elevasse os juros nesta quarta-feira, poderia pressionar o câmbio e surtir algum efeito sobre os juros domésticos, mas uma alta em setembro já está precificada e, por isso, não retiraria espaço para o BC diminuir a Selic. “A atividade está mostrando sinais cada vez mais fortes de moderação, e a inflação corrente está muito mais benigna. Os dados domésticos dão conforto para o BC, que estava em postura dependente de dados. Ele não foi ‘dove’”, disse.

Do lado da oferta, o Tesouro Nacional optou novamente por vender lotes mínimos de Notas do Tesouro Nacional – Série B (NTN-B), com 150 mil títulos ofertados, dos quais 111,7 mil foram colocados. Segundo Goldenstein, a postura da autoridade fiscal foi acertada. “Faz sentido colocar lotes simbólicos, uma vez que não há demanda consistente”, afirmou.

T CSM
Fábio Andrade Contabilidade - Contador em Santa Maria DF
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