Um estudo divulgado nesta quarta-feira (25) pelo Centre for Research on Energy and Clean Air (CREA), em parceria com o Instituto Internacional Arayara, aponta que as atividades no complexo carbonífero de Candiota, no Rio Grande do Sul, podem provocar até 1,3 mil mortes e gerar prejuízos de R$ 11,7 bilhões em saúde até 2040.
Os efeitos da poluição se estendem para outras regiões do Brasil e podem alcançar a Argentina, o Paraguai e o Uruguai. O cálculo considera 430 mortes já ocorridas entre 2017 e 2025, além de 870 previstas entre 2026 e 2040.
“O carvão não é um contribuinte significativo para a matriz energética do Brasil, mas seus impactos negativos são desproporcionalmente altos”, afirmou Vera Tattari, analista do CREA e principal autora do relatório. Ela destacou a responsabilidade transfronteiriça das operações de mineração em Candiota pela saúde de milhares de pessoas.
A queima do carvão mineral brasileiro, com alto teor de cinzas, libera grandes quantidades de poluentes, como o material particulado fino (PM2.5), durante extração, manuseio e transporte. Essas emissões estão associadas a mortes por câncer de pulmão, doença pulmonar obstrutiva crônica (DPOC), doença cardíaca isquêmica, acidente vascular cerebral (AVC) e diabetes. Grupos vulneráveis incluem crianças, idosos e pessoas com problemas de saúde pré-existentes.
No Rio Grande do Sul, que detém 53% da produção de carvão do país e 89% das reservas, operam na região de Candiota as minas de Candiota (1,46 MTPA) e Seival Sul (1,6 MTPA), além das usinas termelétricas Candiota III (350 MW) e Pampa Sul (345 MW).
Os impactos à saúde abrangem grávidas e recém-nascidos, com estimativa de 460 partos prematuros e 270 nascimentos de bebês com baixo peso entre 2017 e 2040. A poluição também agrava a asma, levando a 1.730 visitas de emergência e 190 novos casos em crianças. Além disso, prevê-se 510 milhões de dias de faltas no trabalho, resultando em perdas de produtividade e econômicas.
O relatório conclui que a continuidade das usinas a carvão compromete os compromissos do Brasil no Acordo de Paris e contradiz seu potencial em energias renováveis, como hidrelétrica, eólica e solar. A energia fóssil representa apenas 1,6% da matriz elétrica brasileira, mas recebe subsídios públicos via Lei 15.269/2025, que garante contratação de usinas a carvão até 2040.
“O Brasil precisa avançar rumo a uma política de transição energética verdadeiramente justa e sustentável”, disse Juliano Bueno de Araújo, diretor técnico do Instituto Arayara.
O estudo recomenda: adotar cronograma para desativar usinas antes do fim das licenças; encerrar subsídios e isenções; reforçar fiscalização ambiental; exigir avaliações de impacto à saúde em licenças e decisões; e promover transição justa para trabalhadores, com requalificação e geração de renda.
Procurada pela Agência Brasil, a Associação Brasileira do Carvão Sustentável (ABCS), que representa as empresas carboníferas, informou que todas as emissões são monitoradas em tempo real, seguindo parâmetros seguros definidos pelas autoridades com base na ciência.
Com informações da Agência Brasil